22.2.12

Epifânia acidental


31 anos nesse mundo, aparentemente, ainda não foram suficientes para aprender a driblar alguns caprichos do meu organismo. Não, não me refiro a qualquer tipo de malfuncionamento intestinal, relaxem. Falo da minha espécie pessoal e bastante peculiar de insônia. O carnaval desse ano coincidiu com o fim das minhas férias e também o fim de uma era aqui em casa, já que a partir da quinta-feira os meninos começam a freqüentar a escolinha, e a preparação espiritual e química (e lícita, antes que alguém pergunte) para essa mudança iminente fez com que eu dormisse muito pouco nos últimos 3 dias, coisa de 7 horas ao todo (um sono de 3h e outro de 4) entrecortando outras 65 acordado. Hoje, véspera da quarta-feira de cinzas, a idéia era estar tão moído que adormeceria à meia-noite e ajustaria pois os horários.

Heh. Claro que, a despeito do total comprometimento com o plano, de ter deitado na hora programada, no quarto escuro e silencioso, de ter confirmado a existência do sono (diversas viagens de ônibus ao longo da adolescência e vida adulta me levaram a desenvolver uma forma de perceber se estava ou não a ponto de adormecer, mesmo quando não havia manifestação física – bocejos, olhos pesados - de sono. Basicamente, eu fecho os olhos e conto quantas imagens aleatórias surgem na minha cabeça, e com que freqüência. Quanto mais nítida e menos coerente a minha torrente de pensamentos estiver, mais perto de dormir eu estou. Isso era crucial para decidir a hora de interromper a leitura ou guardar o discman antes de capotar e sem ter que ficar entediado por muito tempo até finalmente embarcar de vez), o planejamento foi um fracasso retumbante. Cheguei a sentir o relaxamento muscular que precede o apagar da consciência, mas, olhai e regozijai-vos, o sono me evadiu completamente de uma hora pra outra (provavelmente com uma gargalhada maligna) e cá estou eu.

Na vã tentativa de implorar pela volta desse sono que me deixa só, liguei a caixinha de som de cabeceira, selecionei alguns discos só de piano, boa parte dos quais são meus chama-sono desde aquela época das viagens de 17h num Itapemirim sacolejante, e fechei os olhos. Resultado? A insônia agora havia virado uma súbita inspiração para escrever. Bom trabalho, cérebro!

E é por isso que estou aqui, com o notebook apoiado na barriga, passando calor, e escrevendo a atualização trienal do blog para falar por parágrafos sem fim sobre... ouvir música num quarto escuro.

Eu sempre tive uma relação especial com as artes, em especial com música. Pode-se argumentar que a música, por suas características, é uma forma de arte que evoca reconhecimento independente da vontade do interlocutor (e acreditem quando digo que há uns bons anos existe um rascunho de texto sobre o assunto circulando pelos meus axônios só esperando uma luz verde neuronal para ser devidamente produzido) , mas não seria correto afirmar que todo mundo tem o mesmo envolvimento com música. A música é a linguagem universal, mas cada um tem seu próprio nível de compreensão de discurso. Da mesma forma que duas pessoas que sabem perfeitamente falar português podem entender ou não entender o mesmo texto, digamos, um livro do Stephen Hawking – duas pessoas que “falam” música (e para tanto basta ter alma) podem extrair da mesma harmonia um intrincado enredo ou apenas algumas sílabas monótonas. Poderia ir bem mais longe nessa linha de argumentação, e pretendo, mas em outro texto. O foco de hoje é outro, e só evoquei essa introdução para explicar que não estou sendo pedante ou redundante ao estabelecer minha relação com a música como algo extra-ordinário.

Como de praxe na minha vida atualmente, resolvi analisar essa reflexão errática que brotou na minha cabeça quando eu deveria estar roncando e lapidá-la em alguma lição que eu possa passar para meus filhos. E sempre que eu me proponho a fazer isso eu acabo embarcando numa das minhas boas (?) e velhas viagens de autoanálise, dignas dos primeiros anos desse blog, só que agora com uma causa nobre e um tanto a mais de objetividade (ou não, vejam quantas linhas já escrevi e ainda nem terminei o abstrato). E a primeira coisa que eu notei é que essa situação, de estar no escuro, ouvindo uma música de olhos fechados, me transporta imediatamente a vários momentos da minha infância e juventude em que eu fazia exatamente isso. Em vários pontos da vida, em várias situações, em vários estados evolutivos, essa atividade esteve presente, e eu nunca tinha pensado sobre isso.

Também fui perceber que todas as memórias dessa situação, TODAS, são boas lembranças. Mesmo quando, na hora, eu estava mal (e não foram poucas as vezes em que eu estava, de fato, péssimo), a lembrança é acolhedora. E outra coisa que me espantou foi constatar que, todas as vezes que eu fiz isso, eu atingia o ápice da minha introspecção. Nas lembranças, sempre estou total e verdadeiramente sozinho. E, francamente, eu nunca fui um grande fã de ficar sozinho. Sempre soube da importância da auto-suficiência, sempre prezei a liberdade acima de qualquer coisa, mas a verdade é que não via nenhum apelo no isolamento ou na solidão. Ou achava que não via. Em retrospecto, alguns dos momentos mais marcantes e mais saudosos da minha criação era momentos de absoluta e voluntária individualidade.

E de repente eu estava tentando entender por que eu tinha tido uma memória ativada pela simples (e, na minha cabeça, corriqueira) atitude de botar uma música para tocar enquanto tentava limpar a mente, e quando exatamente isso passou a ser tão raro na minha vida que a mais recente lembrança trazida de volta por aquela caixinha de som era de muitos anos atrás. E acho que sei a resposta.

