Hoje é meu último dia de Tribunal. O fim de um ciclo que começou lá no infinitamente distante ano de 2003, meio de surpresa, no embalo de uma grande virada na minha vida que foi o diagnóstico e subsequente tratamento do meu TDAH. Aconteceu tudo meio de surpresa, de improviso. No último dia de inscrições, uma amiga me perguntou se eu iria prestar, porque era para a área de informática e a inscrição estava baratinha. Naquela época, no início da minha Fase Ritalina, eu estava fascinado com minha própria capacidade de me focar em coisas que antes eram praticamente impenetráveis para mim de tão maçantes, então em um mês entre a inscrição e a prova eu li duas apostilas dessas de banca e, para minha surpresa (e para agravar minha sensação de que eu tinha despertado um tipo de superpoder que me permitia fazer qualquer coisa) passei em primeiro lugar, e fiquei com a única vaga que estava em disputa. Mesmo não tendo nunca sido minha ambição, ou mesmo pretensão, terminei aquele ano - que havia começado no fundo do poço, abandonando a UFRJ e entregue à certeza de que eu era um vagabundo sem rumo incorrigível - como funcionário público do judiciário federal.
Anteontem, dei a canetada no formulário de pedido de exoneração. Não foi uma atitude de impulso, mas também não foi resultado de um cuidadoso planejamento ao longo dos anos para migrar do serviço público para algo mais ambicioso fora dele (coisa que eu tinha em mente nos primeiros anos, mas que foi sendo postergado até ser, finalmente, esquecido). Foi apenas como as coisas aconteceram. Diversos acontecimentos ao longo do último ano foram alterando cada vez mais as minhas perspectivas de futuro até que, no início do segundo semestre, a permanência no Rio de Janeiro ficou insustentável financeiramente, e tomamos a decisão de irmos para São Paulo, aonde as condições são suficientemente melhores para que a nossa subsistência seja garantida. Eu tive a chance de fazer uma permuta com um funcionário do TRT de São Paulo, mas apareceu uma proposta mais interessante, tanto financeira quanto profissionalmente, na iniciativa privada. Então eu fiz a opção, e foi uma opção bastante natural para mim.
O que eu não esperava, no entanto, era a reação das pessoas. Não houve um único parente, amigo ou colega que não tenha arregalado os olhos ao descobrir que eu estava me exonerando daqui. Eu já contava a novidade esperando os olhos dos interlocutores se esbugalharem, e eventualmente a boca entreabrir incredulamente. Muitos me parabenizaram pela "coragem," alguns me perguntavam um "mas por QUÊ" em tom confuso, e houve mesmo quem tenha tentado me dissuadir da idéia - em especial meu chefe, o que é até compreensível, mas nem de longe ele foi o único. Alguns me suplicaram para repensar, para tentar uma licença sem vencimentos - o que acabei fazendo, a contragosto, mas a probabilidade dela ser dada em tempo hábil era zero, então não insisti. E, afinal, não era o que eu queria. Eu queria sair, e foi o que eu fiz. E por um momento, quando assinava a papelada, me senti cometendo um crime, ou desrespeitando as crenças e os valores alheios, tamanha a resistência que a idéia teve entre todos os que me cercavam. Isso me deixou, de certa forma, triste. Mas foi só quando um colega daqui, com quem eu troco uma ou outra palavra, aproveitou que estávamos descendo juntos no elevador para - gaguejando, acreditem - me parabenizar pela coragem de ser "um dos raríssimos casos na história do Tribunal a pedir exoneração voluntariamente," que eu percebi que eu não tenho por que me sentir mal. Não estou sendo corajoso, irresponsável nem temerário. Os outros é que não entendem nada da vida.
Não quero que pensem que eu não entendo o que significa ter um emprego estável, ou que não dou valor aos benefícios que minha carreira oferece. Eu sei muito bem o que significa estar aqui, e o que significa estar trabalhando pela CLT para a iniciativa privada. Sei de muita gente próxima - bem próxima, inclusive - que vive perrengues terríveis no mercado de trabalho atualmente e que daria tudo para ter a estabilidade que eu estou, no conceito leigo de alguns, jogando fora. Mas a verdade é que, em 11 anos de Tribunal, eu não senti essa tão romantizada estabilidade que todo mundo associa ao funcionário público. Claro, eu tinha garantias que a maioria não tem - a de que eu não seria um belo dia chamado na sala do chefe para ouvir que a barca do downsizing estava passando e me levando, por exemplo. Mas no quadro geral - na vida, nas finanças, na saúde - não tive nenhuma estabilidade não. E nem poderia ter, porque estabilidade é uma utopia, um construto, um pote de ouro ao fim do hipotético arco-íris da vida diária. É uma mentira colorida feita para trazer perspectiva de conforto, muito como a fé em alguma religião da vida.
Aos 33 anos, eu hoje tenho o pleno conceito da diferença entre conhecimento e sabedoria. É fácil adquirir conhecimento, mas a sabedoria depende diretamente da experiência de vida. Quando aquele colega falou comigo que "mas de repente você também terá uma estabilidade lá na empresa, por causa das circunstâncias, né?" eu me senti conversando com uma das personagens do Mito da Caverna, de Platão, que tentava compreender o que eu iria fazer do lado de fora onde não haviam sombras perfeitamente definidas. E ele deve ser uns 20 anos mais velho do que eu, mas naquele momento, toda a falta de sabedoria dele transbordou aos olhos. E eu me senti aliviado, porque até o momento, toda a incredulidade e toda a negatividade dos outros em relação a minha decisão - mesmo dos amigos que me apoiaram, mas nunca sem deixar escapar um "tem certeza?" que demonstrasse que eles, também, não concordavam comigo em algum nível - tinha me deixado numa situação que só poderia ser explicada de duas formas: ou eu estava completamente maluco, ou todo mundo ao meu redor estava completamente desinformado. Naquele momento, tive certeza que era a segunda opção.
E não culpo ninguém por isso, realmente. Como eu disse, conhecimento é uma coisa, sabedoria é outra. Uma pessoa pode aprender muito cedo na vida que a natureza é uma coisa dinâmica, mas enquanto houver qualquer ilusão de segurança à qual ela possa se apegar, mesmo que subconscientemente, essa informação será apenas conhecimento. É só após muitos anos vivenciando as inconstâncias da vida, só depois que o tempo demole um a um todos os supostos portos seguros de uma pessoa, que o conhecimento é absorvido pela alma e vira sabedoria. Por isso idosos são tão sábios, mesmo quando não tiveram muito acesso a informação e conhecimento na vida. Porque eles detém essa vivência, que nem o mais estudioso dos jovens pode ter.
Eu tenho uma vantagem nesse aspecto. A minha vida é mais inconstante do que a média. A instabilidade não está só nos movimentos sociais, econômicos e geopolíticos ao meu redor, está dentro da minha cabeça. A vida de um TDAH é uma eterna instabilidade. É uma torrente constante de frustrações, pancadas, pequenas derrotas. Então, de certa forma, não estou abandonando estabilidade nenhuma. Pelo contrário, esse último ano foi um dos mais instáveis e malucos de minha curta-mas-não-tanto vida, e eu tive que lidar com mais momentos de chão sumindo de baixo dos pés em 11 meses do que muita gente lida a vida inteira. Estar ou não no serviço público não vai me trazer esse falso conforto de uma suposta estabilidade, porque aqui a guerra é 24/7.
Por outro lado, talvez isso seja bom. Talvez a instabilidade, a incerteza, me faça bem. Minha produtividade aqui no TRT, que era tão elogiada nos primeiros anos que passei aqui, caiu a quase zero nos últimos. Em parte porque eu me desmotivei com a falta de desafios e o ambiente tedioso, e em parte porque outras partes da minha vida solicitaram minha atenção. Antes de ser diagnosticado com TDAH, eu não era um vegetal. Eu tive um bom aproveitamento no primeiro e segundo graus escolares, eu cheguei a cursar Piano na EMVL, eu tinha minhas conquistas aqui e ali... mas eu não tinha controle sobre elas. Eu me dedicava àquilo que ativava meu foco, e um dos principais ativadores era a pressão externa. Enquanto eu morava com meus pais, a dinâmica entre eu e eles gerava essa pressão, essa cobrança, que era suficiente para me levar. Foi quando saí de casa para morar sozinho que a coisa degringolou. Estar numa situação confortável, sem cobranças imediatas, acabou com minha produtividade. Quando comecei o tratamento com a Ritalina, o remédio substituiu essa pressão e eu pude enfim direcionar meu potencial para onde eu bem entendia.
Mas eu não contava com o outro lado da moeda: depois da chegada dos filhos, a dinâmica de pressão voltou a estar presente dentro da minha casa, e sequestrou toda minha energia. Eu não precisava mais de estimulantes, eu precisava de um DESestimulante, algo que conseguisse quebrar essa atração gravitacional irresistível que a pressão dos imprevistos domésticos diários exercia na minha atenção. E por anos eu tentei de tudo, troquei inúmeras vezes de remédios tarja preta, cheguei a estar tomando 10 comprimidos por dia antes dos 30 anos, mas sem sucesso. As áreas da minha vida que não me exerciam pressão (meu emprego estável, minha faculdade quase-terminada que só dependia do meu esforço em fazer o projeto final) simplesmente não tinham como competir pelo meu tempo. Isso fez minha produtividade se deteriorar completamente e me botou em maus lençóis aqui. Claro, ainda tinha o emprego, o salário e a estabilidade, mas não era mais uma peça importante para o Tribunal já há algum tempo.
Então, não é estranho que eu esteja partindo para uma empreitada arriscada. Não tem por que perder mais tempo, dinheiro e saúde procurando um coquetel químico que emule uma solução que está na minha cara: eu preciso da instabilidade, da pressão, para voltar a ser feliz. Claro que existe o outro lado da moeda - apesar de me fazer focar, a instabilidade também me exaure. Mas mesmo trocar um problema por outro é um bom negócio, porque para isso existem outras soluções que podem funcionar melhor do que o que eu tenho hoje em dia. E, se bem me conheço, uma vez que a minha produtividade profissional volte a ser estimulada, o céu é o limite.
Então relaxem, queridos amigos. Não estou louco, nem inconsequente. Estou, na verdade, dando um passo muito bem calculado e cientificamente embasado na direção de uma melhora de saúde, de humor e de vida. Só parece meio doido para vocês porque vocês ainda são apegados a noções abstratas de segurança e conforto, mas eu já descobri que segurança e conforto são contos de fadas, e que a vida é essa coisa fluida, dinâmica, e instável por natureza (tanto que a única coisa definitva que existe é justamente a morte). Não me entendam mal, não critico ninguém por valorizar a calmaria. Mas a vida vem em ondas, já diria o profeta, e eu prefiro surfar a me agarrar a uma bóia.
E vamos lá rumo à vida nova!
Mostrando postagens com marcador filosofadas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofadas. Mostrar todas as postagens
7.11.14
20.6.13
A REVOLUÇÃO VIRAL - Como um grupo cultural previamente tido como irrisório mudou a balança política do país da noite para o dia
Tem sido impossível desgrudar da TV e da internet na última semana. E, por incrível que pareça, não é por causa da Copa das Confederações, que tem sido vendida como um ensaio geral para a Copa do Mundo de 2014. Ao contrário do que até o mais insano dos insanos poderia prever, os últimos dias viram a eclosão de um movimento político popular como o país não via há mais de 20 anos, bem no meio de uma edição de gala, em solo nacional, de um evento esportivo que o senso comum sempre ditou ser um grande alienador das massas. De lá para cá, tenho lido e assistido inúmeras análises, opiniões, palpites, até mesmo os bons e velhos "chutes" por parte de toda sorte de cientistas políticos, catedráticos, medalhões da mídia, etc. Tenho visto todas as esferas de poder, de todos os partidos, apavorados como se estivessem saindo do banho e encontrassem um urso feroz e faminto no meio do banheiro, no caminho da porta. Atordoados, eles tiveram que rever suas agendas políticas no susto sem nem ao menos entender como um urso daquele tamanho passou pela porta sem que eles notassem. A grande diversão da minha vida nos últimos dias tem sido imaginar o teor das reuniões de cúpula emergenciais que foram convocadas do Oiapoque ao Chuí. E mesmo agora, que a reivindicação inicial da turba foi atendida com um misto de contragosto e derrota pelos governantes das principais metrópoles do Brasil, ninguém ainda conseguiu entender a essência do movimento.
Bem, eu não sou cientista político, nem filósofo, e muito menos catedrático. Mas eu sou um integrante do que provavelmente foi o elemento chave que inverteu a ordem das coisas, um grupo cultural que até semana passada eu nem tinha real compreensão de que fazia parte, ou sequer que existia. Mas daqui de dentro, enxergo muitas peças que se encaixam perfeitamente e completam o quebra-cabeça que tem tirado o sono dos analistas políticos, e por isso acho que vale a pena tentar esclarecer e enriquecer o debate.
Para começar a explicação, vamos resgatar um termo que já saiu de moda, mas que curiosamente se encaixa melhor para explicar os eventos atuais do que qualquer jargão que surgiu desde então: Cibercultura. De acordo com a Wikipedia, o termo "[t]em vários sentidos mas se pode entender como a forma sociocultural que advém de uma relação de trocas entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônicas surgidas na década de 70, graças à convergência das telecomunicações com a informática." O mesmo artigo diz que a Cibercultura não é uma cultura nova, mas sim o casamento da cultura pós-moderna com os canais de comunicação da era digital. Nisso, entretanto, eu discordo. Nos meus 17 anos de Internet, tendo vivenciado todas as formas de comunicação vigentes no período, desde a USENET até as Redes Sociais (a minha primeira foi o Friendster, e de lá pra cá estive em praticamente todas as relevantes), posso afirmar que, quanto mais tempo se passa interagindo socialmente online, mais se adquire características culturais próprias da rede. A facilidade de comunicação entre diversos povos e culturas foi se refinando numa "supercultura" que herda elementos de todos os participantes, mas que também adquire características bem definidas e, justamente por estar ainda em sua infância, praticamente desconhecidas de quem não tem contato com ela.
Conforme aumenta o número de pessoas conectadas no mundo, e conforme novos setores socioculturais anteriormente desconectados são integrados à internet, esse caldo cultural vai engrossando, se destacando mais da cultura local geográfica e social de cada um dos seus membros. Quanto mais tempo de contato com essa cibercultura uma pessoa tem, mais a cibercultura toma precedência sobre os traços culturais "offline," fazendo com que pessoas de diferentes países, diferentes criações, bandeiras, organizações sociais e políticas, passem a ter valores muito parecidos, a ter seus sensos de humor, de dever e de justiça sintonizados, criando efetivamente uma classe global de indivíduos capazes de dialogar fluentemente entre si.
A maior característica dessa supracultura, de acordo com minhas observações dela ao longo dos anos, são: uma alta apreciação pela colaboratividade (herdada da cultura hacker dos pioneiros da internet), um senso crítico muito apurado (por vezes, até exagerado), um grande imediatismo (que vem do próprio imediatismo da comunicação através da rede), e uma exemplar tolerância a diferenças. Talvez por ser uma cultura colaborativa, aonde os consensos são efêmeros e muito raros, a geração - e uso esse termo muito livremente, uma vez que não existe faixa etária definita para a cibercultura, sua adesão estando ligada mais ao tempo de contato que o indivíduo teve com o coletivo online do que ao seu tempo de vida - não tem bandeiras e causas como as culturas do modelo geopolítico "clássico" costumam ter. Ao invés disso, a cibercultura acredita em iniciativa própria e a análise atomizada das questões propostas, algo que remete às democracias de vilarejos, aonde as assembléias eram constituídas pelos próprios cidadãos e cada um representava a si mesmo. Mas, ao contrário do regime democrático, cada cidadão na internet é seu próprio poder executivo. Isso significa duas coisas importantes para a análise dos acontecimentos dos últimos dias:
1. A cibercultura gira ao redor da idéia, não de um grupo representativo. Isso significa que pessoas com ideais diversos podem muito facilmente se reunir para apoiar e agir sobre uma idéia em comum que seja proposta, tão facilmente quanto discordam diametralmente em algum outro assunto; e
2. A ação na cibercultura não depende de aprovação majoritária, sendo que cada idéia ou proposta pode ser adotada por um grupo de simpatizantes que se unem para executá-la. Não existe restritividade na cibercultura, o que não significa que grupos minoritários não possam ser anulados pela ação de grupos majoritários. Mas é, de qualquer forma, uma questão de proatividade de todas as partes envolvidas.
Tendo estabelecido essas características fundamentais da cibercultura, é fácil de entender que a politização nesse ambiente cultural é um exercício diário e difuso, e o próprio ato de se expressar, nesse ambiente, é um ato politizado. No entanto, nos ambientes políticos do mundo físico, os conceitos da cibercultura encontram basicamente zero representatividade. Inclusive por serem conceitos antagônicos à própria democracia representativa; é inconcebível para alguém dessa nova cultura ter que escolher um representante que replique seus ideais com 100% de acuidade numa assembléia legislativa, e ainda mais inconcebível que só se possa fazer ajustes nessa representatividade a cada 4 anos. 4 anos é um eon no universo virtual. O próprio panorama sociocultural da internet muda drasticamente em 4 anos. A mudança de postura, a adaptabilidade, a proatividade que são essenciais à alma política de um "cibercidadão" são incompatíveis com basicamente todos os sistemas políticos existentes atualmente. Por isso, a despeito de ser extremamente politizado em sua essência, o cibercidadão se coloca como apolitizado para o sistema físico, que é um sistema que não o compreende, não o representa e nem o favorece.
Exatamente por esse motivo, a força política real desse grupo nunca foi testada ou medida até recentemente. Tanto porque a política externa à Rede não os enxerga (pois estão fisicamente pulverizados entre diversas camadas sociais e localizações geográficas), quanto porque eles, mesmos, ainda não têm uma identidade cultural sólida - prova disso sendo a incrível dificuldade que estou tendo nesse mesmo texto para classificá-los sem um rótulo apropriado, terminando por apelar para o horrendo "cibercidadão" ali em cima, mas como eu sou só um leigo opinando, é o que tem pra hoje.
Então, como exatamente um grupo sem identidade, sem autoconsciência e sem nenhuma representatividade foi o responsável por um terremoto social de enormes proporções que deixou o status quo de cabelo em pé e até mesmo os movimentos políticos estabelecidos sem entender nada do que está acontecendo?