Eu fui um adolescente muito tímido, e como é basicamente na adolescência que temos nossa primeira revisão de identidade (que é, para todos os efeitos, a única aos olhos do próprio adolescente), timidez virou uma das minhas características definidoras por muito tempo, o que hoje em dia eu sei que era uma besteira sem tamanho, porque até meus 10, 11 anos eu era um moleque espivetado cheio de amigos e absolutamente amava qualquer tipo de atenção. Pois bem, a adolescência passou, a timidez também “passou” (graças às aulas de teatro, pensava eu) e ficou por isso mesmo, eu era agora um ex-tímido convertido em ser social através de prática e treino. Mas minhas atividades intimistas – passar horas mergulhado em livros, jogando RPGs de videogame com 2 mil horas de enredo, ou no escuro ouvindo Beethoven e John Williams – eram também parte da minha identidade e sempre seriam.

E, no entanto, faz tempo que não consigo parar para ler mais do que 2 páginas de qualquer livro, não jogo RPG e provavelmente nem falo mais sobre há mais de 8 anos e ouvir música pra mim virou atividade exclusiva de deslocamentos de carro, sempre como pano de fundo para o trânsito. O que diabos aconteceu? Porque também não é como se não tivesse NENHUM tempo sobrando na vida pra um pouco de lazer, é só que de alguma forma eu sempre acabo optando por...

Oh-oh.

Acontece que lá por 1996 eu ganhei um computador do meu pai, que na época morava no Maranhão (e eu em Santa Catarina) e com quem eu estava perigosamente perto de perder completamente o contato. A solução que ele encontrou foi financiar em trocentas vezes um par de IBM Aptivas para que nós driblássemos os custos proibitivos de interurbano com a tal da Internet. E, como bônus, eu ainda tinha acesso a uma fonte virtualmente infinita de páginas da World Wide Web (que devia caber inteira no meu atual HD de 1 Terabyte). Era o paraíso de um adolescente introspectivo que adorava ler. Textos, textos everywhere! Como naquela época se navegava com incríveis modems 2.400bps (isso são BITS POR SEGUNDO, crianças. Sua banda larga atualmente, se vc for MUITO mão de vaca, opera no mínimo a 524.288bps e você ainda xinga porque leva 15 minutos pra carregar a home do UOL) que ocupavam a única linha telefônica da casa (a única mesmo, pq ninguém tinha celular) e cobravam 10 cenavos a cada 4 minutos a título de pulso, exceto entre 0h e 6h, entrar na internet durante o dia era fora de questão. E eu não podia ficar acordado depois da meia-noite pra acessar porque estudava de manhã, então eu desenvolvi o hábito de levantar 1h e meia antes do horário de me arrumar pro colégio, às CINCO E MEIA da matina, só para surfar a web. Em 1996, isso provavelmente era justificativa legal válida para minha internação, mas eu não estava nem aí, passava horas no Webcrawler (e, depois, no AltaVista; Google é coisa de piá de prédio criado a leite com pêra) caçando páginas legais para ler. A internet era tão pequena naquela época que o Yahoo! tinha a opção de listar as páginas por assunto. Não é piada.

Enfim, tudo estava se encaminhando perfeitamente, até que eu resolvi me inscrever numa lista de e-mail (isso foi antes de inventarem fóruns em PHP, e provavelmente antes de inventarem o PHP) sobre RPG, que era um grande interesse meu na época, mas que era um hobby pouco difundido e especialmente obscuro numa cidade como Florianópolis. Minha idéia era apenas buscar gente pra trocar figurinhas sobre aquele assunto em específico, mas a lista era bem mais movimentada do que eu esperava, e era muito interativa. E quase todos os assinantes se conheciam pessoalmente e tinham várias histórias para contar, muitas nem relacionadas com RPG. E um dia alguém me avisou que essa galera estava se comunicando em tempo real através do IRC, e eu resolvi ver qual era, e daí foi ladeira abaixo.

Essa época da minha vida foi a que eu considerei, por muito tempo, o desabrochar da minha socialidade. Mas na verdade era só um reencontro com minha natureza social que há anos estava reprimida. Em um ano eu já havia me decidido a sair de Floripa e ir morar no Rio, aonde a maior parte daquela turma vivia, e aonde eu já havia morado há muitos anos, mas que revisitei graças àquela turma e voltei para casa atordoado com o quanto a cidade era sociável, como todo mundo se tratava como se já se conhecesse, como eu havia sido acolhido e bem tratado por gente que acabara de me conhecer, com a quantidade de vida que existia aqui. Em dois anos, já tinha até arrumado a desculpa para vir – estudar música na UFRJ, plano que se adaptou rapidamente para estudar música na Villa-Lobos quando eu falhei espetacularmente na prova de habilidade específica do vestibular. O importante era ficar. No meu primeiro ano morando aqui, eu não parava em casa. Sempre tinha uma reunião, uma festa, um encontro da galera. Passar um fim-de-semana sequer sem sair de casa me dava a sensação de ser enterrado vivo.

Mas ei, eu ainda tinha bastante tempo para dedicar a mim mesmo, aos livros, à música, ao ócio criativo. Morava sozinho e estava realmente curtindo toda aquela coisa de aprender a gerenciar uma casa, uma economia doméstica, etc. Fora que eu estudava piano, então tempo sozinho com uma música nunca me faltava.

Só que nessa época eu também já pagava minha conta telefônica, e também fazia meus horários, e o ritual de toda santa meia-noite me conectar no IRC e ficar jogando conversa fora era sagrado. Fins de semana, que tinham pulso livre, nem se fala. E não tardou a surgirem os provedores de internet discada que não cobravam pulso, e aí, podia muito bem ter jogado fora o aparelho telefônico da minha casa, porque a linha era do computador e de mais ninguém. Quem quisesse falar comigo que me mandasse um e-mail, ou me achasse no IRC, ou no meu ICQ, que vivia bombando, por sinal. Mais ou menos nessa época, ler qualquer coisa em papel começou a ficar relegado a trajetos de ônibus e metrô, mas o resto continuava firme e forte. Eu estudava, lia, ouvia músicas, escrevia, compunha. Foi uma época de ouro pra mim, para ser melhor só se eu tivesse qualquer tipo de sustentabilidade econômica ou responsabilidade com meus estudos, mas isso é detalhe. Estava vivendo o sonho colorido de qualquer artista.

Mas aí o calo apertou, a mesada encurtou, a matrícula jubilou e eu tive que me endireitar. O tempo pra mim já não era mais tão ilimitado, mas ainda estava lá, e eu ainda conseguia conciliar isso com a interação diária com vários amigos daqui ou do outro lado do mundo, que sempre estavam ali pra puxar uma conversa. Aí eventualmente vieram as tais das redes sociais, fotolog (heh), Orkut, e de repente eu conhecia um monte de gente (olha, mãe, mais de 100 amigos!) e tinha um monte de assuntos diferentes para debater, convenientemente divididos em comunidades, e sempre tinha gente fazendo chat coletivo no MSN, e às vezes eu conseguia ouvir música enquanto batia papo, e uma ou duas vezes por mês eu lia alguma coisa, mas quase sempre eram textos técnicos porque a faculdade (agora de informática -  não perguntem) tava puxada, e eu quase não conseguia prestar atenção nas poucas aulas que freqüentava, afinal os papos sempre se estendiam até altas horas e quando eu via já estava de manhã.

Hoje eu sou casado, pai de duas crianças lindas e hiperativas, trabalho há 8 anos no mesmo tribunal, pago aluguel e contas todo santo mês, e ainda assim consigo manter um bom nível de atividade em pelo menos 3 redes sociais, mais as outras sei lá quantas que eu uso esporadicamente, to sempre conversando com todo mundo no gtalk, e isso sem nem mencionar o fucking twitter, que eu to o dia inteiro espiando sempre que sobram 10 segundos pra puxar o smartphone do bolso.

Ou seja.

A triste realidade é que a vida social matou meu tempo particular. Sim, quem diria, o moleque sem vida social agora não consegue desgrudar da mesma por 90 minutos pra ouvir um disco do começo ao fim. Eu disse 90 minutos? Se um vídeo do Youtube tem mais de 8 minutos, eu preciso marcar hora na agenda pra assistir. Muito tempo! Pensa no quanto eu terei que rolar da timeline pra me manter interado quando voltar! Alguém pode morrer nesse meio tempo e eu vou perder todas as piadas e hashtags do momento!
A bem da verdade, o pouco de cultura que eu ainda consumo, é aquela que está socialmente em voga. Eu comecei a assistir séries de TV porque muita gente que eu conheço assistia e porque eu ficaria de fora das conversas se perdesse. Filmes, hoje em dia, só achando torrent dos lançamentos que estão sendo comentados (sim, porque ir ao cinema é um hábito morto e enterrado pra quem tem filhos pequenos em casa). Por outro lado, tenho visto muito mais TV, em especial TV aberta, especificamente o que quer que esteja sendo trending topic no twitter naquele exato momento, porque é um olho na TV e outro na grande rodinha de churrasco virtual que é aquele troço. Me desconectar das pessoas para fazer qualquer coisa sozinho é um ato consciente e que requer energia. Se deixar, eu passo a vida toda surfando o zeitgeist e só parando pra escutar o chiado do silêncio em uma mp3 mal editada por puro acidente.

E, que engraçado, esse chiado é que ativou a minha memória auditiva que desencadeou todo esse insight. É o som comum a todos aqueles momentos tão distantes entre si na história, aqueles pequenos segundos após o fim de uma música em que só o barulho da fita não gravada soava nos fones de ouvido. O último segundo antes de adormecer.

Acho que vou ouvir o chiadinho novamente.

14.10.11

Estava lendo uma matéria hoje sobre mais um atrito entre classe média paulistana e "gente diferenciada" e, no meio da lenga-lenga de sempre, me chamou a atenção uma passagem aonde uma distinta senhora, após hilariamente sugerir ao promotor "botar um abrigo na porta de sua casa" já que ele curte sem-teto (um funcionário do estado exercendo sua função de cuidar da população carente só pode ser um bróder das quebrada que adora socializar com mendigos, doravante um bandido imundo da mesma laia), diz que não tem nada contra os sem-teto pois "até contribui financeiramente com um abrigo no Brás."

Disse minha esposa que essa era uma nova versão do "não sou preconceituoso, até tenho um amigo negro." Ou talvez do mais atual "não sou homofóbico, tenho amigos homosexuais" que anda tão na moda.

Acho engraçado como essa é a primeira bandeira levantada pelos discriminadores raciais ou sociais, a de que eles têm amigos/conhecidos da classe supostamente odiada e portanto não podem ser tachados de preconceituosos. É tipo o cartão "saia da cadeia de graça" do racista.

O que não me entra na cabeça é como tanta gente pode se apoiar numa falácia tão fraca como se fosse um argumento sólido. É óbvio que ter amigos gays, negros, pobres, argentinos, etc. NADA TEM A VER com a existência ou não de preconceito. De pré-conceito. Quando se conhece uma pessoa a ponto de considerá-la um indivíduo, não um membro anônimo de um grupo ou uma casta, você automaticamente tem um pós-conceito da pessoa. Você já a conhece. Natural então que esse indivíduo seja avaliado pelas suas características pessoais, não pela predisposição com seu rótulo. Se é um negro, gay, ou sem-teto gente fina, se o "santo bate," ele passa a ser um amigo, um colega, um conhecido. Não cabe nenhum preconceito nessa situação.

Preconceito se tem contra o desconhecido. Contra o não-individualizado. Não importa quantos amigos homosexuais você tenha, se quando você vê um homosexual desconhecido na rua você projeta nele todo um estereótipo odioso, então, filhão, você é preconceituoso até a raiz do cabelo. Se quando alguém evoca na sua mente um negro hipotético e você já o materializa como uma figura que você atravessaria a rua para não cruzar, então você é um racista filho da puta não importa quantos negros você chame de irmãos. É simples. É lógico.