A resposta está na análise de duas manifestações que são marcas registradas da cibercultura e que, essas sim, já são catalogadas e têm jargões próprios, facilitando o meu discurso: crowdsourcing e divulgação viral
Crowdsourcing (e seu derivado crowdfunding) é a formalização da característica apontada ali em cima de como o poder executivo na internet emana dos próprios cidadãos. Crowdsourcing é a proposta de um projeto que pode ser adotado e desenvolvido coletivamente por um grupo de interessados; Similarmente, crowdfunding é a proposta de um projeto que precisa de financiamento para ser executado e todos os interessados podem contribuir economicamente. Esses dois conceitos, particularmente o segundo, estão promovendo uma espécie de renascença industrial atualmente, à medida que eliminam o intermediário entre produtor e consumidor e invertem o fluxo da atividade econômica, que passa de "financiador -> produtor -> consumidor -> retorno ao financiador", para o mais elegante "consumidor -> produtor -> retorno ao consumidor." Projetos que não conseguem apoio suficiente para se financiar nem saem do papel, e os projetos que são executados já têm seu retorno de investimento quitado ao sair da porta. Além disso, note que o dinheiro e a iniciativa passam do privado (um financiador) ao público, o que não só elimina o intermediário como extirpa do mesmo o controle de decisão, colocando o consumidor no comando.
Divulgação viral, por outro lado, é menos uma ciência e mais um fenômeno catalogado, pelo menos por enquanto. Ocorre quando alguma coisa "atinge um nervo" da coletividade cultural e subitamente é compartilhada por milhões de pessoas voluntariamente. Numa mídia que tem poucos canais centrais de comunicação (e onde, por enquanto, esses canais ainda vivem pelos preceitos da neutralidade), a comunicação viral é a única que consegue fazer uma imagem, vídeo, texto ou idéia atingir o maior número de pessoas em relativamente pouco tempo, tendo um alcance semelhante ou maior que o dos canais midiáticos tradicionais, como televisão e periódicos impressos. O pequeno e essencial detalhe é que a divulgação viral acontece espontaneamente, e de alguma forma tentativas conscientes de usar esse canal de divulgação quase sempre naufragam, além de serem tidos como deselegantes na cibercultura. Desde que foi constatada, a divulgação viral virou a bala de prata do marketing mundial - quem for capaz de viralizar uma mensagem com sucesso terá o mundo nas mãos, já que divulgação viral, além de globalmente abrangente, também é essencialmente gratuita. Porém, mesmo os mais bem sucedidos casos de marketing viral proposital não se comparam ao poder de uma divulgação viral espontânea. Provavelmente porque a espontaneidade é a essência da viralização, e não existe forma eficiente de simular espontaneidade. E mesmo quando uma ação de marketing viral consegue enganar num primeiro momento, invariavelmente sua autenticidade vem a tona, e nada é mais ultrajante aos cibercidadãos do que uma tentativa camuflada de simular espontaneidade. É um tiro no pé que já derrubou vários marqueteiros aventureiros e que hoje em dia é amplamente visto como algo a não se fazer jamais.
E afinal, o leitor que sobreviveu até aqui se pergunta, o que isso tudo tem a ver com as manifestações que estão no tema do texto mas até agora nem deram sinal?
Aguentem um pouco enquanto eu faço uma breve recapitulação do momento político no país. Nos últimos 10 anos, depois de uma grande mudança de mãos no poder federal, o Brasil viveu um período particularmente ruim para o pensamento político. Quando antes haviam situação e oposição bem definidas e com suas próprias bandeiras, agora a esquerda supostamente estava no poder, a direita supostamente estava fazendo oposição, e a nova esquerda ficou para os partidos que antes eram considerados "extrema esquerda," com filosofias amplamente engessadas. Naquele momento, sentia-se coletivamente no país que alguma coisa havia mudado por força do voto popular (e havia). Porém, de lá para cá, a política brasileira parece ter se concentrado unica e exclusivamente na maioria dos votantes, que é o que ganha eleições, mas em detrimento de minorias que jamais serão representadas no voto mas que convivem e são sujeitas às políticas públicas da mesma maneira que as maiorias. Os membros da cibercultura - que por sinal aumentou incrivelmente de tamanho no Brasil nesse período, em grande parte graças à política de inclusão digital do próprio governo federal - se tornaram cada vez mais distantes da realidade política do país, não se reconhecendo mais em nenhuma bandeira de nenhum partido, e possivelmente nem no sistema democrático representativo, que começou a nos parecer ineficiente e impraticável para as dimensões do país. Ao mesmo tempo em que ganhamos liberdade de expressão, de criação e de consumo no mundo virtual, fomos vendo o cenário político do país ficar mais e mais abandonado por mentes progressistas e entregue às massas votantes. Dessa situação resultou um cenário político em que concessões mais e mais estapafúrdias eram feitas para agradar os setores mais populosos da sociedade, o que não teria problema não fosse o detrimento das liberdades pessoais das minorias, que agora estão sendo usadas como moeda política eleitoreira. Isso gerou grande insatisfação nessas minorias, e boa parte delas se uniu em movimentos sociais para tentar preservar seus direitos.
Paralelamente a isso, o advento das Copas da FIFA e dos Jogos Olímpicos criou um ambiente de oba-oba entre setores econômicos que, corrompendo os representantes políticos do país (alguns muito facilmente), conseguiram criar situações de lucros exorbitantes para si próprias, muitas vezes ilegais. Indícios e provas de irregularidades não faltavam, e alguns partidos que sempre se mobilizaram nas ruas começaram a se juntar na tentativa de pressionar o poder através de manifestações populares, que ganhavam força, mas não faziam nem cócegas no establishment.
Enquanto isso, toda uma cultura invisível se mantinha à margem da situação, apolitizada mas diretamente prejudicada pelos problemas do país, indignada mas apática. Talvez seja porque os indicadores e quantificadores das redes sejam tão nebulosos. As métricas para calcular o alcance das mídias sociais são ineficientes, os números podem ser facilmente maquiados, e, francamente, é de conhecimento de todos que o acesso à internet, especialmente acesso amplo e irrestrito por tempo suficiente para uma contaminação pessoal por parte da cibercultura, é coisa para poucos. Uma minoria. E se outras minorias não estavam conseguindo resultado mesmo fazendo bastante barulho, por que uma cultura que se afastara tanto do cenário conseguiria? Especialmente uma cultura sem identidade cultural forte - como descrito acima, cada idéia é atomicamente assimilada, criticada, compartilhada. Participação política tradicional é alienígena e obsoleta ao cibercidadão.
Mas eis que aconteceu algo que ninguém esperava. Uma causa se viralizou.
A bandeira do MPL não é nova - o movimento existe há anos, - o direito do MPL de ir às ruas protestar está petrificado na Constituição Nacional, a causa é nobre, mas fazia pouca diferença para cibercidadãos. Causas políticas assim são compartilhadas diariamente pelas redes sociais e normalmente comovem os mesmos grupos de ativistas. Havia, sim, uma crescente indignação com a política espetaculosa e desrespeitosa que estava marginalizando mais e mais setores da sociedade e focando apenas nas maiorias eleitorais, mas a tampa da panela de pressão ainda estava no lugar, começando a apitar.
E então, as redes sociais explodiram em compartilhamentos e vídeos de brutalidade policial. Não aquela a que já nos anestesiamos, contra pobres e "bandidos," mas uma violência descabida, desenfreada, descontrolada, que atingiu jovens manifestantes, transeuntes, repórteres, e quem mais quisesse. Não era um vídeo, não eram dois vídeos. Eram dezenas de vídeos, centenas de relatos, de pessoas das mais variadas, todas descrevendo o mesmo abuso autoritário do governo que deveria ser democrático.
Ao mesmo tempo em que esse cenário se delineava claro como água nas redes sociais, a mídia televisiva e jornalística insistia numa linha editorial claramente mentirosa e manipulativa, ditada por diretores totalmente desconectados do fluxo de informação da geração cibernética, ainda alheios ao tamanho e ao alcance dos mesmos. Por dois dias, a internet contava uma história, com clareza pristina de detalhes, e a televisão contava outra totalmente diferente. Era impossível não ver. Era impossível não se revoltar. Policiais espancando estudantes é uma situação muito delicada e que fala diretametne à memória emotiva recente da nação. Então, da mesma forma que um grupo de cibercidadãos às vezes se reúne para pagar milhões de dólares em férias para uma senhora qualquer que sofreu bullying por parte dos alunos do ônibus escolar que fiscalizava, houve uma comoção para reagir ao bullying do estado nos meninos que estavam ali exercendo um direito fundamental de se manifestar.
De repente, a idéia de descer pra rua e olhar para a cara dos policiais e dizer "e aí, vai bater na gente agora?" conectou pessoas de diferentes idades, diferentes estados, diferentes formações e opiniões. Todos unidos em torno da idéia de que governar na base do cacetete é inaceitável.
E então, de uma hora para a outra, havia 200 mil pessoas na rua em todo o país.
E, surpreendentemente até para quem estava ali na rua, descobriu-se que os cibercidadãos marginalizados pelo sistema político do país eram mais do que números no Google Analytics, mais do que quantidades de likes. Era GENTE PRA CACETE. Tanta gente, que ninguém conseguiu entender de onde havia saído. Governantes e a velha mídia olhavam pela janela e viam uma quantidade de cabeças que, da última vez que eles tinham visto, derrubaram regimes. Claro, eles não tinham como saber que aquela gente ali toda jamais concordaria sequer em se prefere pipoca doce ou salgada, que dirá com agendas políticas extensas. Estavam todos ali pra ajudar os moleques que apanharam. Pra estabelecer que as ruas são públicas. E mais nada. Era mais um flashmob do que uma manifestação propriamente dita
Mas esses conceitos modernos fogem à compreensão da classe política brasileira, e por vários dias, o que vimos (de minha parte, com muito prazer) foi políticos, cientistas, repórteres, todos batendo cabeça, como baratas tontas, procurando um líder, uma agenda, um insuflador, algum elemento familiar que os ajudasse a lidar com aquela surrealidade toda. Não encontraram. Mas, no pânico, as grandes emissoras deram uma cambalhota e imediatamente reverteram seus discursos editoriais em favor do povo nas ruas, considerando-os a nova "situação." E então, abandonados e apavorados, os políticos cederam ao menos a causa do MPL, em coletivas simultâneas, ensaiadinhas, borrando-se de medo.
O que aconteceu de lá para cá com esse movimento-que-jamais-foi é, tintim por tintim, a vida útil de um meme (termo coloquialmente utilizado para descrever termos, jargões ou cenas que se viralizam na internet). Numa consequência newtoniana, a massa de pessoas nas ruas no dia 16 criou uma força gravitacional irresistível, que por sua vez atraiu todos os outros movimentos sociais, de TODAS as orientações, desesperados por não estarem juntos na boquinha. Até o MPL venceu a causa mas também não compreendeu a motivação nem a origem do reforço que recebeu, e passou a querer nortear o movimento maior por suas próprias pautas. Assim como marqueteiros tentando criar ações virais, as ruas agora estão lotadas de insufladores e líderes de movimentos tentando viralizar uma nova causa. Quem sabe o que acontece com um meme velho na internet sabe que isso não tem futuro. A manifestação nas ruas é aquela piada que já perdeu a graça (sempre rápido demais, característica da cibercultura) mas que vai passar as próximas semanas no topo dos trending topics enquanto todo tipo de setor da sociedade tenta manter a chama viva para tentar comandá-la para algum lugar. No fim das contas, ainda tem muita gente nas ruas, mas são essencialmente as pessoas que já iam às ruas antes, em datas diferentes, com agendas diferentes. Imagino quanto tempo mais esses movimentos tão opostos vão suportar gritar palavras de ordem em uníssono, mas arrisco que muito pouco.
Por outro lado, não foi um dia menos importante ou menos histórico pela falta de uma causa maior. Pelo contrário. Vivenciamos a materialização da política como ela é praticada diariamente na internet, só que dessa vez nas ruas. Olhamos para os lados e subitamente conseguíamos enxergar o rosto de todos aqueles likes e compartilhamentos e RTs que vemos discretamente representados diariamente nas redes sociais. A cibercultura se colocou no mapa das culturas, meio sem querer, mas agora que abrimos precedente, quem há de dizer que não estaremos menos desmotivados a expressarmos nossos ideais na rua, ao lado dos movimentos sociais que estiverem com a razão naquela questão, naquele momento? Podemos nos sentir solitários no dia-a-dia, convivendo com pessoas que não compreendem nossos valores e nossa cultura, mas se todo mundo descer o elevador ao mesmo tempo, lotamos a rua, estremecemos a mídia e até dobramos governos. É como descobrir um superpoder latente, mesmo sem saber ainda como controlá-lo. Pelo menos, agora sabemos que temos.
Nesse momento, vejo muita gente frustrada por ter visto tanta gente na rua, com tantas insatisfações, e isso não ter dado em nada além de uma dissolução inevitável do momento. Eu digo que não se frustrem. Pelo contrário, se orgulhem. E tenham boas esperanças de voltar a serem cidadãos offline, porque com essa visibilidade, com essa noção de conjunto, podemos até tentar criar partidos e organizações que nos representem propriamente mesmo nessa democracia que temos. Há exemplos disso no mundo. A tendência é que isso ocorra em todo lugar, então por que não começar agora?
E quanto ao medo de que algum aproveitador manobre esse momento para fins escusos, digo que não vai acontecer. As peças que já estavam no tabuleiro continuarão lá, jogando seu joguinho. Mas a peça-surpresa, a cultura desconhecida, que deu o cheque-mate, não tem nenhuma vocação para ser manobrada. Assim como o primeiro marqueteiro que conseguirá efetivamente criar uma peça viral de sucesso provavelmente ainda está no segundo grau, o primeiro político que entenderá suficientemente da dinâmica política da cibercultura para conseguir manobrá-la certamente está nas fraldas. É preciso crescer nesse meio para compreendê-lo. Por enquanto, estamos seguros.
Valeu a experiência, valeu o precedente, valeu o empoderamento de ter metido a cara no mundo e feito os poderosos, que se sentiam tão seguros, darem piruetas desgovernadas diante dos olhos do mundo. Valeu a piada de chegar no cenário político com um extintor no melhor estilo Didi Mocó. E pro futuro, tenho a certeza que não precisaremos mais de um absurdo tão grande quanto opressão policial estatal pra levantarmos nossas bundas e irmos twittar in loco, com cartazes, nas ruas. Já temos nosso case de sucesso, agora é estudá-lo e melhorá-lo
Não foi o gigante que acordou, foram as formigas que tomaram conta.
Bem, eu não sou cientista político, nem filósofo, e muito menos catedrático. Mas eu sou um integrante do que provavelmente foi o elemento chave que inverteu a ordem das coisas, um grupo cultural que até semana passada eu nem tinha real compreensão de que fazia parte, ou sequer que existia. Mas daqui de dentro, enxergo muitas peças que se encaixam perfeitamente e completam o quebra-cabeça que tem tirado o sono dos analistas políticos, e por isso acho que vale a pena tentar esclarecer e enriquecer o debate.
Para começar a explicação, vamos resgatar um termo que já saiu de moda, mas que curiosamente se encaixa melhor para explicar os eventos atuais do que qualquer jargão que surgiu desde então: Cibercultura. De acordo com a Wikipedia, o termo "[t]em vários sentidos mas se pode entender como a forma sociocultural que advém de uma relação de trocas entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônicas surgidas na década de 70, graças à convergência das telecomunicações com a informática." O mesmo artigo diz que a Cibercultura não é uma cultura nova, mas sim o casamento da cultura pós-moderna com os canais de comunicação da era digital. Nisso, entretanto, eu discordo. Nos meus 17 anos de Internet, tendo vivenciado todas as formas de comunicação vigentes no período, desde a USENET até as Redes Sociais (a minha primeira foi o Friendster, e de lá pra cá estive em praticamente todas as relevantes), posso afirmar que, quanto mais tempo se passa interagindo socialmente online, mais se adquire características culturais próprias da rede. A facilidade de comunicação entre diversos povos e culturas foi se refinando numa "supercultura" que herda elementos de todos os participantes, mas que também adquire características bem definidas e, justamente por estar ainda em sua infância, praticamente desconhecidas de quem não tem contato com ela.
Conforme aumenta o número de pessoas conectadas no mundo, e conforme novos setores socioculturais anteriormente desconectados são integrados à internet, esse caldo cultural vai engrossando, se destacando mais da cultura local geográfica e social de cada um dos seus membros. Quanto mais tempo de contato com essa cibercultura uma pessoa tem, mais a cibercultura toma precedência sobre os traços culturais "offline," fazendo com que pessoas de diferentes países, diferentes criações, bandeiras, organizações sociais e políticas, passem a ter valores muito parecidos, a ter seus sensos de humor, de dever e de justiça sintonizados, criando efetivamente uma classe global de indivíduos capazes de dialogar fluentemente entre si.
A maior característica dessa supracultura, de acordo com minhas observações dela ao longo dos anos, são: uma alta apreciação pela colaboratividade (herdada da cultura hacker dos pioneiros da internet), um senso crítico muito apurado (por vezes, até exagerado), um grande imediatismo (que vem do próprio imediatismo da comunicação através da rede), e uma exemplar tolerância a diferenças. Talvez por ser uma cultura colaborativa, aonde os consensos são efêmeros e muito raros, a geração - e uso esse termo muito livremente, uma vez que não existe faixa etária definita para a cibercultura, sua adesão estando ligada mais ao tempo de contato que o indivíduo teve com o coletivo online do que ao seu tempo de vida - não tem bandeiras e causas como as culturas do modelo geopolítico "clássico" costumam ter. Ao invés disso, a cibercultura acredita em iniciativa própria e a análise atomizada das questões propostas, algo que remete às democracias de vilarejos, aonde as assembléias eram constituídas pelos próprios cidadãos e cada um representava a si mesmo. Mas, ao contrário do regime democrático, cada cidadão na internet é seu próprio poder executivo. Isso significa duas coisas importantes para a análise dos acontecimentos dos últimos dias:
1. A cibercultura gira ao redor da idéia, não de um grupo representativo. Isso significa que pessoas com ideais diversos podem muito facilmente se reunir para apoiar e agir sobre uma idéia em comum que seja proposta, tão facilmente quanto discordam diametralmente em algum outro assunto; e
2. A ação na cibercultura não depende de aprovação majoritária, sendo que cada idéia ou proposta pode ser adotada por um grupo de simpatizantes que se unem para executá-la. Não existe restritividade na cibercultura, o que não significa que grupos minoritários não possam ser anulados pela ação de grupos majoritários. Mas é, de qualquer forma, uma questão de proatividade de todas as partes envolvidas.
Tendo estabelecido essas características fundamentais da cibercultura, é fácil de entender que a politização nesse ambiente cultural é um exercício diário e difuso, e o próprio ato de se expressar, nesse ambiente, é um ato politizado. No entanto, nos ambientes políticos do mundo físico, os conceitos da cibercultura encontram basicamente zero representatividade. Inclusive por serem conceitos antagônicos à própria democracia representativa; é inconcebível para alguém dessa nova cultura ter que escolher um representante que replique seus ideais com 100% de acuidade numa assembléia legislativa, e ainda mais inconcebível que só se possa fazer ajustes nessa representatividade a cada 4 anos. 4 anos é um eon no universo virtual. O próprio panorama sociocultural da internet muda drasticamente em 4 anos. A mudança de postura, a adaptabilidade, a proatividade que são essenciais à alma política de um "cibercidadão" são incompatíveis com basicamente todos os sistemas políticos existentes atualmente. Por isso, a despeito de ser extremamente politizado em sua essência, o cibercidadão se coloca como apolitizado para o sistema físico, que é um sistema que não o compreende, não o representa e nem o favorece.
Exatamente por esse motivo, a força política real desse grupo nunca foi testada ou medida até recentemente. Tanto porque a política externa à Rede não os enxerga (pois estão fisicamente pulverizados entre diversas camadas sociais e localizações geográficas), quanto porque eles, mesmos, ainda não têm uma identidade cultural sólida - prova disso sendo a incrível dificuldade que estou tendo nesse mesmo texto para classificá-los sem um rótulo apropriado, terminando por apelar para o horrendo "cibercidadão" ali em cima, mas como eu sou só um leigo opinando, é o que tem pra hoje.
Então, como exatamente um grupo sem identidade, sem autoconsciência e sem nenhuma representatividade foi o responsável por um terremoto social de enormes proporções que deixou o status quo de cabelo em pé e até mesmo os movimentos políticos estabelecidos sem entender nada do que está acontecendo?
A resposta está na análise de duas manifestações que são marcas registradas da cibercultura e que, essas sim, já são catalogadas e têm jargões próprios, facilitando o meu discurso: crowdsourcing e divulgação viral
Crowdsourcing (e seu derivado crowdfunding) é a formalização da característica apontada ali em cima de como o poder executivo na internet emana dos próprios cidadãos. Crowdsourcing é a proposta de um projeto que pode ser adotado e desenvolvido coletivamente por um grupo de interessados; Similarmente, crowdfunding é a proposta de um projeto que precisa de financiamento para ser executado e todos os interessados podem contribuir economicamente. Esses dois conceitos, particularmente o segundo, estão promovendo uma espécie de renascença industrial atualmente, à medida que eliminam o intermediário entre produtor e consumidor e invertem o fluxo da atividade econômica, que passa de "financiador -> produtor -> consumidor -> retorno ao financiador", para o mais elegante "consumidor -> produtor -> retorno ao consumidor." Projetos que não conseguem apoio suficiente para se financiar nem saem do papel, e os projetos que são executados já têm seu retorno de investimento quitado ao sair da porta. Além disso, note que o dinheiro e a iniciativa passam do privado (um financiador) ao público, o que não só elimina o intermediário como extirpa do mesmo o controle de decisão, colocando o consumidor no comando.
Divulgação viral, por outro lado, é menos uma ciência e mais um fenômeno catalogado, pelo menos por enquanto. Ocorre quando alguma coisa "atinge um nervo" da coletividade cultural e subitamente é compartilhada por milhões de pessoas voluntariamente. Numa mídia que tem poucos canais centrais de comunicação (e onde, por enquanto, esses canais ainda vivem pelos preceitos da neutralidade), a comunicação viral é a única que consegue fazer uma imagem, vídeo, texto ou idéia atingir o maior número de pessoas em relativamente pouco tempo, tendo um alcance semelhante ou maior que o dos canais midiáticos tradicionais, como televisão e periódicos impressos. O pequeno e essencial detalhe é que a divulgação viral acontece espontaneamente, e de alguma forma tentativas conscientes de usar esse canal de divulgação quase sempre naufragam, além de serem tidos como deselegantes na cibercultura. Desde que foi constatada, a divulgação viral virou a bala de prata do marketing mundial - quem for capaz de viralizar uma mensagem com sucesso terá o mundo nas mãos, já que divulgação viral, além de globalmente abrangente, também é essencialmente gratuita. Porém, mesmo os mais bem sucedidos casos de marketing viral proposital não se comparam ao poder de uma divulgação viral espontânea. Provavelmente porque a espontaneidade é a essência da viralização, e não existe forma eficiente de simular espontaneidade. E mesmo quando uma ação de marketing viral consegue enganar num primeiro momento, invariavelmente sua autenticidade vem a tona, e nada é mais ultrajante aos cibercidadãos do que uma tentativa camuflada de simular espontaneidade. É um tiro no pé que já derrubou vários marqueteiros aventureiros e que hoje em dia é amplamente visto como algo a não se fazer jamais.
E afinal, o leitor que sobreviveu até aqui se pergunta, o que isso tudo tem a ver com as manifestações que estão no tema do texto mas até agora nem deram sinal?
Aguentem um pouco enquanto eu faço uma breve recapitulação do momento político no país. Nos últimos 10 anos, depois de uma grande mudança de mãos no poder federal, o Brasil viveu um período particularmente ruim para o pensamento político. Quando antes haviam situação e oposição bem definidas e com suas próprias bandeiras, agora a esquerda supostamente estava no poder, a direita supostamente estava fazendo oposição, e a nova esquerda ficou para os partidos que antes eram considerados "extrema esquerda," com filosofias amplamente engessadas. Naquele momento, sentia-se coletivamente no país que alguma coisa havia mudado por força do voto popular (e havia). Porém, de lá para cá, a política brasileira parece ter se concentrado unica e exclusivamente na maioria dos votantes, que é o que ganha eleições, mas em detrimento de minorias que jamais serão representadas no voto mas que convivem e são sujeitas às políticas públicas da mesma maneira que as maiorias. Os membros da cibercultura - que por sinal aumentou incrivelmente de tamanho no Brasil nesse período, em grande parte graças à política de inclusão digital do próprio governo federal - se tornaram cada vez mais distantes da realidade política do país, não se reconhecendo mais em nenhuma bandeira de nenhum partido, e possivelmente nem no sistema democrático representativo, que começou a nos parecer ineficiente e impraticável para as dimensões do país. Ao mesmo tempo em que ganhamos liberdade de expressão, de criação e de consumo no mundo virtual, fomos vendo o cenário político do país ficar mais e mais abandonado por mentes progressistas e entregue às massas votantes. Dessa situação resultou um cenário político em que concessões mais e mais estapafúrdias eram feitas para agradar os setores mais populosos da sociedade, o que não teria problema não fosse o detrimento das liberdades pessoais das minorias, que agora estão sendo usadas como moeda política eleitoreira. Isso gerou grande insatisfação nessas minorias, e boa parte delas se uniu em movimentos sociais para tentar preservar seus direitos.
Paralelamente a isso, o advento das Copas da FIFA e dos Jogos Olímpicos criou um ambiente de oba-oba entre setores econômicos que, corrompendo os representantes políticos do país (alguns muito facilmente), conseguiram criar situações de lucros exorbitantes para si próprias, muitas vezes ilegais. Indícios e provas de irregularidades não faltavam, e alguns partidos que sempre se mobilizaram nas ruas começaram a se juntar na tentativa de pressionar o poder através de manifestações populares, que ganhavam força, mas não faziam nem cócegas no establishment.
Enquanto isso, toda uma cultura invisível se mantinha à margem da situação, apolitizada mas diretamente prejudicada pelos problemas do país, indignada mas apática. Talvez seja porque os indicadores e quantificadores das redes sejam tão nebulosos. As métricas para calcular o alcance das mídias sociais são ineficientes, os números podem ser facilmente maquiados, e, francamente, é de conhecimento de todos que o acesso à internet, especialmente acesso amplo e irrestrito por tempo suficiente para uma contaminação pessoal por parte da cibercultura, é coisa para poucos. Uma minoria. E se outras minorias não estavam conseguindo resultado mesmo fazendo bastante barulho, por que uma cultura que se afastara tanto do cenário conseguiria? Especialmente uma cultura sem identidade cultural forte - como descrito acima, cada idéia é atomicamente assimilada, criticada, compartilhada. Participação política tradicional é alienígena e obsoleta ao cibercidadão.
Mas eis que aconteceu algo que ninguém esperava. Uma causa se viralizou.
A bandeira do MPL não é nova - o movimento existe há anos, - o direito do MPL de ir às ruas protestar está petrificado na Constituição Nacional, a causa é nobre, mas fazia pouca diferença para cibercidadãos. Causas políticas assim são compartilhadas diariamente pelas redes sociais e normalmente comovem os mesmos grupos de ativistas. Havia, sim, uma crescente indignação com a política espetaculosa e desrespeitosa que estava marginalizando mais e mais setores da sociedade e focando apenas nas maiorias eleitorais, mas a tampa da panela de pressão ainda estava no lugar, começando a apitar.
E então, as redes sociais explodiram em compartilhamentos e vídeos de brutalidade policial. Não aquela a que já nos anestesiamos, contra pobres e "bandidos," mas uma violência descabida, desenfreada, descontrolada, que atingiu jovens manifestantes, transeuntes, repórteres, e quem mais quisesse. Não era um vídeo, não eram dois vídeos. Eram dezenas de vídeos, centenas de relatos, de pessoas das mais variadas, todas descrevendo o mesmo abuso autoritário do governo que deveria ser democrático.
Ao mesmo tempo em que esse cenário se delineava claro como água nas redes sociais, a mídia televisiva e jornalística insistia numa linha editorial claramente mentirosa e manipulativa, ditada por diretores totalmente desconectados do fluxo de informação da geração cibernética, ainda alheios ao tamanho e ao alcance dos mesmos. Por dois dias, a internet contava uma história, com clareza pristina de detalhes, e a televisão contava outra totalmente diferente. Era impossível não ver. Era impossível não se revoltar. Policiais espancando estudantes é uma situação muito delicada e que fala diretametne à memória emotiva recente da nação. Então, da mesma forma que um grupo de cibercidadãos às vezes se reúne para pagar milhões de dólares em férias para uma senhora qualquer que sofreu bullying por parte dos alunos do ônibus escolar que fiscalizava, houve uma comoção para reagir ao bullying do estado nos meninos que estavam ali exercendo um direito fundamental de se manifestar.
De repente, a idéia de descer pra rua e olhar para a cara dos policiais e dizer "e aí, vai bater na gente agora?" conectou pessoas de diferentes idades, diferentes estados, diferentes formações e opiniões. Todos unidos em torno da idéia de que governar na base do cacetete é inaceitável.
E então, de uma hora para a outra, havia 200 mil pessoas na rua em todo o país.
E, surpreendentemente até para quem estava ali na rua, descobriu-se que os cibercidadãos marginalizados pelo sistema político do país eram mais do que números no Google Analytics, mais do que quantidades de likes. Era GENTE PRA CACETE. Tanta gente, que ninguém conseguiu entender de onde havia saído. Governantes e a velha mídia olhavam pela janela e viam uma quantidade de cabeças que, da última vez que eles tinham visto, derrubaram regimes. Claro, eles não tinham como saber que aquela gente ali toda jamais concordaria sequer em se prefere pipoca doce ou salgada, que dirá com agendas políticas extensas. Estavam todos ali pra ajudar os moleques que apanharam. Pra estabelecer que as ruas são públicas. E mais nada. Era mais um flashmob do que uma manifestação propriamente dita
Mas esses conceitos modernos fogem à compreensão da classe política brasileira, e por vários dias, o que vimos (de minha parte, com muito prazer) foi políticos, cientistas, repórteres, todos batendo cabeça, como baratas tontas, procurando um líder, uma agenda, um insuflador, algum elemento familiar que os ajudasse a lidar com aquela surrealidade toda. Não encontraram. Mas, no pânico, as grandes emissoras deram uma cambalhota e imediatamente reverteram seus discursos editoriais em favor do povo nas ruas, considerando-os a nova "situação." E então, abandonados e apavorados, os políticos cederam ao menos a causa do MPL, em coletivas simultâneas, ensaiadinhas, borrando-se de medo.
O que aconteceu de lá para cá com esse movimento-que-jamais-foi é, tintim por tintim, a vida útil de um meme (termo coloquialmente utilizado para descrever termos, jargões ou cenas que se viralizam na internet). Numa consequência newtoniana, a massa de pessoas nas ruas no dia 16 criou uma força gravitacional irresistível, que por sua vez atraiu todos os outros movimentos sociais, de TODAS as orientações, desesperados por não estarem juntos na boquinha. Até o MPL venceu a causa mas também não compreendeu a motivação nem a origem do reforço que recebeu, e passou a querer nortear o movimento maior por suas próprias pautas. Assim como marqueteiros tentando criar ações virais, as ruas agora estão lotadas de insufladores e líderes de movimentos tentando viralizar uma nova causa. Quem sabe o que acontece com um meme velho na internet sabe que isso não tem futuro. A manifestação nas ruas é aquela piada que já perdeu a graça (sempre rápido demais, característica da cibercultura) mas que vai passar as próximas semanas no topo dos trending topics enquanto todo tipo de setor da sociedade tenta manter a chama viva para tentar comandá-la para algum lugar. No fim das contas, ainda tem muita gente nas ruas, mas são essencialmente as pessoas que já iam às ruas antes, em datas diferentes, com agendas diferentes. Imagino quanto tempo mais esses movimentos tão opostos vão suportar gritar palavras de ordem em uníssono, mas arrisco que muito pouco.
Por outro lado, não foi um dia menos importante ou menos histórico pela falta de uma causa maior. Pelo contrário. Vivenciamos a materialização da política como ela é praticada diariamente na internet, só que dessa vez nas ruas. Olhamos para os lados e subitamente conseguíamos enxergar o rosto de todos aqueles likes e compartilhamentos e RTs que vemos discretamente representados diariamente nas redes sociais. A cibercultura se colocou no mapa das culturas, meio sem querer, mas agora que abrimos precedente, quem há de dizer que não estaremos menos desmotivados a expressarmos nossos ideais na rua, ao lado dos movimentos sociais que estiverem com a razão naquela questão, naquele momento? Podemos nos sentir solitários no dia-a-dia, convivendo com pessoas que não compreendem nossos valores e nossa cultura, mas se todo mundo descer o elevador ao mesmo tempo, lotamos a rua, estremecemos a mídia e até dobramos governos. É como descobrir um superpoder latente, mesmo sem saber ainda como controlá-lo. Pelo menos, agora sabemos que temos.
Nesse momento, vejo muita gente frustrada por ter visto tanta gente na rua, com tantas insatisfações, e isso não ter dado em nada além de uma dissolução inevitável do momento. Eu digo que não se frustrem. Pelo contrário, se orgulhem. E tenham boas esperanças de voltar a serem cidadãos offline, porque com essa visibilidade, com essa noção de conjunto, podemos até tentar criar partidos e organizações que nos representem propriamente mesmo nessa democracia que temos. Há exemplos disso no mundo. A tendência é que isso ocorra em todo lugar, então por que não começar agora?
E quanto ao medo de que algum aproveitador manobre esse momento para fins escusos, digo que não vai acontecer. As peças que já estavam no tabuleiro continuarão lá, jogando seu joguinho. Mas a peça-surpresa, a cultura desconhecida, que deu o cheque-mate, não tem nenhuma vocação para ser manobrada. Assim como o primeiro marqueteiro que conseguirá efetivamente criar uma peça viral de sucesso provavelmente ainda está no segundo grau, o primeiro político que entenderá suficientemente da dinâmica política da cibercultura para conseguir manobrá-la certamente está nas fraldas. É preciso crescer nesse meio para compreendê-lo. Por enquanto, estamos seguros.
Valeu a experiência, valeu o precedente, valeu o empoderamento de ter metido a cara no mundo e feito os poderosos, que se sentiam tão seguros, darem piruetas desgovernadas diante dos olhos do mundo. Valeu a piada de chegar no cenário político com um extintor no melhor estilo Didi Mocó. E pro futuro, tenho a certeza que não precisaremos mais de um absurdo tão grande quanto opressão policial estatal pra levantarmos nossas bundas e irmos twittar in loco, com cartazes, nas ruas. Já temos nosso case de sucesso, agora é estudá-lo e melhorá-lo
Não foi o gigante que acordou, foram as formigas que tomaram conta.
2.4.13
Química
Das matérias do currículo escolar brasileiro, Química nunca foi a minha favorita - entre as ciências, preferia a Física - mas um professor meu do segundo grau fez certa vez uma apresentação da matéria na aula inaugural que eu nunca esqueci. Especificamente, ele reclamou da moda publicitária de colocar a frase "não contém química" em produtos de beleza, que era bem comum nos anos 90. "Existe essa idéia idiota de que química é algo ruim," disse ele, "mas absolutamente todos os produtos de beleza contém química. Qualquer efeito que um produto de beleza tenha na sua pele, nos seus cabelos, é química. Não existe nenhuma transformação no mundo sem química."
Esse mês, o meu diagnóstico de TDAH completa 10 anos. O tratamento efetivo começou mais tarde, em maio de 2003, mas foi em abril que eu descobri que essa sigla iria me definir pelo resto dos meus dias, e que eu deveria no mínimo me familiarizar com ela e com seu significado. E o significado, resumidamente, era que minhas dificuldades crônicas de concentração, de manter atenção, de absorver informação, de resguardar e dosar minha energia, eram todas decorrentes de uma deficiência química do meu cérebro, e que existiam pílulas capazes de, se não reverter 100%, ao menos modificar o equilíbrio dessa química para que eu me comportasse diferente.
Na época, muita coisa mudou na minha vida, como esse texto demonstra. O problema foi quase que totalmente solucionado, mas eu sabia que os comprimidos que tomava não eram só uma reposição nutricional, que eles não continham "atenção concentrada" pronta para consumo. Eles modificavam totalmente o equilíbrio químico do meu organismo, e provavelmente essas mudanças refletiam em todo o meu comportamento, não apenas na capacidade de atenção. Mas na época, era difícil analisar. Era tudo muito novo, muito diferente, e o remédio não era o único fator causando reações químicas no meu cérebro. A própria euforia de estar conquistando um obstáculo que tanto havia me atrapalhado entrava na receita e contribuía com o resultado final. Tanto que, previsivelmente, essa fase passou, vieram outras fases, outros fatores, e eu nunca estive realmente estabilizado em um mesmo estado de funcionamento por mais do que uns 2 anos. O próprio consumo da Ritalina nunca foi processado da mesma forma pelo meu corpo por muito tempo, e recentemente tive que encarar o fato que, mesmo mantendo religiosamente o tratamento por 9 anos seguidos, eu estava mais TDAH do que nunca, e precisava trocar de remédios. Achei um novo remédio que me fez muito bem, mas trouxe efeitos colaterais (tiques e espasmos musculares) tão incômodos que agora estou procurando um segundo remédio que anule os efeitos colaterais desse primeiro. Como qualquer tratamento que visa o equilíbrio químico do cérebro humano, as doses e combinações precisam ir sendo testadas e o tempo de estabilização do efeito das drogas no organismo precisa ser respeitado. Além da consciência de que mesmo quando um equilíbrio satisfatório for alcançado, ele terá prazo de validade. O corpo se adapta, se modifica com os anos. Cuidar da química cerebral é uma responsabilidade para a vida toda.