E a verdade é que o preconceituoso que tem amigos da cor, da nacionalidade, da classe social ou da preferência sexual que odeia é o pior preconceituoso. Porque não existe desculpa no mundo pra se ter contato direto com exemplos reais do objeto de discriminação e AINDA ASSIM separar os indivíduos reais da figura hipotética. Antes dissessem que não frequentam nem o mesmo bairro que gays ou negros ou mendigos. Seria mais fácil de compreender. Ser homofóbico tendo amigos gays, ou ser higienista social contribuindo com caridade, é uma ignorância voluntária e nociva e é o verdadeiro cerne dessa onda de violência reacionária que acontece atualmente no mundo inteiro. É cada vez mais difícil viver isolado de outros grupos, é cada vez mais difícil não ter a chance de pelo menos um contato com um exemplo real de cada tipo de gente que existe no mundo. E mesmo assim, as mentes tacanhas não sabem processar, reagem, inventam uma separação entre o pré- e o pós-conceito e vomitam todo tipo de idiotice para quem quiser ouvir.

É engraçado, mas é triste.

7.2.11

Tem um segredo na vida que eu pretendo revelar para meus filhos assim que eles tiverem idade para compreender, um segredo que eu, mesmo, só fui descobrir depois de velho, e que uniu algumas pontas soltas percebidas na juventude de forma elegante e satisfatória. Um segredo que muita gente jamais descobre, e que pode dar algum conforto aos nenéns conforme eles vão construindo sua estrutura social, uma etapa sempre complicada da vida.

E o segredo é: Não existe bom nem ruim. Todas as coisas te dão exatamente o quanto você está disposto a investir nelas.

Isso pode não parecer segredo nenhum e ser até bem óbvio para a maioria das pessoas, uma vez que é dito. Mas de alguma forma, não é assim que a maioria das pessoas reage ao analisar o comprometimento dos iguais com as coisas que lhes apetecem. O famoso "gosto pessoal," tão presente nos ditados que compõem o senso comum.

Claro, a inexistência do bom e do ruim não significa que as coisas (e vou estreitar aqui o discurso sem perda de generalidade transformando "coisas" em "produtos de arte e entretenimento" - música, filmes, livros, movimentos culturais, etc.) não possam ser avaliadas em termos objetivos e universais. Podemos avaliá-los, por exemplo, na escala de tosco/elaborado ou na de formulaico/criativo. Ambas as medidas são costumeiramente confundidas com ruim/bom, mas isso é uma bobagem. Mais sobre o assunto adiante.

Antes de mais nada, um pouco de background. Não é segredo para ninguém que no meu "estágio probatório" de convívio social eu escolhi o caminho do que classicamente se chama de Nerd. O que significa que eu interagia menos do que o "normal" com as pessoas ao meu redor, e - talvez por consequência - absorvia menos dos gostos e interesses "normais" (o termo normal aqui é usado estritamente no sentido estatístico). Por ter também aprendido a ler mais cedo do que a média (e, em contrapartida, ter um desenvolvimento tardio da coordenação motora) o espaço que os esportes e as atividades físicas ocupam no desenvolvimento padrão de uma criança foi tomado pelas atividades mentais - leitura, principalmente. Por consequência, eu estava investido em obras mais complexas mais cedo do que o padrão.

Como é natural dessa fase do desenvolvimento social, durante toda a infância e adolescência, a combinação de fatores supracitados me levou a entrar no "time" das crianças em situação vagamente similar e ser um Nerd por todo esse estágio em que precisamos de rótulos facilmente identificáveis para sobreviver ao furacão da interação social. E como é igualmente natural, as crianças que eram categorizadas da mesma forma conviviam e trocavam experiências e gostos, e assim eu fui devidamente imbuído da subcultura nerd clássica - todos aqueles interesses que são tão bem-aceitos no meio que viram bandeiras do segmento social, defendidas com unhas e dentes como se fossem elas mesmas a própria identidade do indivíduo. Quadrinhos de super-heróis, RPG, Ficção Científica, Épicos de fantasia, camiseta de banda de rock, o pacote completo.

Nessa fase da vida, quando estamos fixando o conceito abstrato de Ruim/Bom, os interesses em que a nossa subcultura de "escolha" tem maior investimento viram nosso parágono de qualidade, e os interesses mais alienados pelos nossos iguais são rechaçados como ruins. Talvez não o fossem, se jovens em formação social não confundissem seus gostos pessoais com estandartes (e, o verdadeiro erro, os gostos pessoais de outras subculturas como bandeiras inimigas).

Esse processo me parece universal, e mesmo não tendo tido outras infâncias enquadrado em outras subculturas, acredito que seja a mesma coisa em qualquer caminho trilhado. Só que essa fase acaba e eventualmente o mundo, com toda a sua pluralidade cultural, se abre para que nós possamos enfim sermos indivíduos interagindo além das castas escolares. Claro, círculos sociais ainde existem, afinal mesmo uma mente adulta precisa de algum tipo de classificação para saber lidar com as milhares de pessoas que cruzam seu caminho ao longo da vida. Mas não existe mais a pressão implacável dos iguais para que reforcemos o estereótipo, pois as bandeiras da juventude perdem importância diante dos desafios individuais que a vida adulta apresenta (carreira, vida amorosa, família).

Infelizmente, nem todo mundo consegue superar a confusão identidade/subcultura e nunca realmente se permite olhar por cima do muro cultural auto-imposto e nas "bandeiras inimigas." O que é deprimente, de fato, porque o enquadramento em uma subcultura é resultado dos interesses individuais em dado ponto da vida - interesses que podem vir dos pais, dos amigos, da televisão, de qualquer lugar, mas que são essencialmente nossos, porque os selecionamos espontaneamente e investimos neles. Uma vez que caímos numa sociedade que largamente caga e anda para nossos próprios investimentos, ater-se a uma subcultura juvenil é limitar voluntariamente seu repertório.