Hoje fazendo um balanço desses dez anos, percebo que muitas outras coisas mudaram drasticamente em mim com o tratamento. Claro que nem tudo é culpa ou efeito do remédio, afinal dos 22 aos 32 há tempo e vivência suficiente para mudar a personalidade e o comportamento de qualquer pessoa, independente de condição psiquiátrica. Mas hoje eu sei que muitas coisas em mim mudaram enquanto eu não estava olhando - ou melhor, enquanto eu estava fascinando descobrindo um lado meu que o TDAH havia impedido de aflorar até então. Antes, eu era muito criativo, muito impulsivo, tinha muita fome de tudo, mas não tinha a capacidade de levar nada adiante, de dar a regularidade e o foco que meus impulsos necessitavam para se materializarem. Depois do diagnóstico, um mundo novo de possibilidades se abriu para mim, e eu passei a ser capaz de estudar, aprender, praticar, todas essas coisas que antes eram impossíveis - mas os impulsos foram pouco a pouco desaparecendo. De certa forma, estar apto a realmente absorver o mundo me fez perder o interesse por atuar nele. Hoje em dia, meu maior problema é ter a capacidade e as ferramentas para transformar meus projetos em realidade, mas não ter nenhum projeto. Mesmo os que eu já que eu tinha antes do início do tratamento, quando me proponho a levar adiante agora, não me causam mais aquele ímpeto criativo, aquele turbilhão de idéias e projeções, aquela vontade quase irresistível de botar as engrenagens em movimento. Em dez anos, me tornei um ávido consumidor de informação, mas deixei de ser um criador.
Mas isso não quer dizer que minha criatividade tenha definhado ou que o mundo tenha me decepcionado ou coisa parecida. Na verdade, isso tudo tem a ver com uma única coisa: química. Meu professor do segundo grau me deu uma lição mais profunda do que eu era capaz de compreender na época, mas que hoje é uma verdade fundamental para mim: tudo é química, tudo contém química. Não só o TDAH ou a depressão ou os chamados "transtornos" psiquiátricos em geral, mas tudo. Tudo o que se passa dentro da nossa cabeça é uma reação química. Sem entrar no mérito do que é a alma ou qual seu papel no nosso funcionamento, mas nossas sinapses são reações eletroquímicas na sua forma mais pura. Nosso metabolismo é química. Nosso ganho e nosso gasto energético são química, e cada organismo é um circuito único, com seu próprio código genético que rege suas próprias reações químicas. Não apenas nossa racionalidade, mas nossas emoções, sensações, nossa percepção, tudo isso é decorrência direta do nosso equilíbrio químico.
Essa noção é ao mesmo tempo libertadora e opressiva. Saber que nossas emoções e idéias podem ser descritas com modelos matemáticos e influenciadas com catalisadores e inibidores nos dá um enorme poder sobre nossa própria vida ao mesmo tempo em que tira boa parte da nossa ilusão de livre arbítrio. Se todas as coisas que nos fizeram rir de felicidade ou chorar de tristeza na vida foram estímulos que desencadearam reações químicas em nosso corpo, nos levando ao riso ou ao choro, isso faz desses momentos mais ou menos reais? A famosa máxima que diz que a paixão é quimicamente equivalente ao consumo de grandes doses de chocolate faz dela um conceito falido? A poesia do amor é anulada quando concluímos que amar é sofrer uma série de reações químicas desencadeadas por estímulos transmitidos, voluntaria ou involuntariamente, pelo sujeito amado?
Minha avaliação, evidentemente, também é influenciada por reações químicas - em outros estados "de espírito" o raciocínio poderia ter sido completamente outro - mas ela parece cientificamente razoável. E vai ao encontro de noções universais contemporâneas, que dizem que existe uma engenharia para tudo, desde foguetes até comportamento de massa. As pessoas que abraçam essa noção, a de que nós somos uma combinação de elementos da tabela periódica, ficam livres de diversas armadilhas emocionais e de várias questões existenciais francamente inúteis. E menos susceptíveis ao controle externo por parte de líderes espirituais, publicitários, chantagistas emocionais, engenheiros sociais e demais grupos de indivíduos que aprenderam a lucrar com as reações químicas previsíveis do organismo.
Mais do que isso, aceitar que a química cerebral de cada um influencia imensamente no racional, no emocional e no físico de um indivíduo é aceitar que pessoas percebem, reagem, sentem e processam as coisas de forma diferente. É aceitar que nem todo mundo tem a mesma facilidade ou dificuldade para se concentrar, para aprender, para emagrecer, para produzir. E daí vem a incômoda verdade que cada um tem uma dificuldade maior ou menor de enfrentar as mesmas coisas, e que igualdade de oportunidades passa necessariamente por distribuir assimetricamente as condições, quando o instinto social espera que todas as pessoas ao nosso redor se ajustem aos nossos valores e recebam as exatas mesmas doses de tudo que nós recebemos. E essa verdade nos tira o tão precioso maniqueísmo a que nos agarramos para distribuirmos julgamentos de valor e morais. Não existem mais pessoas más, gordas, vagabundas, burras, dissimuladas; Existem pessoas cuja química cerebral desvia da curva normal. É uma extinção instantânea dos bodes expiatórios que são, por sua vez, um estímulo químico do qual quase todos nós dependemos. Um mundo sem culpados é um mundo sem sentido.
Mas tenho minhas dúvidas se isso é realmente tão ruim. Ou, ao menos, se é pior do que ver pessoas escravas de seus circuitos internos, dependentes de suas dopaminas e endorfinas que abominam a ideia de saciar a necessidade com drogas (lícitas ou ilícitas) mas que passam a vida buscando estímulos "naturais" que tenham o mesmo efeito dos sintéticos mas que dependem ou interferem com aspectos da vida alheia. Por exemplo, pessoas viciadas no rush da paixão (um estado químico que depende diretamente do estímulo transitório causado pela novidade) que destroem relacionamentos e vidas racionalizando uma dependência química. Ou pessoas que confundem desequilíbrio químico com vazio existencial e passam a acreditar piamente que não existe forma de se sentirem confortáveis no mundo ou na sociedade, com consequências trágicas. Uma vez que sabemos a origem do problema, mesmo ainda não havendo tecnologia para uma solução satisfatória (no meu caso, algo que consiga acertar o fio da balança entre meu estado racional e meu estado criativo), ao menos há menos desespero. São moinhos, e não gigantes.
Claro que essa postura é bastante cínica e não há nada de errado em ignorá-la momentaneamente para continuar vendo lirismo e espiritualidade nas coisas da vida. Mas lirismo, como tudo na vida, é melhor se utilizado com parcimônia.
23.3.12
Adeus inocência
A despeito dos impulsos que eu volta e meia tenho, é raro usar esse blog pra comentar alguma notícia (ok, é raro usar esse blog, ponto). Mas ontem uma série de acontecimentos gerou uma situação bastante curiosa no Twitter, dessas que eu tenho vontade de comentar mas jamais conseguiria fazê-lo em parcelas de 140 caracteres - ou seja, um assunto sobre o qual tenho uma opinião elaborada. Em 140 caracteres só cabem palavras de ordem e julgamentos absolutos.
Um tempo atrás, um burburinho no Twitter chamou minha atenção a uma das páginas mais ofensivas que eu já tive o desprazer de conhecer, e olha que eu tô nessa tranqueira de internet desde 1996: um blog entitulado "O Perdedor Mais Foda do Mundo," assinado por um (obviamente fictício) Silvio Koerich, onde o autor postava textos de conteúdo chocante, destilando ódio e ofensas aos mais variados grupos sociais e étnicos - negros, nordestinos, judeus, mulheres, quase um minucioso e abrangente catálogo de preconceitos. E não eram apenas ofensas, o negócio descambava pra ameaças de morte, incitação escancarada a violência, pedofilia, estupro e assassinato. Fotos explícitas de crimes bárbaros, posts ameaçadores endereçados a personalidades reais, enfim. O pacote completo.
A princípio, encarei como obra de algum desses incontáveis moleques perturbados que usam o anonimato da internet pra dar vazão a todas as suas fantasias de poder e que satisfazem uma necessidade imperativa de atenção abraçando causas socialmente inaceitáveis ou criminosas apenas pra causar celeuma. Já vi muito disso, nesses 16 anos de interwebz, e a verdade é que, com o tempo, o modus operandi desses "trolls" foi gradualmente se refinando. O que antigamente era só alguém escondido atrás de um apelido xingando muito no IRC ou em listas de discussão pra receber imediatamente a gratificação da revolta alheia, com o tempo foi se fantasiando de causa "legítima." Os iconoclastas já não se contentavam em revoltar pequenos grupos ou pessoas específicas em troca de um flame war pra aquecer as noites solitárias. Eles foram aprimorando o discurso. A era pós-11 de Setembro os ensinou que qualquer coisa pode ser legitimada se tratada como uma opinião política (que por sua vez justifica qualquer merda, contanto que se acredite fanaticamente nela). Idiotices milenares como criar páginas e foruns pra zombar e ofender vítimas de desastres que comovem a opinião pública passaram a ser uma forma de "protesto" contra o "establishment." Boçais se reuniam em grupos que tinham "bandeiras" - meras desculpas para a masturbação egóica, agora coletiva, que eles promoviam sob forma de "ataques" ou publicação de opiniões absurdas. Toda essa idiotice, pra mim, sempre foi apenas uma pantomima pra justificar - para outros e para si mesmos - o que essas besteiras sempre foram: carência de atenção.
Talvez por isso mesmo, meu cérebro estivesse condicionado a processar postagens abjetas como a do tal blog do "Sílvio Koerich" (que, agora se sabe, é o nome de um outro blogueiro que os donos do blog começaram a usar sem autorização como represália ao cara) como meras hipérboles da fantasia de um molecote espinhento que não consegue se impôr nem se enquadrar na sociedade e usa a internet pra se passar por alguém poderoso, seguro e dominante. Como de praxe. Denunciei, é óbvio, porque mesmo absolutamente fictícios, o conteúdo dos posts já era suficientemente criminoso para tal. Mas nunca na vida imaginaria que os donos daquela pocilga já fossem adultos formados, com emprego fixo, e um deles com meio milhão de reais na conta vindos não se sabe de onde. Tive um choque de realidade ontem ao ler a notícia. Não são moleques com delírios de grandeza. São adultos, emancipados, economicamente ativos, e psicologicamente perturbados. Isso é muito grave, porque molecotes espinhentos normalmente não têm outra forma de dar vazão a suas psicoses que não na interação textual pela internet. Mas adultos com dinheiro, esses podem fazer estrago. E, pelo que a Polícia Federal indicou, eles tinham planos reais e materiais de fazer estrago. A porra ficou séria.
Isso me fez repensar muitos dos meus comportamentos padrão, em especial o de achar que a internet é feita de adolescentes e pré-adolescentes. Curioso que essa noção não tem nenhuma razão de ser além do fato de que EU era adolescente quando entrei aqui, de que na minha experiência pessoal todos os idiotas que causavam revolta na internet também ERAM adolescentes. Foi nessa época que meu "streetwise" online se formou e foi assim que eu encarei toda e qualquer briga online desde então, como rusguinha de adolescentes que são super machões online mas, na hora do vamos-ver, olham pro outro lado com cara de cu. Claro que desde aquela época existem sites de terroristas, de nazistas, grupos organizados de praticantes de crime de ódio, etc. Mas, primeiro, aqui no Brasil isso era meio que lenda até agora. Rola muito submundo de pedofilia na internet brasileira, mas submundo de racismo pra mim era coisa de americano e europeu. Não mais. Adolescentes trollzinhos não angariam 500 mil reais nem mapas esquemáticos de casa de festa de faculdade onde se pretende encenar um massacre armado. Isso não é pilha pra conseguir atenção. Isso é doença de verdade, e os doentes estão aqui entre nós. Pra mim, ao menos, acabou a farra dos flame wars e das trollagens sem medo de ser feliz. Acabou o cinismo de achar que tudo é trollbait. Vou tomar bem mais cuidado com isso a partir de agora.
E eu sei que não sou o único a rever meus conceitos depois dessa história. Ontem, depois da prisão de dois dos envolvidos no tal site, uma treta sem precedentes eclodiu na minha timeline do Twitter, em que um grupinho acusava outro de ter dado moral ao Silvio Koerich ao retwittar um texto (bem tosco, diga-se) do cara sacaneando o feminismo. A despeito de achar que nenhum dos dois grupos envolvidos lidou com a situação de forma adulta (e não faço críticas porque, como eu, todos deviam estar ainda atordoados com a notícia), acho que o episódio ilustrou muito bem a necessidade de um amadurecimento de conceitos como o que eu me comprometi a adotar ali em cima. Boa parte dessa galera, assim como eu, foi criada nas tretas online de molecagem, e provavelmente também não leva(va) a ferro e fogo certos tipos de provocações. Todos nós já estivemos lá - jogar uma bomba da discórdia no meio da discussão para inflamar os ânimos. É uma técnica clássica para desestabilizar o interlocutor. Nesse espírito, muitos dos sujeitos que não se bicam com o movimento ultrafeminista (que, como todos os movimentos, tem uma causa - justa - no seu cerne, mas que adapta a contundência de sua argumentação de acordo com os interlocutores. Só que quando se fala grosso com quem precisa de grosseria num meio generalista como a internet, pessoas razoáveis também lêem e se sentem trespassadas pelo tom e consequentemente antipatizam com as causas justas por aversão aos argumentos) e costumam usar um machismo irônico nas discussões unicamente para irritar as "adversárias," foram pegos ontem de calças curtas com suas arrobas associadas ao Silvio Koerich (o original, não o fake criminoso) por terem retuitado um desses textos trollbait do cara. Na boa e velha internet-moleque de anteontem, eu teria dado risada do texto. Hoje, o buraco é mais embaixo. E claro que muita gente perdeu a mão ao apontar o dedo pra essa situação, e muita gente perdeu a cabeça ao se defender. Eu vi até gente partindo pra ameaça de processo (e aqui reservo-me ao direito, mesmo tendo prometido ali em cima levar a internet mais a sério, de considerar isso a técnica mais velha, mentirosa e boçal de intimidação do planeta. Pelo menos isso não vão me tirar.) e pouca gente dos dois lados da questão - basicamente o Pablo Villaça e o Israel "Izzy" Nobre - racionalizando a parada e transformando a guerra de cocô em uma reflexão válida. Espero que, conforme os ânimos vão se acalmando, outras pessoas façam o mesmo. Eu estou fazendo.
A internet ficou um pouco menos divertida com essa história, mas também ficou um pouco mais segura - felizmente, ANTES de ter consequências desastrosas.
14.10.11
Estava lendo uma matéria hoje sobre mais um atrito entre classe média paulistana e "gente diferenciada" e, no meio da lenga-lenga de sempre, me chamou a atenção uma passagem aonde uma distinta senhora, após hilariamente sugerir ao promotor "botar um abrigo na porta de sua casa" já que ele curte sem-teto (um funcionário do estado exercendo sua função de cuidar da população carente só pode ser um bróder das quebrada que adora socializar com mendigos, doravante um bandido imundo da mesma laia), diz que não tem nada contra os sem-teto pois "até contribui financeiramente com um abrigo no Brás."
Disse minha esposa que essa era uma nova versão do "não sou preconceituoso, até tenho um amigo negro." Ou talvez do mais atual "não sou homofóbico, tenho amigos homosexuais" que anda tão na moda.
Acho engraçado como essa é a primeira bandeira levantada pelos discriminadores raciais ou sociais, a de que eles têm amigos/conhecidos da classe supostamente odiada e portanto não podem ser tachados de preconceituosos. É tipo o cartão "saia da cadeia de graça" do racista.
O que não me entra na cabeça é como tanta gente pode se apoiar numa falácia tão fraca como se fosse um argumento sólido. É óbvio que ter amigos gays, negros, pobres, argentinos, etc. NADA TEM A VER com a existência ou não de preconceito. De pré-conceito. Quando se conhece uma pessoa a ponto de considerá-la um indivíduo, não um membro anônimo de um grupo ou uma casta, você automaticamente tem um pós-conceito da pessoa. Você já a conhece. Natural então que esse indivíduo seja avaliado pelas suas características pessoais, não pela predisposição com seu rótulo. Se é um negro, gay, ou sem-teto gente fina, se o "santo bate," ele passa a ser um amigo, um colega, um conhecido. Não cabe nenhum preconceito nessa situação.
Preconceito se tem contra o desconhecido. Contra o não-individualizado. Não importa quantos amigos homosexuais você tenha, se quando você vê um homosexual desconhecido na rua você projeta nele todo um estereótipo odioso, então, filhão, você é preconceituoso até a raiz do cabelo. Se quando alguém evoca na sua mente um negro hipotético e você já o materializa como uma figura que você atravessaria a rua para não cruzar, então você é um racista filho da puta não importa quantos negros você chame de irmãos. É simples. É lógico.
E a verdade é que o preconceituoso que tem amigos da cor, da nacionalidade, da classe social ou da preferência sexual que odeia é o pior preconceituoso. Porque não existe desculpa no mundo pra se ter contato direto com exemplos reais do objeto de discriminação e AINDA ASSIM separar os indivíduos reais da figura hipotética. Antes dissessem que não frequentam nem o mesmo bairro que gays ou negros ou mendigos. Seria mais fácil de compreender. Ser homofóbico tendo amigos gays, ou ser higienista social contribuindo com caridade, é uma ignorância voluntária e nociva e é o verdadeiro cerne dessa onda de violência reacionária que acontece atualmente no mundo inteiro. É cada vez mais difícil viver isolado de outros grupos, é cada vez mais difícil não ter a chance de pelo menos um contato com um exemplo real de cada tipo de gente que existe no mundo. E mesmo assim, as mentes tacanhas não sabem processar, reagem, inventam uma separação entre o pré- e o pós-conceito e vomitam todo tipo de idiotice para quem quiser ouvir.