No meu caso, eu tive sorte. Das várias turmas que tive desde o fim da adolescência, mesmo compostas basicamente por nerds, todas tinham pessoas com gostos pessoais que iam além do "socialmente aceito" para um nerd colegial. Sempre tinha alguém que gostava de alguma coisa que durante a juventude tinha sido parte de outra casta, e minha curiosidade sempre falou mais alto que o preconceito herdado dos rótulos. Aprendi a gostar de esportes, acompanhar, torcer, discutir. Comecei a ver filmes e ler livros de gêneros que antes não me interessavam. Da minha própria infância e das influências familiares resgatei também outros interesses grandes, como a música clássica e a MPB. Expandi bastante meus horizontes musicais, avaliando sem preconceitos a música eletrônica, a música pop, a música regional, e tantos outros estilos largamente hostilizados pela subcultura nerd. Aprendi a prestar atenção na televisão antes de jogar toda a programação de todos os canais no mesmo balaio pretensiosamente rotulado de "lixo cultural." Aliás, aprendi que não existe lixo cultural.

Eu perdi até mesmo o receio de dançar, e por anos me joguei em baladas rock e pop diversas vezes por semana, dançando em palquinhos sem medo de ser feliz! Isso sim é quebra de estereótipo =P

E a verdadeira lição que eu tirei disso tudo é que existe "bom" em qualquer lugar. Basta que se invista atenção e tempo suficientes em uma obra para que essa obra o recompense com todas as sensações que se associa a uma experiência boa. Como todos nós investimos naquilo que é "obrigatório" para aceitação na tribo em que nos jogam lá nos meados da nossa infância.

E, como eu disse antes, mesmo obras universalmente toscas podem ser boas. Conheço muita gente que tira verdadeira satisfação de obras toscas. Quanto mais tosca, melhor. Isso não é nenhuma falha de caráter nem tampouco pobreza de espírito. Alguém que se dispõe a ser entretido pela tosqueira pode achar uma fonte infinita de recompensas, afinal o tosco é cru, amorfo, acidentado, e portanto rico em detalhes. Basta que alguém realmente queira ser entretido pelos detalhes dissonantes, há mais deles em obras toscas do que em qualquer obra ultra-elaborada.

Também conheço muita, muita gente mesmo, que realmente aprecia o formulaico. Esse caso é mais complexo, porque o lance da fórmula é que ela pega um investimento e transfere para diversas outras obras. Há quem consiga extrair a diversão de cada uma delas, e há quem já tenha recolhido todo o investimento e não encontre mais qualquer diversão em mais do mesmo. Isso significa que o criativo e novo é melhor do que o formulaico e, portanto, "bom?" Não. Tudo o que é realmente novo é isento de qualquer investimento. A mente humana não consegue sequer compreender algo realmente novo da primeira vez que absorve. É preciso investir, tempo, atenção, vontade, para que algo inédito comece a ser satisfatório. É por isso que tem músicas que soam estranhas mas depois de algumas repetições "entram" na nossa cabeça e passam a ser do nosso gosto. Gostamos do que está em algum ponto entre o totalmente inédito e o totalmente saturado. Não tem nada a ver com bom ou ruim.

Por isso é que desde cedo, pretendo ensinar aos meninos que é normal procurar um molde, uma identidade, especialmente nos primeiros anos da vida. E que é natural viver esse molde como a própria identidade por uns anos. Mas esse estágio passa, e dali por diante, sempre ignore qualquer tentativa de qualquer pessoa tentar ensiná-los o que é bom e o que é ruim, ou pior, o que eles devem ou não devem gostar. Esse tipo de pregação moral não tem fundamento, é o ranço de uma fase com início e fim em que a linha entre aceitação e aceitável é difusa, e que restringir a satisfação que se pode receber da arte e do entretenimento com base nessas regras furadas é desperdiçar amplamente os prazeres sensoriais que a vida nos oferece.

15.10.10

Aos pais de merda

Sempre soube que a paternidade mudava radicalmente a nossa vida, mas confesso que minha rica e intensa experiência tem me moldado para caminhos que eu não esperava. Nunca fui, por exemplo, dado a rótulos como "de merda." Raramente na vida considerei alguém digno de ser ser denegrido a esse ponto, porque sempre fui compelido por uma vocação de alma a analisar todos os pontos de vista de uma questão e entender as causas ao invés de julgar os efeitos. Claro, isso nunca me impediu de aplicar a pecha a alguns desafetos com a intenção específica de desabafar, mas realmente considerar alguém um merda, até hoje tinha sido difícil. Todo tipo de falha de caráter ou de amoralidade que eu presenciei pessoalmente tinha alguma base ou justificativa torta em fraquezas corriqueiras do ser humano. Todo mundo tinha alguma lógica para se considerar protagonista da própria vida e eu em geral entendia e respeitava essas coisas, afinal, cada um sabe a dor e a delícia (ou o inferno) de ser o que é.

Mas agora que sou pai, e avaliando a meu redor a capacidade de outros pais de desestruturar e causar dor a seus filhos - que infelizmente tenho testemunhado bem mais do que eu gostaria - eu sei que não existe justificativa, por mais remota que seja, para massacrar quem você mesmo botou no mundo. Ninguém pede para nascer, mas também ninguém é obrigado a procriar. O prazer envolvido no ato, a vocação genética, nada disso pode ser usado como desculpa no século XXI com inúmeras alternativas acessíveis para foder sem conceber. A partir do momento em que se inflige a vida (por assim dizer) a alguém, essa vida está na sua conta pelo resto dos seus dias. Fazer miserável essa vida que também não lhe pediu para nascer, é ser sim um merda no sentido amplo e profundo do termo. Um merda com pedigree.

A maioria dos pais de merda justificam sua própria incompetência com a incompetência de seus próprios pais, o que é a coisa mais merda a se dizer na vida. Que tipo de escroto repassa uma violência sofrida a um terceiro inocente? Uma variação dessa corja são os filhos de pais de merda que decidem que criarão seus filhos da forma exatamente oposta à que foram criados, uma armadilha muito comum entre os ineptos de bosta que criam pequenos monstrinhos. Dica para quem planeja fazer isso com seus próprios filhos: O oposto de um erro não é necessariamente um acerto. Por "não necessariamente" leia-se "quase nunca."