É engraçado, mas é triste.
Disse minha esposa que essa era uma nova versão do "não sou preconceituoso, até tenho um amigo negro." Ou talvez do mais atual "não sou homofóbico, tenho amigos homosexuais" que anda tão na moda.
Acho engraçado como essa é a primeira bandeira levantada pelos discriminadores raciais ou sociais, a de que eles têm amigos/conhecidos da classe supostamente odiada e portanto não podem ser tachados de preconceituosos. É tipo o cartão "saia da cadeia de graça" do racista.
O que não me entra na cabeça é como tanta gente pode se apoiar numa falácia tão fraca como se fosse um argumento sólido. É óbvio que ter amigos gays, negros, pobres, argentinos, etc. NADA TEM A VER com a existência ou não de preconceito. De pré-conceito. Quando se conhece uma pessoa a ponto de considerá-la um indivíduo, não um membro anônimo de um grupo ou uma casta, você automaticamente tem um pós-conceito da pessoa. Você já a conhece. Natural então que esse indivíduo seja avaliado pelas suas características pessoais, não pela predisposição com seu rótulo. Se é um negro, gay, ou sem-teto gente fina, se o "santo bate," ele passa a ser um amigo, um colega, um conhecido. Não cabe nenhum preconceito nessa situação.
Preconceito se tem contra o desconhecido. Contra o não-individualizado. Não importa quantos amigos homosexuais você tenha, se quando você vê um homosexual desconhecido na rua você projeta nele todo um estereótipo odioso, então, filhão, você é preconceituoso até a raiz do cabelo. Se quando alguém evoca na sua mente um negro hipotético e você já o materializa como uma figura que você atravessaria a rua para não cruzar, então você é um racista filho da puta não importa quantos negros você chame de irmãos. É simples. É lógico.
E a verdade é que o preconceituoso que tem amigos da cor, da nacionalidade, da classe social ou da preferência sexual que odeia é o pior preconceituoso. Porque não existe desculpa no mundo pra se ter contato direto com exemplos reais do objeto de discriminação e AINDA ASSIM separar os indivíduos reais da figura hipotética. Antes dissessem que não frequentam nem o mesmo bairro que gays ou negros ou mendigos. Seria mais fácil de compreender. Ser homofóbico tendo amigos gays, ou ser higienista social contribuindo com caridade, é uma ignorância voluntária e nociva e é o verdadeiro cerne dessa onda de violência reacionária que acontece atualmente no mundo inteiro. É cada vez mais difícil viver isolado de outros grupos, é cada vez mais difícil não ter a chance de pelo menos um contato com um exemplo real de cada tipo de gente que existe no mundo. E mesmo assim, as mentes tacanhas não sabem processar, reagem, inventam uma separação entre o pré- e o pós-conceito e vomitam todo tipo de idiotice para quem quiser ouvir.
É engraçado, mas é triste.
7.2.11
Tem um segredo na vida que eu pretendo revelar para meus filhos assim que eles tiverem idade para compreender, um segredo que eu, mesmo, só fui descobrir depois de velho, e que uniu algumas pontas soltas percebidas na juventude de forma elegante e satisfatória. Um segredo que muita gente jamais descobre, e que pode dar algum conforto aos nenéns conforme eles vão construindo sua estrutura social, uma etapa sempre complicada da vida.
E o segredo é: Não existe bom nem ruim. Todas as coisas te dão exatamente o quanto você está disposto a investir nelas.
Isso pode não parecer segredo nenhum e ser até bem óbvio para a maioria das pessoas, uma vez que é dito. Mas de alguma forma, não é assim que a maioria das pessoas reage ao analisar o comprometimento dos iguais com as coisas que lhes apetecem. O famoso "gosto pessoal," tão presente nos ditados que compõem o senso comum.
Claro, a inexistência do bom e do ruim não significa que as coisas (e vou estreitar aqui o discurso sem perda de generalidade transformando "coisas" em "produtos de arte e entretenimento" - música, filmes, livros, movimentos culturais, etc.) não possam ser avaliadas em termos objetivos e universais. Podemos avaliá-los, por exemplo, na escala de tosco/elaborado ou na de formulaico/criativo. Ambas as medidas são costumeiramente confundidas com ruim/bom, mas isso é uma bobagem. Mais sobre o assunto adiante.
Antes de mais nada, um pouco de background. Não é segredo para ninguém que no meu "estágio probatório" de convívio social eu escolhi o caminho do que classicamente se chama de Nerd. O que significa que eu interagia menos do que o "normal" com as pessoas ao meu redor, e - talvez por consequência - absorvia menos dos gostos e interesses "normais" (o termo normal aqui é usado estritamente no sentido estatístico). Por ter também aprendido a ler mais cedo do que a média (e, em contrapartida, ter um desenvolvimento tardio da coordenação motora) o espaço que os esportes e as atividades físicas ocupam no desenvolvimento padrão de uma criança foi tomado pelas atividades mentais - leitura, principalmente. Por consequência, eu estava investido em obras mais complexas mais cedo do que o padrão.
Como é natural dessa fase do desenvolvimento social, durante toda a infância e adolescência, a combinação de fatores supracitados me levou a entrar no "time" das crianças em situação vagamente similar e ser um Nerd por todo esse estágio em que precisamos de rótulos facilmente identificáveis para sobreviver ao furacão da interação social. E como é igualmente natural, as crianças que eram categorizadas da mesma forma conviviam e trocavam experiências e gostos, e assim eu fui devidamente imbuído da subcultura nerd clássica - todos aqueles interesses que são tão bem-aceitos no meio que viram bandeiras do segmento social, defendidas com unhas e dentes como se fossem elas mesmas a própria identidade do indivíduo. Quadrinhos de super-heróis, RPG, Ficção Científica, Épicos de fantasia, camiseta de banda de rock, o pacote completo.
Nessa fase da vida, quando estamos fixando o conceito abstrato de Ruim/Bom, os interesses em que a nossa subcultura de "escolha" tem maior investimento viram nosso parágono de qualidade, e os interesses mais alienados pelos nossos iguais são rechaçados como ruins. Talvez não o fossem, se jovens em formação social não confundissem seus gostos pessoais com estandartes (e, o verdadeiro erro, os gostos pessoais de outras subculturas como bandeiras inimigas).
Esse processo me parece universal, e mesmo não tendo tido outras infâncias enquadrado em outras subculturas, acredito que seja a mesma coisa em qualquer caminho trilhado. Só que essa fase acaba e eventualmente o mundo, com toda a sua pluralidade cultural, se abre para que nós possamos enfim sermos indivíduos interagindo além das castas escolares. Claro, círculos sociais ainde existem, afinal mesmo uma mente adulta precisa de algum tipo de classificação para saber lidar com as milhares de pessoas que cruzam seu caminho ao longo da vida. Mas não existe mais a pressão implacável dos iguais para que reforcemos o estereótipo, pois as bandeiras da juventude perdem importância diante dos desafios individuais que a vida adulta apresenta (carreira, vida amorosa, família).
Infelizmente, nem todo mundo consegue superar a confusão identidade/subcultura e nunca realmente se permite olhar por cima do muro cultural auto-imposto e nas "bandeiras inimigas." O que é deprimente, de fato, porque o enquadramento em uma subcultura é resultado dos interesses individuais em dado ponto da vida - interesses que podem vir dos pais, dos amigos, da televisão, de qualquer lugar, mas que são essencialmente nossos, porque os selecionamos espontaneamente e investimos neles. Uma vez que caímos numa sociedade que largamente caga e anda para nossos próprios investimentos, ater-se a uma subcultura juvenil é limitar voluntariamente seu repertório.
No meu caso, eu tive sorte. Das várias turmas que tive desde o fim da adolescência, mesmo compostas basicamente por nerds, todas tinham pessoas com gostos pessoais que iam além do "socialmente aceito" para um nerd colegial. Sempre tinha alguém que gostava de alguma coisa que durante a juventude tinha sido parte de outra casta, e minha curiosidade sempre falou mais alto que o preconceito herdado dos rótulos. Aprendi a gostar de esportes, acompanhar, torcer, discutir. Comecei a ver filmes e ler livros de gêneros que antes não me interessavam. Da minha própria infância e das influências familiares resgatei também outros interesses grandes, como a música clássica e a MPB. Expandi bastante meus horizontes musicais, avaliando sem preconceitos a música eletrônica, a música pop, a música regional, e tantos outros estilos largamente hostilizados pela subcultura nerd. Aprendi a prestar atenção na televisão antes de jogar toda a programação de todos os canais no mesmo balaio pretensiosamente rotulado de "lixo cultural." Aliás, aprendi que não existe lixo cultural.
Eu perdi até mesmo o receio de dançar, e por anos me joguei em baladas rock e pop diversas vezes por semana, dançando em palquinhos sem medo de ser feliz! Isso sim é quebra de estereótipo =P
E a verdadeira lição que eu tirei disso tudo é que existe "bom" em qualquer lugar. Basta que se invista atenção e tempo suficientes em uma obra para que essa obra o recompense com todas as sensações que se associa a uma experiência boa. Como todos nós investimos naquilo que é "obrigatório" para aceitação na tribo em que nos jogam lá nos meados da nossa infância.
E, como eu disse antes, mesmo obras universalmente toscas podem ser boas. Conheço muita gente que tira verdadeira satisfação de obras toscas. Quanto mais tosca, melhor. Isso não é nenhuma falha de caráter nem tampouco pobreza de espírito. Alguém que se dispõe a ser entretido pela tosqueira pode achar uma fonte infinita de recompensas, afinal o tosco é cru, amorfo, acidentado, e portanto rico em detalhes. Basta que alguém realmente queira ser entretido pelos detalhes dissonantes, há mais deles em obras toscas do que em qualquer obra ultra-elaborada.
Também conheço muita, muita gente mesmo, que realmente aprecia o formulaico. Esse caso é mais complexo, porque o lance da fórmula é que ela pega um investimento e transfere para diversas outras obras. Há quem consiga extrair a diversão de cada uma delas, e há quem já tenha recolhido todo o investimento e não encontre mais qualquer diversão em mais do mesmo. Isso significa que o criativo e novo é melhor do que o formulaico e, portanto, "bom?" Não. Tudo o que é realmente novo é isento de qualquer investimento. A mente humana não consegue sequer compreender algo realmente novo da primeira vez que absorve. É preciso investir, tempo, atenção, vontade, para que algo inédito comece a ser satisfatório. É por isso que tem músicas que soam estranhas mas depois de algumas repetições "entram" na nossa cabeça e passam a ser do nosso gosto. Gostamos do que está em algum ponto entre o totalmente inédito e o totalmente saturado. Não tem nada a ver com bom ou ruim.
Por isso é que desde cedo, pretendo ensinar aos meninos que é normal procurar um molde, uma identidade, especialmente nos primeiros anos da vida. E que é natural viver esse molde como a própria identidade por uns anos. Mas esse estágio passa, e dali por diante, sempre ignore qualquer tentativa de qualquer pessoa tentar ensiná-los o que é bom e o que é ruim, ou pior, o que eles devem ou não devem gostar. Esse tipo de pregação moral não tem fundamento, é o ranço de uma fase com início e fim em que a linha entre aceitação e aceitável é difusa, e que restringir a satisfação que se pode receber da arte e do entretenimento com base nessas regras furadas é desperdiçar amplamente os prazeres sensoriais que a vida nos oferece.
E o segredo é: Não existe bom nem ruim. Todas as coisas te dão exatamente o quanto você está disposto a investir nelas.
Isso pode não parecer segredo nenhum e ser até bem óbvio para a maioria das pessoas, uma vez que é dito. Mas de alguma forma, não é assim que a maioria das pessoas reage ao analisar o comprometimento dos iguais com as coisas que lhes apetecem. O famoso "gosto pessoal," tão presente nos ditados que compõem o senso comum.
Claro, a inexistência do bom e do ruim não significa que as coisas (e vou estreitar aqui o discurso sem perda de generalidade transformando "coisas" em "produtos de arte e entretenimento" - música, filmes, livros, movimentos culturais, etc.) não possam ser avaliadas em termos objetivos e universais. Podemos avaliá-los, por exemplo, na escala de tosco/elaborado ou na de formulaico/criativo. Ambas as medidas são costumeiramente confundidas com ruim/bom, mas isso é uma bobagem. Mais sobre o assunto adiante.
Antes de mais nada, um pouco de background. Não é segredo para ninguém que no meu "estágio probatório" de convívio social eu escolhi o caminho do que classicamente se chama de Nerd. O que significa que eu interagia menos do que o "normal" com as pessoas ao meu redor, e - talvez por consequência - absorvia menos dos gostos e interesses "normais" (o termo normal aqui é usado estritamente no sentido estatístico). Por ter também aprendido a ler mais cedo do que a média (e, em contrapartida, ter um desenvolvimento tardio da coordenação motora) o espaço que os esportes e as atividades físicas ocupam no desenvolvimento padrão de uma criança foi tomado pelas atividades mentais - leitura, principalmente. Por consequência, eu estava investido em obras mais complexas mais cedo do que o padrão.
Como é natural dessa fase do desenvolvimento social, durante toda a infância e adolescência, a combinação de fatores supracitados me levou a entrar no "time" das crianças em situação vagamente similar e ser um Nerd por todo esse estágio em que precisamos de rótulos facilmente identificáveis para sobreviver ao furacão da interação social. E como é igualmente natural, as crianças que eram categorizadas da mesma forma conviviam e trocavam experiências e gostos, e assim eu fui devidamente imbuído da subcultura nerd clássica - todos aqueles interesses que são tão bem-aceitos no meio que viram bandeiras do segmento social, defendidas com unhas e dentes como se fossem elas mesmas a própria identidade do indivíduo. Quadrinhos de super-heróis, RPG, Ficção Científica, Épicos de fantasia, camiseta de banda de rock, o pacote completo.
Nessa fase da vida, quando estamos fixando o conceito abstrato de Ruim/Bom, os interesses em que a nossa subcultura de "escolha" tem maior investimento viram nosso parágono de qualidade, e os interesses mais alienados pelos nossos iguais são rechaçados como ruins. Talvez não o fossem, se jovens em formação social não confundissem seus gostos pessoais com estandartes (e, o verdadeiro erro, os gostos pessoais de outras subculturas como bandeiras inimigas).
Esse processo me parece universal, e mesmo não tendo tido outras infâncias enquadrado em outras subculturas, acredito que seja a mesma coisa em qualquer caminho trilhado. Só que essa fase acaba e eventualmente o mundo, com toda a sua pluralidade cultural, se abre para que nós possamos enfim sermos indivíduos interagindo além das castas escolares. Claro, círculos sociais ainde existem, afinal mesmo uma mente adulta precisa de algum tipo de classificação para saber lidar com as milhares de pessoas que cruzam seu caminho ao longo da vida. Mas não existe mais a pressão implacável dos iguais para que reforcemos o estereótipo, pois as bandeiras da juventude perdem importância diante dos desafios individuais que a vida adulta apresenta (carreira, vida amorosa, família).
Infelizmente, nem todo mundo consegue superar a confusão identidade/subcultura e nunca realmente se permite olhar por cima do muro cultural auto-imposto e nas "bandeiras inimigas." O que é deprimente, de fato, porque o enquadramento em uma subcultura é resultado dos interesses individuais em dado ponto da vida - interesses que podem vir dos pais, dos amigos, da televisão, de qualquer lugar, mas que são essencialmente nossos, porque os selecionamos espontaneamente e investimos neles. Uma vez que caímos numa sociedade que largamente caga e anda para nossos próprios investimentos, ater-se a uma subcultura juvenil é limitar voluntariamente seu repertório.
No meu caso, eu tive sorte. Das várias turmas que tive desde o fim da adolescência, mesmo compostas basicamente por nerds, todas tinham pessoas com gostos pessoais que iam além do "socialmente aceito" para um nerd colegial. Sempre tinha alguém que gostava de alguma coisa que durante a juventude tinha sido parte de outra casta, e minha curiosidade sempre falou mais alto que o preconceito herdado dos rótulos. Aprendi a gostar de esportes, acompanhar, torcer, discutir. Comecei a ver filmes e ler livros de gêneros que antes não me interessavam. Da minha própria infância e das influências familiares resgatei também outros interesses grandes, como a música clássica e a MPB. Expandi bastante meus horizontes musicais, avaliando sem preconceitos a música eletrônica, a música pop, a música regional, e tantos outros estilos largamente hostilizados pela subcultura nerd. Aprendi a prestar atenção na televisão antes de jogar toda a programação de todos os canais no mesmo balaio pretensiosamente rotulado de "lixo cultural." Aliás, aprendi que não existe lixo cultural.
Eu perdi até mesmo o receio de dançar, e por anos me joguei em baladas rock e pop diversas vezes por semana, dançando em palquinhos sem medo de ser feliz! Isso sim é quebra de estereótipo =P
E a verdadeira lição que eu tirei disso tudo é que existe "bom" em qualquer lugar. Basta que se invista atenção e tempo suficientes em uma obra para que essa obra o recompense com todas as sensações que se associa a uma experiência boa. Como todos nós investimos naquilo que é "obrigatório" para aceitação na tribo em que nos jogam lá nos meados da nossa infância.
E, como eu disse antes, mesmo obras universalmente toscas podem ser boas. Conheço muita gente que tira verdadeira satisfação de obras toscas. Quanto mais tosca, melhor. Isso não é nenhuma falha de caráter nem tampouco pobreza de espírito. Alguém que se dispõe a ser entretido pela tosqueira pode achar uma fonte infinita de recompensas, afinal o tosco é cru, amorfo, acidentado, e portanto rico em detalhes. Basta que alguém realmente queira ser entretido pelos detalhes dissonantes, há mais deles em obras toscas do que em qualquer obra ultra-elaborada.
Também conheço muita, muita gente mesmo, que realmente aprecia o formulaico. Esse caso é mais complexo, porque o lance da fórmula é que ela pega um investimento e transfere para diversas outras obras. Há quem consiga extrair a diversão de cada uma delas, e há quem já tenha recolhido todo o investimento e não encontre mais qualquer diversão em mais do mesmo. Isso significa que o criativo e novo é melhor do que o formulaico e, portanto, "bom?" Não. Tudo o que é realmente novo é isento de qualquer investimento. A mente humana não consegue sequer compreender algo realmente novo da primeira vez que absorve. É preciso investir, tempo, atenção, vontade, para que algo inédito comece a ser satisfatório. É por isso que tem músicas que soam estranhas mas depois de algumas repetições "entram" na nossa cabeça e passam a ser do nosso gosto. Gostamos do que está em algum ponto entre o totalmente inédito e o totalmente saturado. Não tem nada a ver com bom ou ruim.