Outra grande babaquice que pais de merda dizem para justificar o injustificável é jogar a culpa da relação degradante nos filhos, tratá-los como se fossem casos perdidos, decepções, potenciais que fracassaram. Esses putos esquecem que se seus filhos são deficientes em algum aspecto, é basicamente porque eles foram incapazes de formá-los a contento. Muitos idiotas acham que um bebê é uma esponja que eles podem preencher com o que quiserem, um autômato que nascerá compreendendo comandos verbais e que viverá em função dos sonhos e ambições (muitas vezes transferidos das próprias frustrações) dos pais. É impressionante que isso seja surpresa para alguém, mas bebês nascem com personalidade própria. O aprendizado do ser humano acontece em fases bem distintas e apenas a última delas, se tanto, envolve a aceitação de lições verbalizadas. E mesmo essa aceitação é indireta, complexa, sujeita aos caprichos da alma da criança. Pais que falham em reconhecer isso e posteriormente oprimem seus filhos com cobranças, antagonismos e decepção, são duplamente merdas por terceirizar a própria inaptidão. Covardes de merda.

Inclusive, vai aí a dica mais valiosa que eu posso dar para alguém nesse momento da minha vida, algo que realmente ficou muito evidente depois que virei pai. Pessoas que ainda estão naquele estágio de terminar relacionamentos por incompatibilidade, por favor evitem ter filhos. Claro que a paternidade (ou maternidade) pode ter um efeito mágico e causar um amadurecimento instantâneo que a viabilize, mas se isso não acontecer, as chances de você se tornar um pai ou mãe de bosta são grandes. Seus filhos terão um relacionamento com você tão intenso quanto qualquer casamento, possivelmente mais. Eles vão ter horários diferentes dos seus. Vão demandar mais do que oferecem em troca por grande parte da vida. Todos, sem exceção, são egocêntricos (que ao pai de merda parece egoísmo) por algum tempo, todos estão aprendendo a ouvir, falar, ler, contar, tudo ao mesmo tempo e tudo do zero. Todos nascem num ciclo de subsistência básico e só com o tempo vão lapidando a moral e o caráter. Todos vão torrar seu dinheiro, dominar sua casa, contestar suas decisões e, depois de anos dessa relação sugadora e acorrentadora, se a natureza seguir seu curso padrão, eles trocarão seu afeto pelo de outra pessoa, normalmente bem mais jovem.

Então, se você não está preparado para amar dessa forma, se não consegue se imaginar passando anos ao lado de alguém que ultrapassa todos os seus limites e que não abre brechas para repensar relacionamento ou espairar, então evite ter filhos. Mesmo. Eu diria até "não tenha," uma postura radical dessas inviabilizaria a existência de duas das coisas mais preciosas da minha vida, o que significa que algumas pessoas podem fazer um enorme bem apesar de seus pais de merda. Mas não posso endossar de forma alguma o tipo de sofrimento a que o filho de um merda é submetido. Sei que sofrimento é importante e engrandece a alma, mas fontes de sofrimento nesse mundo não faltam, a família não precisa fornecer ESSE aprendizado.

Eu, felizmente, estou pronto. E para quem sabe do que se trata e aceita os termos do contrato, ser pai é a melhor coisa do mundo.

7.4.10

Carta ao bebê

Filho(a),

Eu sei que você só vai receber essa carta daqui a uns 8 meses, e que só vai ser capaz de lê-la mais uns tantos anos adiante. Mas seu pai tem pressa de te contar sobre todas as coisas que você já está fazendo com ele antes mesmo de sabermos se você é um menino ou uma menina. Desde que nós descobrimos que você estava a caminho, tanta coisa aconteceu que eu mal tive tempo de me concentrar em você, mas a verdade é que eu não aguento mais esperar para te conhecer. E olha que ainda falta uma eternidade!

Você veio de surpresa, apressadamente, nem esperou seus pais se organizaram para morar juntos, mas não posso em sã consciência dizer que você não foi um bebê planejado. Já falávamos de você há algum tempo, seu nome sempre figurando dos nossos planos futuros de sermos uma família feliz. E quando eu descobri que você havia furado a fila e resolvido vir até nós antes do tempo, minha vida mudou tão de repente e tão completamente que me fez descobrir todo um novo universo.

Eu sempre soube que queria ter filhos, mas nunca parei para pensar no porquê. Sempre foi algo meio arraigado no meu conceito de família. E de repente, tudo fez sentido. Sabe, seu pai sempre viveu a vida aproveitando cada detalhe dela, sempre olhou para o mundo com olhos inquisitivos e sempre direcionou a própria vida no sentido das descobertas. Sou um pai curioso. Vivi nesses quase 30 anos que separam nossas chegadas ao mundo mais vidas do que muita gente vive em 80. Morei em muitos lugares, tive muitas turmas, muitas casas, muitas aventuras. E dentro da minha cabeça, foram outras tantas, vividas pelos livros, pelos filmes, pelo faz-de-conta. Mais do que uma narrativa linear, para mim a vida é feita de cheiros, cores, sons, sensações. Mecanismos. Pessoas que vêm e vão e as marcas que elas deixam. Só que os anos foram trazendo compromissos e levando liberdades, como é natural da vida adulta. O potencial infinito se torna uma realidade finita, e o tempo para prestar atenção nas cores e para construir mundos no faz-de-conta fica escasso, roubado pelas responsabilidades.

E no momento em que eu descobri que ia ser pai, foi como se, subitamente, eu tivesse a chance de redescobrir o mundo pelos seus olhos, pelo seu sorriso, seu choro, seu abraço. Subitamente as responsabilidades da vida adulta ganharam um propósito simples e que tudo justifica, que é te dar seus 30 anos de sensações, descobertas e aventuras, para que você também curta esse mundo que, apesar dos pesares, pode ser muito divertido. E eu posso dizer que tenho uma certa pena, hoje em dia, de pessoas que têm filhos sem desejar isso. É uma experiência que não deve fazer sentido para quem encara a vida como uma série de dificuldades.

Eu sei que provavelmente vou passar a maior parte do meu tempo me preocupando com sua educação, com sua formação moral e com sua saúde e bem-estar, mas a vontade que eu sinto mesmo lá no fundo é de me tornar criança de novo e crescer junto com você, compartilhando as brincadeiras, as histórias, as aventuras, sendo seu melhor amigo. E claro que eu sei que você crescerá num mundo diferente do meu, numa época diferente, mas eu quero muito que você veja e sinta tudo o que eu vi e senti, mesmo que com detalhes e circunstâncias diferentes. Não vou ser desses pais que ficam insistindo pros filhos brincarem das mesmas coisas que brincavam em sua época, nem vou te levar pros mesmos lugares onde eu cresci (até porque, muitos deles nem existem mais), mas cada vez que você pousar seus olhinhos curiosos sobre algo novo, pode ter certeza que eu vou estar fixado e mergulhado no reflexo das suas íris (que nem sei que cor terão), tentando enxergar o mundo que você enxerga.

Espero que você goste de mim como eu já gosto de você. Que nós nos demos bem, porque um dia teremos que nos separar para que você mesmo(a) siga sua vida adulta como você decidir, e a partir daí nossa relação simbiótica se quebra e só o que resta é a amizade que, espero, nascerá ao longo dos próximos anos. De minha parte, eu já te amo de uma forma louca e diferente de qualquer outro amor que eu já experimentei, porque estou acostumado a conhecer as pessoas de fora para dentro, e você eu vou conhecer de dentro para fora, assistir ao nascimento das suas idiosincrasias, seus traços, manias e - espero que poucas - cicatrizes. Já você, vai me ter como ícone por algum tempo antes de começar a finalmente me conhecer, quando a inevitável adolescência chegar. Espero não te decepcionar muito.

E é isso. Estou ansioso para começarmos, tenho grandes planos para nós, planos que certamente serão refeitos muitas e muitas vezes, mas nunca abandonados, porque ser pai é uma ocupação integral e, agora que eu virei um, não abro mão de ser tão cedo. Na verdade, eu quero é ser logo. Tome seu tempo aí na barriga da mamãe, mas não demore muito, estou contando as horas para o nosso primeiro abraço.

Seu pai.

Rio de Janeiro, 07 de Abril de 2010

22.2.10

Tenho uma confissão bombástica a fazer, então vou direto ao ponto: eu estou assistindo a décima edição do Big Brother Brasil.

Não é a primeira vez que eu assisto o programa, eu acompanhei da metade pro fim as eliminações da segunda edição (mais ouvi do que vi, na verdade, porque a TV ficava ligada e eu ficava no computador fazendo outras coisas), e eu evidentemente fiquei a par do desenrolar da sétima edição, porque também não se falava em outra coisa na época. Mas essa é a primeira vez em que eu fui pego no esquema de acompanhar as provas, as formações de paredão, a maioria das edições, e até mesmo - *gasp* - as festas. E confesso que pela primeira vez na vida usei minha conta véia de guerra da Globo.com para espiar o streaming vez ou outra (não tenho Multishow para assistir a meia hora extra, então me viro como posso).

Atribuo essa mudança de postura a três fatores chave. O primeiro foi o fato da minha noiva assistir, o que me fez ter que optar entre ficar olhando pro infinito pensando "lugar feliz, lugar feliz" ou parar e assistir junto, já que o horário do programa não era propício a qualquer outra atividade conjunta. O segundo foi a boa escolha de elenco desse ano, que me pareceu bem menos genérica do que a de anos anteriores - mas talvez isso seja consequência do primeiro fator, já que eu dediquei mais do que 5 segundos da minha atenção para conhecer os participantes. E terceiro, mas não menos importante, foi o fato desse ano ser o ano do Twitter - que é ao mesmo tempo uma rede social mais seletiva e mais abrangente do que o Orkut. Enquanto no Orkut estávamos sempre separados pelas barreiras do tema da comunidade em questão, no Twitter os assuntos fluem livremente, e muito para minha surpresa (farei um post só sobre isso um dia, talvez) os assuntos que dominam o Twitter são basicamente TV aberta e cultura de massa. Então é claro que assim que o programa começou, virou praticamente o único assunto da minha timeline, e gente conversando sobre é sempre um atrativo fatal para qualquer tipo de programa.

Mas claro que estar assistindo não me faz gostar mais do programa. Todos os defeitos que eu sempre vi continuam lá, só que agora eu estou pego nessa curiosidade mórbida coletiva que faz todo mundo diminuir a velocidade pra ver acidente na estrada. E não é nem má vontade, eu estou genuinamente tentando gostar do programa. O problema é que o Big Brother Brasil sofre de múltiplas personalidades e, tentando definir se é um estudo antropológico ou uma soap opera, acaba sendo um exemplar ruim das duas categorias.

Não vou aqui levantar a bandeira de que reality shows são lixo. Reconheço a importância do gênero e a evolução que ele causou em todos os outros tipos de mídia. Os realitys comportamentais, especificamente (dos quais o Big Brother é o pai e o principal expoente), trouxeram ao entretenimento de massas um vislumbre do comportamento humano em sua forma mais crua, mais espontânea, e forçaram os telespectadores a acompanharem um enredo sem o timing e o ritmo cuidadosamente construídos das obras roteirizadas, e principalmente com personagens bem menos maniqueístas. Não existe essencialmente mocinho e bandido, não existe o bem e o mal, existem pessoas normais, cada uma com seu caráter. É bem mais complicado, e ao mesmo tempo bem mais interessante, acompanhar um programa que não tem protagonistas. Não é à toa que, de uns anos para cá, a maioria dos filmes e séries que competem com reality shows por audiência investiram pesadamente em personagens cheios de defeitos e falhas tipicamente humanas. Agora que o espectador padrão se tornou um antropólogo de boteco, o conflito moral passou a ser ao mesmo tempo viável e necessário para manter interesse.