Por isso é que desde cedo, pretendo ensinar aos meninos que é normal procurar um molde, uma identidade, especialmente nos primeiros anos da vida. E que é natural viver esse molde como a própria identidade por uns anos. Mas esse estágio passa, e dali por diante, sempre ignore qualquer tentativa de qualquer pessoa tentar ensiná-los o que é bom e o que é ruim, ou pior, o que eles devem ou não devem gostar. Esse tipo de pregação moral não tem fundamento, é o ranço de uma fase com início e fim em que a linha entre aceitação e aceitável é difusa, e que restringir a satisfação que se pode receber da arte e do entretenimento com base nessas regras furadas é desperdiçar amplamente os prazeres sensoriais que a vida nos oferece.
15.10.10
Aos pais de merda
Sempre soube que a paternidade mudava radicalmente a nossa vida, mas confesso que minha rica e intensa experiência tem me moldado para caminhos que eu não esperava. Nunca fui, por exemplo, dado a rótulos como "de merda." Raramente na vida considerei alguém digno de ser ser denegrido a esse ponto, porque sempre fui compelido por uma vocação de alma a analisar todos os pontos de vista de uma questão e entender as causas ao invés de julgar os efeitos. Claro, isso nunca me impediu de aplicar a pecha a alguns desafetos com a intenção específica de desabafar, mas realmente considerar alguém um merda, até hoje tinha sido difícil. Todo tipo de falha de caráter ou de amoralidade que eu presenciei pessoalmente tinha alguma base ou justificativa torta em fraquezas corriqueiras do ser humano. Todo mundo tinha alguma lógica para se considerar protagonista da própria vida e eu em geral entendia e respeitava essas coisas, afinal, cada um sabe a dor e a delícia (ou o inferno) de ser o que é.
Mas agora que sou pai, e avaliando a meu redor a capacidade de outros pais de desestruturar e causar dor a seus filhos - que infelizmente tenho testemunhado bem mais do que eu gostaria - eu sei que não existe justificativa, por mais remota que seja, para massacrar quem você mesmo botou no mundo. Ninguém pede para nascer, mas também ninguém é obrigado a procriar. O prazer envolvido no ato, a vocação genética, nada disso pode ser usado como desculpa no século XXI com inúmeras alternativas acessíveis para foder sem conceber. A partir do momento em que se inflige a vida (por assim dizer) a alguém, essa vida está na sua conta pelo resto dos seus dias. Fazer miserável essa vida que também não lhe pediu para nascer, é ser sim um merda no sentido amplo e profundo do termo. Um merda com pedigree.
A maioria dos pais de merda justificam sua própria incompetência com a incompetência de seus próprios pais, o que é a coisa mais merda a se dizer na vida. Que tipo de escroto repassa uma violência sofrida a um terceiro inocente? Uma variação dessa corja são os filhos de pais de merda que decidem que criarão seus filhos da forma exatamente oposta à que foram criados, uma armadilha muito comum entre os ineptos de bosta que criam pequenos monstrinhos. Dica para quem planeja fazer isso com seus próprios filhos: O oposto de um erro não é necessariamente um acerto. Por "não necessariamente" leia-se "quase nunca."
Outra grande babaquice que pais de merda dizem para justificar o injustificável é jogar a culpa da relação degradante nos filhos, tratá-los como se fossem casos perdidos, decepções, potenciais que fracassaram. Esses putos esquecem que se seus filhos são deficientes em algum aspecto, é basicamente porque eles foram incapazes de formá-los a contento. Muitos idiotas acham que um bebê é uma esponja que eles podem preencher com o que quiserem, um autômato que nascerá compreendendo comandos verbais e que viverá em função dos sonhos e ambições (muitas vezes transferidos das próprias frustrações) dos pais. É impressionante que isso seja surpresa para alguém, mas bebês nascem com personalidade própria. O aprendizado do ser humano acontece em fases bem distintas e apenas a última delas, se tanto, envolve a aceitação de lições verbalizadas. E mesmo essa aceitação é indireta, complexa, sujeita aos caprichos da alma da criança. Pais que falham em reconhecer isso e posteriormente oprimem seus filhos com cobranças, antagonismos e decepção, são duplamente merdas por terceirizar a própria inaptidão. Covardes de merda.
Inclusive, vai aí a dica mais valiosa que eu posso dar para alguém nesse momento da minha vida, algo que realmente ficou muito evidente depois que virei pai. Pessoas que ainda estão naquele estágio de terminar relacionamentos por incompatibilidade, por favor evitem ter filhos. Claro que a paternidade (ou maternidade) pode ter um efeito mágico e causar um amadurecimento instantâneo que a viabilize, mas se isso não acontecer, as chances de você se tornar um pai ou mãe de bosta são grandes. Seus filhos terão um relacionamento com você tão intenso quanto qualquer casamento, possivelmente mais. Eles vão ter horários diferentes dos seus. Vão demandar mais do que oferecem em troca por grande parte da vida. Todos, sem exceção, são egocêntricos (que ao pai de merda parece egoísmo) por algum tempo, todos estão aprendendo a ouvir, falar, ler, contar, tudo ao mesmo tempo e tudo do zero. Todos nascem num ciclo de subsistência básico e só com o tempo vão lapidando a moral e o caráter. Todos vão torrar seu dinheiro, dominar sua casa, contestar suas decisões e, depois de anos dessa relação sugadora e acorrentadora, se a natureza seguir seu curso padrão, eles trocarão seu afeto pelo de outra pessoa, normalmente bem mais jovem.
Então, se você não está preparado para amar dessa forma, se não consegue se imaginar passando anos ao lado de alguém que ultrapassa todos os seus limites e que não abre brechas para repensar relacionamento ou espairar, então evite ter filhos. Mesmo. Eu diria até "não tenha," uma postura radical dessas inviabilizaria a existência de duas das coisas mais preciosas da minha vida, o que significa que algumas pessoas podem fazer um enorme bem apesar de seus pais de merda. Mas não posso endossar de forma alguma o tipo de sofrimento a que o filho de um merda é submetido. Sei que sofrimento é importante e engrandece a alma, mas fontes de sofrimento nesse mundo não faltam, a família não precisa fornecer ESSE aprendizado.
Eu, felizmente, estou pronto. E para quem sabe do que se trata e aceita os termos do contrato, ser pai é a melhor coisa do mundo.
Sempre soube que a paternidade mudava radicalmente a nossa vida, mas confesso que minha rica e intensa experiência tem me moldado para caminhos que eu não esperava. Nunca fui, por exemplo, dado a rótulos como "de merda." Raramente na vida considerei alguém digno de ser ser denegrido a esse ponto, porque sempre fui compelido por uma vocação de alma a analisar todos os pontos de vista de uma questão e entender as causas ao invés de julgar os efeitos. Claro, isso nunca me impediu de aplicar a pecha a alguns desafetos com a intenção específica de desabafar, mas realmente considerar alguém um merda, até hoje tinha sido difícil. Todo tipo de falha de caráter ou de amoralidade que eu presenciei pessoalmente tinha alguma base ou justificativa torta em fraquezas corriqueiras do ser humano. Todo mundo tinha alguma lógica para se considerar protagonista da própria vida e eu em geral entendia e respeitava essas coisas, afinal, cada um sabe a dor e a delícia (ou o inferno) de ser o que é.
Mas agora que sou pai, e avaliando a meu redor a capacidade de outros pais de desestruturar e causar dor a seus filhos - que infelizmente tenho testemunhado bem mais do que eu gostaria - eu sei que não existe justificativa, por mais remota que seja, para massacrar quem você mesmo botou no mundo. Ninguém pede para nascer, mas também ninguém é obrigado a procriar. O prazer envolvido no ato, a vocação genética, nada disso pode ser usado como desculpa no século XXI com inúmeras alternativas acessíveis para foder sem conceber. A partir do momento em que se inflige a vida (por assim dizer) a alguém, essa vida está na sua conta pelo resto dos seus dias. Fazer miserável essa vida que também não lhe pediu para nascer, é ser sim um merda no sentido amplo e profundo do termo. Um merda com pedigree.
A maioria dos pais de merda justificam sua própria incompetência com a incompetência de seus próprios pais, o que é a coisa mais merda a se dizer na vida. Que tipo de escroto repassa uma violência sofrida a um terceiro inocente? Uma variação dessa corja são os filhos de pais de merda que decidem que criarão seus filhos da forma exatamente oposta à que foram criados, uma armadilha muito comum entre os ineptos de bosta que criam pequenos monstrinhos. Dica para quem planeja fazer isso com seus próprios filhos: O oposto de um erro não é necessariamente um acerto. Por "não necessariamente" leia-se "quase nunca."
Outra grande babaquice que pais de merda dizem para justificar o injustificável é jogar a culpa da relação degradante nos filhos, tratá-los como se fossem casos perdidos, decepções, potenciais que fracassaram. Esses putos esquecem que se seus filhos são deficientes em algum aspecto, é basicamente porque eles foram incapazes de formá-los a contento. Muitos idiotas acham que um bebê é uma esponja que eles podem preencher com o que quiserem, um autômato que nascerá compreendendo comandos verbais e que viverá em função dos sonhos e ambições (muitas vezes transferidos das próprias frustrações) dos pais. É impressionante que isso seja surpresa para alguém, mas bebês nascem com personalidade própria. O aprendizado do ser humano acontece em fases bem distintas e apenas a última delas, se tanto, envolve a aceitação de lições verbalizadas. E mesmo essa aceitação é indireta, complexa, sujeita aos caprichos da alma da criança. Pais que falham em reconhecer isso e posteriormente oprimem seus filhos com cobranças, antagonismos e decepção, são duplamente merdas por terceirizar a própria inaptidão. Covardes de merda.
Inclusive, vai aí a dica mais valiosa que eu posso dar para alguém nesse momento da minha vida, algo que realmente ficou muito evidente depois que virei pai. Pessoas que ainda estão naquele estágio de terminar relacionamentos por incompatibilidade, por favor evitem ter filhos. Claro que a paternidade (ou maternidade) pode ter um efeito mágico e causar um amadurecimento instantâneo que a viabilize, mas se isso não acontecer, as chances de você se tornar um pai ou mãe de bosta são grandes. Seus filhos terão um relacionamento com você tão intenso quanto qualquer casamento, possivelmente mais. Eles vão ter horários diferentes dos seus. Vão demandar mais do que oferecem em troca por grande parte da vida. Todos, sem exceção, são egocêntricos (que ao pai de merda parece egoísmo) por algum tempo, todos estão aprendendo a ouvir, falar, ler, contar, tudo ao mesmo tempo e tudo do zero. Todos nascem num ciclo de subsistência básico e só com o tempo vão lapidando a moral e o caráter. Todos vão torrar seu dinheiro, dominar sua casa, contestar suas decisões e, depois de anos dessa relação sugadora e acorrentadora, se a natureza seguir seu curso padrão, eles trocarão seu afeto pelo de outra pessoa, normalmente bem mais jovem.
Então, se você não está preparado para amar dessa forma, se não consegue se imaginar passando anos ao lado de alguém que ultrapassa todos os seus limites e que não abre brechas para repensar relacionamento ou espairar, então evite ter filhos. Mesmo. Eu diria até "não tenha," uma postura radical dessas inviabilizaria a existência de duas das coisas mais preciosas da minha vida, o que significa que algumas pessoas podem fazer um enorme bem apesar de seus pais de merda. Mas não posso endossar de forma alguma o tipo de sofrimento a que o filho de um merda é submetido. Sei que sofrimento é importante e engrandece a alma, mas fontes de sofrimento nesse mundo não faltam, a família não precisa fornecer ESSE aprendizado.
Eu, felizmente, estou pronto. E para quem sabe do que se trata e aceita os termos do contrato, ser pai é a melhor coisa do mundo.
22.2.10
Tenho uma confissão bombástica a fazer, então vou direto ao ponto: eu estou assistindo a décima edição do Big Brother Brasil.
Não é a primeira vez que eu assisto o programa, eu acompanhei da metade pro fim as eliminações da segunda edição (mais ouvi do que vi, na verdade, porque a TV ficava ligada e eu ficava no computador fazendo outras coisas), e eu evidentemente fiquei a par do desenrolar da sétima edição, porque também não se falava em outra coisa na época. Mas essa é a primeira vez em que eu fui pego no esquema de acompanhar as provas, as formações de paredão, a maioria das edições, e até mesmo - *gasp* - as festas. E confesso que pela primeira vez na vida usei minha conta véia de guerra da Globo.com para espiar o streaming vez ou outra (não tenho Multishow para assistir a meia hora extra, então me viro como posso).
Atribuo essa mudança de postura a três fatores chave. O primeiro foi o fato da minha noiva assistir, o que me fez ter que optar entre ficar olhando pro infinito pensando "lugar feliz, lugar feliz" ou parar e assistir junto, já que o horário do programa não era propício a qualquer outra atividade conjunta. O segundo foi a boa escolha de elenco desse ano, que me pareceu bem menos genérica do que a de anos anteriores - mas talvez isso seja consequência do primeiro fator, já que eu dediquei mais do que 5 segundos da minha atenção para conhecer os participantes. E terceiro, mas não menos importante, foi o fato desse ano ser o ano do Twitter - que é ao mesmo tempo uma rede social mais seletiva e mais abrangente do que o Orkut. Enquanto no Orkut estávamos sempre separados pelas barreiras do tema da comunidade em questão, no Twitter os assuntos fluem livremente, e muito para minha surpresa (farei um post só sobre isso um dia, talvez) os assuntos que dominam o Twitter são basicamente TV aberta e cultura de massa. Então é claro que assim que o programa começou, virou praticamente o único assunto da minha timeline, e gente conversando sobre é sempre um atrativo fatal para qualquer tipo de programa.
Mas claro que estar assistindo não me faz gostar mais do programa. Todos os defeitos que eu sempre vi continuam lá, só que agora eu estou pego nessa curiosidade mórbida coletiva que faz todo mundo diminuir a velocidade pra ver acidente na estrada. E não é nem má vontade, eu estou genuinamente tentando gostar do programa. O problema é que o Big Brother Brasil sofre de múltiplas personalidades e, tentando definir se é um estudo antropológico ou uma soap opera, acaba sendo um exemplar ruim das duas categorias.
Não vou aqui levantar a bandeira de que reality shows são lixo. Reconheço a importância do gênero e a evolução que ele causou em todos os outros tipos de mídia. Os realitys comportamentais, especificamente (dos quais o Big Brother é o pai e o principal expoente), trouxeram ao entretenimento de massas um vislumbre do comportamento humano em sua forma mais crua, mais espontânea, e forçaram os telespectadores a acompanharem um enredo sem o timing e o ritmo cuidadosamente construídos das obras roteirizadas, e principalmente com personagens bem menos maniqueístas. Não existe essencialmente mocinho e bandido, não existe o bem e o mal, existem pessoas normais, cada uma com seu caráter. É bem mais complicado, e ao mesmo tempo bem mais interessante, acompanhar um programa que não tem protagonistas. Não é à toa que, de uns anos para cá, a maioria dos filmes e séries que competem com reality shows por audiência investiram pesadamente em personagens cheios de defeitos e falhas tipicamente humanas. Agora que o espectador padrão se tornou um antropólogo de boteco, o conflito moral passou a ser ao mesmo tempo viável e necessário para manter interesse.
Por outro lado, o Big Brother é um tipo muito peculiar de reality show. Ao contrário dos programas da segunda geração que se focam em pessoas competindo em alguma área específica de trabalho, ou em famílias televisionando seu cotidiano, não existe fio da meada. Ninguém está ali lutando pela superação pessoal e pela excelência em alguma profissão ou carreira. Eles apenas interagem entre si e o público vai eliminando quem não lhe apetece até que sobre apenas um, que leva uma grana pra casa e fim. Tudo o que eles fazem, todo o "jogo" envolvido, é tentar evitar o julgamento pelo maior tempo possível. O resto é brincar de casinha e ser assistido o tempo todo no processo.
Pois bem, a questão é que o público brasileiro não tem tanta vocação assim para a antropologia. Nos moldes do original holandês, o Big Brother brasileiro seria um fracasso retumbante. Nossa cultura televisita é calcada nas telenovelas (que por sua vez vieram das novelas radiofônicas), que são por definição obras palatáveis, de personagens rasos e onde tudo é preto-no-branco. Ou alguém é bonzinho, ou é malvado, e há certos comportamentos recorrentes tipicamente associados a um e outro tipo. Outro país que tem essa cultura (no caso deles, de telesséries, que derivam da indústria cinematográfica nacional) é os Estados Unidos. Lá, Big Brother não cola. Eles favorecem os Realitys em que tudo é pré-gravado, editado e apresentado num formato fácil de digerir. Exibição ao vivo e participação do público lá é limitada e tem como propósito julgar algo muito bem definido (por exemplo, o talento de competidores do American Idol).
No Brasil, por outro lado, o Big Brother virou um produto único e ousado. Sem deixar de ser um programa onde o público assiste a vida dos participantes ao vivo, existe aqui uma edição em tempo real que muitos profissionais achariam impossível fazer. O diretor consegue, apenas com as câmeras (que têm alcance limitado, inclusive) e a mesa de áudio, criar personagens e dar tons de novela a cenas e diálogos que estão se desenrolando espontaneamente. Claro que existem edições tradicionais, exibidas diariamente, e o público sabe muito bem que nessas a produção faz o que quiser (a falta de roteiro e direção é compensada pela quantidade massiva de material). Mas mesmo quem vê ao vivo está assistindo a versão dos fatos da emissora, que é finamente orquestrada e tem objetivos bem específicos. Há uma história sendo contada, e é uma obra conjunta dos participantes-atores e das câmeras-diretoras. E uma história muito intrigante do ponto de vista sociológico.
Então por que eu não consigo gostar do BBB? Uma das coisas que me incomoda é a constante obliteração da quarta parede, através das irritantes interferências do Pedro Bial e das incursões malucas dos personagens ao mundo exterior no meio do programa. Mas a pior violação, a que realmente estraga o programa para mim, deve-se a um participante, um único, que não me desce pela garganta de jeito nenhum. Um participante que não me representa, que não interage com ninguém na casa e mesmo assim tem um poder desproporcional lá dentro. Um participante com uma visão estreita e radical das coisas e com as opiniões mais retrógradas e estapafúrdias, e que, inexplicavelmente, volta para o programa toda temporada, desde a primeira: o público.
Como eu disse antes, não existe um talento ou um esforço específico sendo julgado no BBB. As votações são essencialmente para julgar as personagens - notem, não necessariamente as pessoas que estão lá, porque elas representam o papel que o diretor escolhe para eles baseado numa análise de aptidão. Porém, o público brasileiro está longe de ter uma visão antropológica evoluída. Quem ousa compôr o elenco de um Big Brother estará sendo julgado de acordo com valores de novela das oito. Estará sendo reduzido a uma caricatura, e uma vez encaixado nesse molde, é difícil sair. Vence o BBB quem vira protagonista de novela, e nesse aspecto, qual a vantagem de assistir um reality show quando se pode continuar vendo tramas bem mais elaboradas escritas do início ao fim pelo Manoel Carlos, pela Glória Pérez? Aqueles que, como eu, querem ver pessoas falíveis e normais vivendo romances, amizades e rusgas normais, são forçados a verem semanalmente um membro do elenco sendo "morto" porque não é bonzinho o suficiente para o gosto da massa. E aí, lá se vão os arcos de enredo que eu acompanhava, lá se vai a continuidade, tudo.
Imaginem se seria possível acompanhar uma série em que toda semana morresse um personagem deixando todos os seus plots em aberto. Imaginem, para fins de argumentação, se toda semana o público de Lost mandasse matar o personagem que menos gostasse. "Esse Jack é um idiota, matem-no e reescrevam a história sem ele!" "Kate fez merda essa semana, joguem-na pros tubarões!" Quem teria paciência para ver mais do que uns dias disso? Quantas semanas até termos uma série só com Hurley falando sozinho?
Claro, Lost é uma série roteirizada, diriam alguns, e BBB é realidade e improviso. Mas BBB é um programa de televisão, certo? Ele existe com fins de entretenimento, e nós pagamos Pay-per-View (ou pagamos com vergonha alheia das inserções escabrosas de merchandising) para sermos entretidos. Simplesmente ver gente andar por aí e bater papo o dia todo não é exatamente interessante, então mesmo um Big Brother precisa de conflito, de ritmo, de enredo. E infelizmente, a história que eu quero assistir ali é bloqueada, de novo e de novo, pela frustrante e enervante participação popular.
Por essas e outras que eu continuo gostando mil vezes mais de Amazing Race, e que realmente me apaixonei por Solitários, o reality que estreou no SBT esse ano. A verdade é que realitys com participação e voto popular me broxam. Sou totalmente a favor de observar pessoas comuns vivendo situações incomuns, mas infelizmente no BBB o público não sabe olhar sem meter a mão.
Não é a primeira vez que eu assisto o programa, eu acompanhei da metade pro fim as eliminações da segunda edição (mais ouvi do que vi, na verdade, porque a TV ficava ligada e eu ficava no computador fazendo outras coisas), e eu evidentemente fiquei a par do desenrolar da sétima edição, porque também não se falava em outra coisa na época. Mas essa é a primeira vez em que eu fui pego no esquema de acompanhar as provas, as formações de paredão, a maioria das edições, e até mesmo - *gasp* - as festas. E confesso que pela primeira vez na vida usei minha conta véia de guerra da Globo.com para espiar o streaming vez ou outra (não tenho Multishow para assistir a meia hora extra, então me viro como posso).
Atribuo essa mudança de postura a três fatores chave. O primeiro foi o fato da minha noiva assistir, o que me fez ter que optar entre ficar olhando pro infinito pensando "lugar feliz, lugar feliz" ou parar e assistir junto, já que o horário do programa não era propício a qualquer outra atividade conjunta. O segundo foi a boa escolha de elenco desse ano, que me pareceu bem menos genérica do que a de anos anteriores - mas talvez isso seja consequência do primeiro fator, já que eu dediquei mais do que 5 segundos da minha atenção para conhecer os participantes. E terceiro, mas não menos importante, foi o fato desse ano ser o ano do Twitter - que é ao mesmo tempo uma rede social mais seletiva e mais abrangente do que o Orkut. Enquanto no Orkut estávamos sempre separados pelas barreiras do tema da comunidade em questão, no Twitter os assuntos fluem livremente, e muito para minha surpresa (farei um post só sobre isso um dia, talvez) os assuntos que dominam o Twitter são basicamente TV aberta e cultura de massa. Então é claro que assim que o programa começou, virou praticamente o único assunto da minha timeline, e gente conversando sobre é sempre um atrativo fatal para qualquer tipo de programa.
Mas claro que estar assistindo não me faz gostar mais do programa. Todos os defeitos que eu sempre vi continuam lá, só que agora eu estou pego nessa curiosidade mórbida coletiva que faz todo mundo diminuir a velocidade pra ver acidente na estrada. E não é nem má vontade, eu estou genuinamente tentando gostar do programa. O problema é que o Big Brother Brasil sofre de múltiplas personalidades e, tentando definir se é um estudo antropológico ou uma soap opera, acaba sendo um exemplar ruim das duas categorias.
Não vou aqui levantar a bandeira de que reality shows são lixo. Reconheço a importância do gênero e a evolução que ele causou em todos os outros tipos de mídia. Os realitys comportamentais, especificamente (dos quais o Big Brother é o pai e o principal expoente), trouxeram ao entretenimento de massas um vislumbre do comportamento humano em sua forma mais crua, mais espontânea, e forçaram os telespectadores a acompanharem um enredo sem o timing e o ritmo cuidadosamente construídos das obras roteirizadas, e principalmente com personagens bem menos maniqueístas. Não existe essencialmente mocinho e bandido, não existe o bem e o mal, existem pessoas normais, cada uma com seu caráter. É bem mais complicado, e ao mesmo tempo bem mais interessante, acompanhar um programa que não tem protagonistas. Não é à toa que, de uns anos para cá, a maioria dos filmes e séries que competem com reality shows por audiência investiram pesadamente em personagens cheios de defeitos e falhas tipicamente humanas. Agora que o espectador padrão se tornou um antropólogo de boteco, o conflito moral passou a ser ao mesmo tempo viável e necessário para manter interesse.
Por outro lado, o Big Brother é um tipo muito peculiar de reality show. Ao contrário dos programas da segunda geração que se focam em pessoas competindo em alguma área específica de trabalho, ou em famílias televisionando seu cotidiano, não existe fio da meada. Ninguém está ali lutando pela superação pessoal e pela excelência em alguma profissão ou carreira. Eles apenas interagem entre si e o público vai eliminando quem não lhe apetece até que sobre apenas um, que leva uma grana pra casa e fim. Tudo o que eles fazem, todo o "jogo" envolvido, é tentar evitar o julgamento pelo maior tempo possível. O resto é brincar de casinha e ser assistido o tempo todo no processo.
Pois bem, a questão é que o público brasileiro não tem tanta vocação assim para a antropologia. Nos moldes do original holandês, o Big Brother brasileiro seria um fracasso retumbante. Nossa cultura televisita é calcada nas telenovelas (que por sua vez vieram das novelas radiofônicas), que são por definição obras palatáveis, de personagens rasos e onde tudo é preto-no-branco. Ou alguém é bonzinho, ou é malvado, e há certos comportamentos recorrentes tipicamente associados a um e outro tipo. Outro país que tem essa cultura (no caso deles, de telesséries, que derivam da indústria cinematográfica nacional) é os Estados Unidos. Lá, Big Brother não cola. Eles favorecem os Realitys em que tudo é pré-gravado, editado e apresentado num formato fácil de digerir. Exibição ao vivo e participação do público lá é limitada e tem como propósito julgar algo muito bem definido (por exemplo, o talento de competidores do American Idol).
No Brasil, por outro lado, o Big Brother virou um produto único e ousado. Sem deixar de ser um programa onde o público assiste a vida dos participantes ao vivo, existe aqui uma edição em tempo real que muitos profissionais achariam impossível fazer. O diretor consegue, apenas com as câmeras (que têm alcance limitado, inclusive) e a mesa de áudio, criar personagens e dar tons de novela a cenas e diálogos que estão se desenrolando espontaneamente. Claro que existem edições tradicionais, exibidas diariamente, e o público sabe muito bem que nessas a produção faz o que quiser (a falta de roteiro e direção é compensada pela quantidade massiva de material). Mas mesmo quem vê ao vivo está assistindo a versão dos fatos da emissora, que é finamente orquestrada e tem objetivos bem específicos. Há uma história sendo contada, e é uma obra conjunta dos participantes-atores e das câmeras-diretoras. E uma história muito intrigante do ponto de vista sociológico.
Então por que eu não consigo gostar do BBB? Uma das coisas que me incomoda é a constante obliteração da quarta parede, através das irritantes interferências do Pedro Bial e das incursões malucas dos personagens ao mundo exterior no meio do programa. Mas a pior violação, a que realmente estraga o programa para mim, deve-se a um participante, um único, que não me desce pela garganta de jeito nenhum. Um participante que não me representa, que não interage com ninguém na casa e mesmo assim tem um poder desproporcional lá dentro. Um participante com uma visão estreita e radical das coisas e com as opiniões mais retrógradas e estapafúrdias, e que, inexplicavelmente, volta para o programa toda temporada, desde a primeira: o público.
Como eu disse antes, não existe um talento ou um esforço específico sendo julgado no BBB. As votações são essencialmente para julgar as personagens - notem, não necessariamente as pessoas que estão lá, porque elas representam o papel que o diretor escolhe para eles baseado numa análise de aptidão. Porém, o público brasileiro está longe de ter uma visão antropológica evoluída. Quem ousa compôr o elenco de um Big Brother estará sendo julgado de acordo com valores de novela das oito. Estará sendo reduzido a uma caricatura, e uma vez encaixado nesse molde, é difícil sair. Vence o BBB quem vira protagonista de novela, e nesse aspecto, qual a vantagem de assistir um reality show quando se pode continuar vendo tramas bem mais elaboradas escritas do início ao fim pelo Manoel Carlos, pela Glória Pérez? Aqueles que, como eu, querem ver pessoas falíveis e normais vivendo romances, amizades e rusgas normais, são forçados a verem semanalmente um membro do elenco sendo "morto" porque não é bonzinho o suficiente para o gosto da massa. E aí, lá se vão os arcos de enredo que eu acompanhava, lá se vai a continuidade, tudo.
Imaginem se seria possível acompanhar uma série em que toda semana morresse um personagem deixando todos os seus plots em aberto. Imaginem, para fins de argumentação, se toda semana o público de Lost mandasse matar o personagem que menos gostasse. "Esse Jack é um idiota, matem-no e reescrevam a história sem ele!" "Kate fez merda essa semana, joguem-na pros tubarões!" Quem teria paciência para ver mais do que uns dias disso? Quantas semanas até termos uma série só com Hurley falando sozinho?
Claro, Lost é uma série roteirizada, diriam alguns, e BBB é realidade e improviso. Mas BBB é um programa de televisão, certo? Ele existe com fins de entretenimento, e nós pagamos Pay-per-View (ou pagamos com vergonha alheia das inserções escabrosas de merchandising) para sermos entretidos. Simplesmente ver gente andar por aí e bater papo o dia todo não é exatamente interessante, então mesmo um Big Brother precisa de conflito, de ritmo, de enredo. E infelizmente, a história que eu quero assistir ali é bloqueada, de novo e de novo, pela frustrante e enervante participação popular.
Por essas e outras que eu continuo gostando mil vezes mais de Amazing Race, e que realmente me apaixonei por Solitários, o reality que estreou no SBT esse ano. A verdade é que realitys com participação e voto popular me broxam. Sou totalmente a favor de observar pessoas comuns vivendo situações incomuns, mas infelizmente no BBB o público não sabe olhar sem meter a mão.
15.6.09
É curioso olhar para trás e pensar em quanta coisa aconteceu no último ano. Há muito tempo já eu vinha tendo aquela sensação de que os anos passavam muito rápido, sem dúvida consequência de uma vida levada em função da espera. O tempo voa quando não se está indo a lugar nenhum. Os últimos 365 dias, no entanto, me pareceram mais longos do que os 1000 que os antecederam. Nem tudo o que aconteceu foi bom - pra falar a verdade, eu diria que foi bem equilibrado entre momentos bons e ruins, entre a glória e o fundo do poço. Assim é a vida nas CNTP, então nenhuma novidade. Mas sem dúvida, muita coisa aconteceu. Ou eu passei a perceber mais os acontecimentos ao meu redor, a me envolver mais, sei lá.
Penso muito sobre meus irmãos, que completam 3 anos de vida daqui a alguns dias. Quando eles nasceram, parecia que estavam crescendo em fast-forward. Mal eu havia piscado, já estavam fazendo 1 ano. Outra piscada, e faziam 2! Isso me deixava angustiado, por achar que estava perdendo a infância dos meninos, morando tão longe. E também me incomodava porque esses 2 anos deviam ter valido tão mais para eles do que para mim. Nas minhas mais antigas memórias, 2 anos de vida pareciam uma eternidade. Especialmente porque normalmente esse era o máximo de tempo que eu passava morando no mesmo lugar, estudando no mesmo colégio, com a mesma turma de amigos. Aprendi que em 2 anos se vivia uma vida, e eu vivi várias.
E no entanto, enquanto planejo uma escapada para ir vê-los agora no terceiro aniversário, fico feliz em perceber que a sensação mudou para "nossa, eles estão fazendo SÓ três anos!" E que o último aniversário deles parece que aconteceu há decadas.
Foram muitas micro-vidas nesses 12 meses. Muitos projetos, muitas realidades diferentes. Lugares novos, rostos novos, rostos antigos que eu nem havia percebido o quanto me faziam falta. Novas direções, novos tropeços, novos pontos de vista que modificaram completamente coisas que eu achava que conhecia muito bem. E se por alguns instantes eu tive receio de estar sendo leviano, sei que é natural da infância - qualquer infância - que os momentos sejam muito intensos e muito efêmeros. E eu aprendi a gostar deles assim. A suposta segurança que a estabilidade traz, aquela que eu almejei durante toda a minha história de mudanças e recomeços, tem um lado sombrio que atualmente não me interessa. Prefiro o demônio que eu conheço.
Muitas dessas revoluções estão acontecendo dentro da minha cabeça, e eu sei melhor do que deixar transparecer. Mas estão lá. E estão sendo devidamente registradas, mesmo as mais passageiras e as mais desagradáveis. Têm o gosto agridoce da familiaridade misturada com a novidade. E o alívio de não precisar mais ser o vencedor que conquistou seus demônios e suas limitações, físicas e químicas, e virou perfeito - um perfeito boçal. Chega de me preocupar em manobrar a vida em direção a um futuro que não sobreviveria ao escrutínio do tempo e da lógica de qualquer forma. A instabilidade não é tão ruim para quem se criou nela, e o carinho com que eu recordo os últimos 12 meses da minha vida me fazem pensar que a vida é melhor aproveitada de momento em momento, sem se preocupar com a continuidade.
Que venha o meu próximo neoaniversário. Tenho fome de viver.
Wind
Penso muito sobre meus irmãos, que completam 3 anos de vida daqui a alguns dias. Quando eles nasceram, parecia que estavam crescendo em fast-forward. Mal eu havia piscado, já estavam fazendo 1 ano. Outra piscada, e faziam 2! Isso me deixava angustiado, por achar que estava perdendo a infância dos meninos, morando tão longe. E também me incomodava porque esses 2 anos deviam ter valido tão mais para eles do que para mim. Nas minhas mais antigas memórias, 2 anos de vida pareciam uma eternidade. Especialmente porque normalmente esse era o máximo de tempo que eu passava morando no mesmo lugar, estudando no mesmo colégio, com a mesma turma de amigos. Aprendi que em 2 anos se vivia uma vida, e eu vivi várias.
E no entanto, enquanto planejo uma escapada para ir vê-los agora no terceiro aniversário, fico feliz em perceber que a sensação mudou para "nossa, eles estão fazendo SÓ três anos!" E que o último aniversário deles parece que aconteceu há decadas.
Foram muitas micro-vidas nesses 12 meses. Muitos projetos, muitas realidades diferentes. Lugares novos, rostos novos, rostos antigos que eu nem havia percebido o quanto me faziam falta. Novas direções, novos tropeços, novos pontos de vista que modificaram completamente coisas que eu achava que conhecia muito bem. E se por alguns instantes eu tive receio de estar sendo leviano, sei que é natural da infância - qualquer infância - que os momentos sejam muito intensos e muito efêmeros. E eu aprendi a gostar deles assim. A suposta segurança que a estabilidade traz, aquela que eu almejei durante toda a minha história de mudanças e recomeços, tem um lado sombrio que atualmente não me interessa. Prefiro o demônio que eu conheço.
Muitas dessas revoluções estão acontecendo dentro da minha cabeça, e eu sei melhor do que deixar transparecer. Mas estão lá. E estão sendo devidamente registradas, mesmo as mais passageiras e as mais desagradáveis. Têm o gosto agridoce da familiaridade misturada com a novidade. E o alívio de não precisar mais ser o vencedor que conquistou seus demônios e suas limitações, físicas e químicas, e virou perfeito - um perfeito boçal. Chega de me preocupar em manobrar a vida em direção a um futuro que não sobreviveria ao escrutínio do tempo e da lógica de qualquer forma. A instabilidade não é tão ruim para quem se criou nela, e o carinho com que eu recordo os últimos 12 meses da minha vida me fazem pensar que a vida é melhor aproveitada de momento em momento, sem se preocupar com a continuidade.
Que venha o meu próximo neoaniversário. Tenho fome de viver.
Wind
16.2.09
Eu só queria dizer que é ok sentir desamparo de vez em quando. Foi assim que você aprendeu a resolver as coisas sozinho, não foi? Encarando os problemas maiores que você porque estava amparado e protegido das consequências de um fracasso, e construindo sua experiência. Natural sentir falta agora que se está encarando desafios maiores e a rede de segurança não dá mais conta de uma queda. Isso é evolução.
Queria dizer que o medo é um dispositivo de segurança e que saber a exata medida entre dar ouvidos a ele e ignorá-lo não é uma ciência simples, ou exata. Ninguém vai te julgar por cometer enganos, exceto as pessoas que julgam por esporte, mas essas são as verdadeiras fracassadas e jamais saberão o que é uma conquista porque se borram de medo de tentar.
E também dizer que não é nenhuma vergonha se sentir solitário numa multidão. A partir de um ponto da vida, cada um escolhe seu caminho e seu ritmo e isso separa, sim, as pessoas. Não é todo mundo que se aprofunda tanto na compreensão da própria alma - menos ainda na dos outros. Isso não faz de ninguém mais ou menos egoísta, mas certamente faz mais ou menos qualificados para fazer companhia ou contribuir edificantemente para seus questionamentos. Milhares de boas intenções podem não gerar uma única ação eficiente, e essa é a vida.