Por outro lado, o Big Brother é um tipo muito peculiar de reality show. Ao contrário dos programas da segunda geração que se focam em pessoas competindo em alguma área específica de trabalho, ou em famílias televisionando seu cotidiano, não existe fio da meada. Ninguém está ali lutando pela superação pessoal e pela excelência em alguma profissão ou carreira. Eles apenas interagem entre si e o público vai eliminando quem não lhe apetece até que sobre apenas um, que leva uma grana pra casa e fim. Tudo o que eles fazem, todo o "jogo" envolvido, é tentar evitar o julgamento pelo maior tempo possível. O resto é brincar de casinha e ser assistido o tempo todo no processo.

Pois bem, a questão é que o público brasileiro não tem tanta vocação assim para a antropologia. Nos moldes do original holandês, o Big Brother brasileiro seria um fracasso retumbante. Nossa cultura televisita é calcada nas telenovelas (que por sua vez vieram das novelas radiofônicas), que são por definição obras palatáveis, de personagens rasos e onde tudo é preto-no-branco. Ou alguém é bonzinho, ou é malvado, e há certos comportamentos recorrentes tipicamente associados a um e outro tipo. Outro país que tem essa cultura (no caso deles, de telesséries, que derivam da indústria cinematográfica nacional) é os Estados Unidos. Lá, Big Brother não cola. Eles favorecem os Realitys em que tudo é pré-gravado, editado e apresentado num formato fácil de digerir. Exibição ao vivo e participação do público lá é limitada e tem como propósito julgar algo muito bem definido (por exemplo, o talento de competidores do American Idol).

No Brasil, por outro lado, o Big Brother virou um produto único e ousado. Sem deixar de ser um programa onde o público assiste a vida dos participantes ao vivo, existe aqui uma edição em tempo real que muitos profissionais achariam impossível fazer. O diretor consegue, apenas com as câmeras (que têm alcance limitado, inclusive) e a mesa de áudio, criar personagens e dar tons de novela a cenas e diálogos que estão se desenrolando espontaneamente. Claro que existem edições tradicionais, exibidas diariamente, e o público sabe muito bem que nessas a produção faz o que quiser (a falta de roteiro e direção é compensada pela quantidade massiva de material). Mas mesmo quem vê ao vivo está assistindo a versão dos fatos da emissora, que é finamente orquestrada e tem objetivos bem específicos. Há uma história sendo contada, e é uma obra conjunta dos participantes-atores e das câmeras-diretoras. E uma história muito intrigante do ponto de vista sociológico.

Então por que eu não consigo gostar do BBB? Uma das coisas que me incomoda é a constante obliteração da quarta parede, através das irritantes interferências do Pedro Bial e das incursões malucas dos personagens ao mundo exterior no meio do programa. Mas a pior violação, a que realmente estraga o programa para mim, deve-se a um participante, um único, que não me desce pela garganta de jeito nenhum. Um participante que não me representa, que não interage com ninguém na casa e mesmo assim tem um poder desproporcional lá dentro. Um participante com uma visão estreita e radical das coisas e com as opiniões mais retrógradas e estapafúrdias, e que, inexplicavelmente, volta para o programa toda temporada, desde a primeira: o público.

Como eu disse antes, não existe um talento ou um esforço específico sendo julgado no BBB. As votações são essencialmente para julgar as personagens - notem, não necessariamente as pessoas que estão lá, porque elas representam o papel que o diretor escolhe para eles baseado numa análise de aptidão. Porém, o público brasileiro está longe de ter uma visão antropológica evoluída. Quem ousa compôr o elenco de um Big Brother estará sendo julgado de acordo com valores de novela das oito. Estará sendo reduzido a uma caricatura, e uma vez encaixado nesse molde, é difícil sair. Vence o BBB quem vira protagonista de novela, e nesse aspecto, qual a vantagem de assistir um reality show quando se pode continuar vendo tramas bem mais elaboradas escritas do início ao fim pelo Manoel Carlos, pela Glória Pérez? Aqueles que, como eu, querem ver pessoas falíveis e normais vivendo romances, amizades e rusgas normais, são forçados a verem semanalmente um membro do elenco sendo "morto" porque não é bonzinho o suficiente para o gosto da massa. E aí, lá se vão os arcos de enredo que eu acompanhava, lá se vai a continuidade, tudo.

Imaginem se seria possível acompanhar uma série em que toda semana morresse um personagem deixando todos os seus plots em aberto. Imaginem, para fins de argumentação, se toda semana o público de Lost mandasse matar o personagem que menos gostasse. "Esse Jack é um idiota, matem-no e reescrevam a história sem ele!" "Kate fez merda essa semana, joguem-na pros tubarões!" Quem teria paciência para ver mais do que uns dias disso? Quantas semanas até termos uma série só com Hurley falando sozinho?

Claro, Lost é uma série roteirizada, diriam alguns, e BBB é realidade e improviso. Mas BBB é um programa de televisão, certo? Ele existe com fins de entretenimento, e nós pagamos Pay-per-View (ou pagamos com vergonha alheia das inserções escabrosas de merchandising) para sermos entretidos. Simplesmente ver gente andar por aí e bater papo o dia todo não é exatamente interessante, então mesmo um Big Brother precisa de conflito, de ritmo, de enredo. E infelizmente, a história que eu quero assistir ali é bloqueada, de novo e de novo, pela frustrante e enervante participação popular.

Por essas e outras que eu continuo gostando mil vezes mais de Amazing Race, e que realmente me apaixonei por Solitários, o reality que estreou no SBT esse ano. A verdade é que realitys com participação e voto popular me broxam. Sou totalmente a favor de observar pessoas comuns vivendo situações incomuns, mas infelizmente no BBB o público não sabe olhar sem meter a mão.

11.2.10

Pessoa Nefasta

EDIT: O post serviu a seu propósito, agora chega de baixaria. Pra não perder a viagem, uma ótima versão da música do Gilberto Gil que deu nome ao post