Mas acima de tudo, quero dizer que não é nenhuma fraqueza ou humilhação ter que estar escrevendo isso pra você mesmo. Se é o que você precisa ouvir, e tem que ser na terceira pessoa pra fazer efeito, então estamos apenas sendo pragmáticos. Porque é melhor tomar a iniciativa de resolver do que continuar lamentando as condições externas não-favoráveis, porque só a primeira atitude gera resultados.
E você é um solucionador de problemas. Um dos melhores que eu conheço. Orgulhe-se disso, sempre!
Queria dizer que o medo é um dispositivo de segurança e que saber a exata medida entre dar ouvidos a ele e ignorá-lo não é uma ciência simples, ou exata. Ninguém vai te julgar por cometer enganos, exceto as pessoas que julgam por esporte, mas essas são as verdadeiras fracassadas e jamais saberão o que é uma conquista porque se borram de medo de tentar.
E também dizer que não é nenhuma vergonha se sentir solitário numa multidão. A partir de um ponto da vida, cada um escolhe seu caminho e seu ritmo e isso separa, sim, as pessoas. Não é todo mundo que se aprofunda tanto na compreensão da própria alma - menos ainda na dos outros. Isso não faz de ninguém mais ou menos egoísta, mas certamente faz mais ou menos qualificados para fazer companhia ou contribuir edificantemente para seus questionamentos. Milhares de boas intenções podem não gerar uma única ação eficiente, e essa é a vida.
Mas acima de tudo, quero dizer que não é nenhuma fraqueza ou humilhação ter que estar escrevendo isso pra você mesmo. Se é o que você precisa ouvir, e tem que ser na terceira pessoa pra fazer efeito, então estamos apenas sendo pragmáticos. Porque é melhor tomar a iniciativa de resolver do que continuar lamentando as condições externas não-favoráveis, porque só a primeira atitude gera resultados.
E você é um solucionador de problemas. Um dos melhores que eu conheço. Orgulhe-se disso, sempre!
10.1.09
Se tem uma coisa que me frustra, é ser cada vez mais incapaz de assimilar e racionalizar minha própria vida. Era algo que eu fazia com relativa facilidade ao longo da adolescência (afinal, tinha bem menos vida para analisar, e vários aspectos dela ainda eram desconhecidos), e de fato me orgulhava das minhas autoanálises sempre tão acertadas. Acho que pessoas que não questionam e não avaliam as coisas deixam de subir no bonde da maturidade para vagar a pé e sem rumo pela vida. Mas tanta coisa aconteceu de lá para cá que o próprio volume de dados tem dificultado e ralentado o processo. E eu, como todo bom TDAH, abomino processos lentos.
Depois das grandes mudanças do ano passado, eu tive que botar para funcionar músculos analíticos que há muito estavam adormecidos ou funcionando no automático, terceirizados. Cheguei a alguns pontos importantes que, teoricamente, me revolucionaram o pensamento e me fizeram entrar num novo estágio de maturidade. Mas não raro eu me pego conjecturando se na verdade não involuí mais ainda, se não voltei a ser um adolescente despreparado dando murro em ponta de faca para aprender que corta.
Acho que é uma consequência natural do reaprendizado, ter que revisitar fases da construção do caráter que já havíamos superado. Algo como fazer um novo vestibular depois de formado. É sempre tudo tão diferente, e, ao mesmo tempo, tão estranhamente igual. Até a sensação de nostalgia e deslocamento está lá. E o desespero eventual de achar que já estive ali antes e que não estou de forma alguma andando para a frente.
É como o que acontece comigo quando eu passo algum tempo sem nadar. A maior dificuldade de retomar natação depois de um intervalo grande (festas de fim-de-ano, férias, etc.) não é a condição física ou a resistência. É a apnéia. Toda vez, é um esforço para convencer meu cérebro que meu pulmão tem oxigênio suficiente e que eu não estou morrendo e não preciso iniciar movimentos espasmódicos de sobrevivência. Não costumo levar mais do que duas ou três chegadas para bloquear o instinto, mas são momentos intensos em que a razão batalha com o inconsciente, e sempre enfrentando a real possibilidade de perder.
Alguns aspectos da minha vida atualmente são como uma longa submersão. E eu tenho plena consciência de que fui eu que escolhi dar o mergulho, movido por vários sentimentos, e dentre eles, obviamente, a necessidade de me testar e de vencer a desorientação e a falta de sentido que a depressão do ano passado me deixaram como aftertaste. Mas toda e qualquer segurança que eu demonstro vem unicamente da certeza que: 1) eu já fiquei submerso no turbilhão por mais tempo antes e sobrevivi; e 2) apesar do meu subconsciente não acreditar, existem benefícios a serem colhidos por viver mais essa provação.
Infelizmente, isso não impede o subconsciente de me fazer passar por um terror sobrepujante, e de me perguntar às vezes se isso tudo vai mesmo acabar bem, se eu não cometi algum erro monstruoso de cálculo que vai por tudo a perder. E as consequências de um erro a essa altura do campeonato seriam mais do que eu sou capaz de aguentar, porque por mais controladas que sejam as condições, o meio onde me desloco é potencialmente fatal.
Wind
Depois das grandes mudanças do ano passado, eu tive que botar para funcionar músculos analíticos que há muito estavam adormecidos ou funcionando no automático, terceirizados. Cheguei a alguns pontos importantes que, teoricamente, me revolucionaram o pensamento e me fizeram entrar num novo estágio de maturidade. Mas não raro eu me pego conjecturando se na verdade não involuí mais ainda, se não voltei a ser um adolescente despreparado dando murro em ponta de faca para aprender que corta.
Acho que é uma consequência natural do reaprendizado, ter que revisitar fases da construção do caráter que já havíamos superado. Algo como fazer um novo vestibular depois de formado. É sempre tudo tão diferente, e, ao mesmo tempo, tão estranhamente igual. Até a sensação de nostalgia e deslocamento está lá. E o desespero eventual de achar que já estive ali antes e que não estou de forma alguma andando para a frente.
É como o que acontece comigo quando eu passo algum tempo sem nadar. A maior dificuldade de retomar natação depois de um intervalo grande (festas de fim-de-ano, férias, etc.) não é a condição física ou a resistência. É a apnéia. Toda vez, é um esforço para convencer meu cérebro que meu pulmão tem oxigênio suficiente e que eu não estou morrendo e não preciso iniciar movimentos espasmódicos de sobrevivência. Não costumo levar mais do que duas ou três chegadas para bloquear o instinto, mas são momentos intensos em que a razão batalha com o inconsciente, e sempre enfrentando a real possibilidade de perder.
Alguns aspectos da minha vida atualmente são como uma longa submersão. E eu tenho plena consciência de que fui eu que escolhi dar o mergulho, movido por vários sentimentos, e dentre eles, obviamente, a necessidade de me testar e de vencer a desorientação e a falta de sentido que a depressão do ano passado me deixaram como aftertaste. Mas toda e qualquer segurança que eu demonstro vem unicamente da certeza que: 1) eu já fiquei submerso no turbilhão por mais tempo antes e sobrevivi; e 2) apesar do meu subconsciente não acreditar, existem benefícios a serem colhidos por viver mais essa provação.
Infelizmente, isso não impede o subconsciente de me fazer passar por um terror sobrepujante, e de me perguntar às vezes se isso tudo vai mesmo acabar bem, se eu não cometi algum erro monstruoso de cálculo que vai por tudo a perder. E as consequências de um erro a essa altura do campeonato seriam mais do que eu sou capaz de aguentar, porque por mais controladas que sejam as condições, o meio onde me desloco é potencialmente fatal.
Wind
31.12.08
Carta a 2009
Olá. Ainda não nos conhecemos, muito prazer. Sou o Rafael. Estaremos juntos pelos próximos 365 dias, e eu queria dizer umas coisas antes de começarmos.
Sei que você mal chegou. Em vários pontos do planeta, você ainda é futuro. Mas garanto que, ao menos por mim, você é muito aguardado, desde sempre. Não digo isso para comprar simpatia, mas unica e exclusivamente para dizer que seu antecessor, 2008, não vai deixar quaisquer saudades. De fato, talvez seja lembrado por décadas e décadas com certa amargura de minha parte, como um amigo que apunhala você pelas costas.
Antes de 2008 chegar, o ano de 2007 tinha sido um ano de construções. Um ano de muito trabalho, muita ralação, e de muitas conquistas. Um ano inteiro que dediquei a criar uma nova realidade, mais confortável, mais nobre, mais próxima do meu futuro ideal. 2008 foi muito aguardado, tanto quanto você é agora. Nos primeiros meses, tudo foi fantástico. Era um ano que tinha tudo para ser o primeiro do resto de minha vida, uma vida de realizações das promessas que 2007 me fez.
Mas hoje, olhando para trás, eu sei que 2008 não estava realmente me amando como eu o amava. Na verdade, hoje eu sei que 2008 me odiava irracionalmente e que tudo o que fez por mim foi uma farsa. O ano nunca quis me favorecer, e eu devia ter desconfiado quando começou a me dar porradas na cara do nada e depois fingir que nada havia acontecido. Mas eu não desconfiei. Eu confio muito nos anos, sabe? É essa mania de acreditar que eles são apenas um ciclo de translação ao redor do sol, apenas um conjunto de 365 dias (366 no caso de 2008) que não diferem em nada dos anteriores ou posteriores exceto por uma convenção social.
Mas o fato é que 2008 revelou sua cara muito cedo, e com um golpe quase mortal, destruiu tudo que 2007 havia construído. Não só 2007, como praticamente tudo que eu havia aprendido com 2003 em diante, e até algumas coisas mais antigas. Massacrados pelo ano traiçoeiro que não acreditava nos meus sonhos. Desse momento pra cá, eu e 2008 tivemos uma relação forçada, pois ocupávamos o mesmo lugar no universo, mas eu obviamente não queria nada com ele e nem ele queria nada comigo. Uma situação que me é inclusive familiar, e talvez por isso eu tenha conseguido juntar forças para esperar a partida dele. Mas não foi fácil. Nosso rompimento aguou todas as outras coisas que ele posteriormente me ofereceu, talvez por cinismo, talvez por pena. Chegamos a rir juntos em alguns momentos, mas eram risadas amarelas. Lá no fundo, eu simplesmente não queria mais ter nada a ver com 2008, nem ele comigo.
E é nesse pé em que você me encontra, jovem ano de 2009. Aliviado por ter sobrevivido a meu algoz, e ansioso, embora cauteloso, para saber como nos daremos.
Tomei o cuidado de não criar expectativas para você. Aceito-o como você chegar. Esse ano, não farei resoluções, nem planos, nem pedirei nada a Iemanjá, nem passarei com roupas coloridas. Não me iludo mais, vocês anos são melindrosos e têm idéias próprias do que farão conosco. Mas minha reticência não é de forma alguma uma predisposição negativa. Por mim, seremos muito amigos, os melhores da história, e teremos muita coisa boa para contar para nossos descendentes. Mas se não for tão bom assim, não ficarei triste. Sei que você não será pra sempre também, e estou ok com isso. Quando 2010 vier, me entenderei com ele, tenho certeza.
Se me permite pedir algo, uma única coisa, só peço que me trate com respeito. Sou paciente, tolerante, não sou mais criança (se tem algo que devo a 2008, foi um enorme amadurecimento), e tenho os pés no chão. Mas não sou invencível, e se você quiser me massacrar como 2008 fez, ou tentar ser pior, não sei como será. Só uma certeza eu tenho, que na sua despedida, no próximo Reveillon, estarei aqui ainda para acertar a conta e passar a régua.
O que acontece entre hoje e lá, fica por sua conta.
Não me decepcione!
Rafael
Olá. Ainda não nos conhecemos, muito prazer. Sou o Rafael. Estaremos juntos pelos próximos 365 dias, e eu queria dizer umas coisas antes de começarmos.
Sei que você mal chegou. Em vários pontos do planeta, você ainda é futuro. Mas garanto que, ao menos por mim, você é muito aguardado, desde sempre. Não digo isso para comprar simpatia, mas unica e exclusivamente para dizer que seu antecessor, 2008, não vai deixar quaisquer saudades. De fato, talvez seja lembrado por décadas e décadas com certa amargura de minha parte, como um amigo que apunhala você pelas costas.
Antes de 2008 chegar, o ano de 2007 tinha sido um ano de construções. Um ano de muito trabalho, muita ralação, e de muitas conquistas. Um ano inteiro que dediquei a criar uma nova realidade, mais confortável, mais nobre, mais próxima do meu futuro ideal. 2008 foi muito aguardado, tanto quanto você é agora. Nos primeiros meses, tudo foi fantástico. Era um ano que tinha tudo para ser o primeiro do resto de minha vida, uma vida de realizações das promessas que 2007 me fez.
Mas hoje, olhando para trás, eu sei que 2008 não estava realmente me amando como eu o amava. Na verdade, hoje eu sei que 2008 me odiava irracionalmente e que tudo o que fez por mim foi uma farsa. O ano nunca quis me favorecer, e eu devia ter desconfiado quando começou a me dar porradas na cara do nada e depois fingir que nada havia acontecido. Mas eu não desconfiei. Eu confio muito nos anos, sabe? É essa mania de acreditar que eles são apenas um ciclo de translação ao redor do sol, apenas um conjunto de 365 dias (366 no caso de 2008) que não diferem em nada dos anteriores ou posteriores exceto por uma convenção social.
Mas o fato é que 2008 revelou sua cara muito cedo, e com um golpe quase mortal, destruiu tudo que 2007 havia construído. Não só 2007, como praticamente tudo que eu havia aprendido com 2003 em diante, e até algumas coisas mais antigas. Massacrados pelo ano traiçoeiro que não acreditava nos meus sonhos. Desse momento pra cá, eu e 2008 tivemos uma relação forçada, pois ocupávamos o mesmo lugar no universo, mas eu obviamente não queria nada com ele e nem ele queria nada comigo. Uma situação que me é inclusive familiar, e talvez por isso eu tenha conseguido juntar forças para esperar a partida dele. Mas não foi fácil. Nosso rompimento aguou todas as outras coisas que ele posteriormente me ofereceu, talvez por cinismo, talvez por pena. Chegamos a rir juntos em alguns momentos, mas eram risadas amarelas. Lá no fundo, eu simplesmente não queria mais ter nada a ver com 2008, nem ele comigo.
E é nesse pé em que você me encontra, jovem ano de 2009. Aliviado por ter sobrevivido a meu algoz, e ansioso, embora cauteloso, para saber como nos daremos.
Tomei o cuidado de não criar expectativas para você. Aceito-o como você chegar. Esse ano, não farei resoluções, nem planos, nem pedirei nada a Iemanjá, nem passarei com roupas coloridas. Não me iludo mais, vocês anos são melindrosos e têm idéias próprias do que farão conosco. Mas minha reticência não é de forma alguma uma predisposição negativa. Por mim, seremos muito amigos, os melhores da história, e teremos muita coisa boa para contar para nossos descendentes. Mas se não for tão bom assim, não ficarei triste. Sei que você não será pra sempre também, e estou ok com isso. Quando 2010 vier, me entenderei com ele, tenho certeza.
Se me permite pedir algo, uma única coisa, só peço que me trate com respeito. Sou paciente, tolerante, não sou mais criança (se tem algo que devo a 2008, foi um enorme amadurecimento), e tenho os pés no chão. Mas não sou invencível, e se você quiser me massacrar como 2008 fez, ou tentar ser pior, não sei como será. Só uma certeza eu tenho, que na sua despedida, no próximo Reveillon, estarei aqui ainda para acertar a conta e passar a régua.
O que acontece entre hoje e lá, fica por sua conta.
Não me decepcione!
Rafael
27.12.08
Enquanto escrevo esse post, estou sentado em uma confortável pedra em formato de sofá, no meio do pasto do sítio dos meus avós, lutando para enxergar algo no monitor apesar do sol ofuscante. Tentei escrevê-lo ontem à noite, mas infelizmente, a despeito dos avanços tecnológicos da última década, sinal de celular (e, consequentemente, internet móvel) aqui só existe do lado de fora da casa, e na curta trégua que a chuva deu ontem, um incidente com uma aranha armadeira que resolveu veriricar de onde vinha tanto brilho e pulou no meu monitor abortaram precocemente meu projeto de blogada. Pelo menos agora está seco e o brilho do monitor, que quase não é suficiente para furar o antireflexo, não vai atrair nenhum aracnídeo peçonhento curioso.
É justo questionar o que de tão importante eu teria para escrever que me fizesse enfrentar a natureza em busca de um resquíscio de modernidade, tão malvisto nestes recantos bucólicos do planeta. O que me motivou foi justamente o lugar. O sítio dos meus avós, Santana do Serrano, carinhosamente conhecido como Bauzinho pela família Savastano. Bauzinho porque ele tem uma vista privilegiada da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí. Meus avós compraram esse lugar quando eu ainda tinha uns 6 anos de idade. Permutaram pela casa aonde meu pai e alguns dos tios nasceram, e aonde nós (eu e minhas irmãs, uma das quais recém-nascida) tínhamos brevemente residido antes de irmos para o Rio em 86. Desde que consigo me lembrar, o Baú tem sido palco das festas mais divertidas da família, e das viagens mais memoráveis. E sempre que eu piso aqui eu me pergunto por que diabos eu tenho vindo cada vez menos para cá.
Por um lado, tem a ver com o inevitável crescimento da família. Sou o neto mais velho e sempre tive uma exclusividade limitada de direitos na casa da minha avó. Também fui o responsável por desbravar vários caminhos não trilhados, o que evidentemente sempre facilitou a vida dos meus primos e irmãos mais novos. É uma troca justa, mais privilégios e mais responsabilidades. Mas hoje em dia quase todos os 24 (com mais um a caminho!) netos de D. Ângela são maiores de idade, vacinados, e com seus róprios planos para feriados prolongados. Por consequência, graças a uma política social velada, o sítio acabou sendo "herdado" pela segunda geração de netos. E o fato de nunca conseguir uma data que já não estivesse ocupada pelos jovens em questão me fez desencanar um pouco de vir para cá ou trazer amigos (até porque, conseguir agendar outra data importante como o Reveillon de 99 só para mim e para amigos meus provavelmente nunca acontecerá)
Mas por outro lado, não consigo deixar de sentir que parte da culpa é minha. Eu nunca encontrei um lugar para o sítio na minha autoproclamada "vida adulta." E aqui no meio do nada, com vento no rosto e ouvindo a algazarra dos pássaros, eu começo a desconfiar que o que eu fiz foi bloquear uma parte de mim que sempre pertenceu a esse lugar. Porque essa é a parte infantil que vê qualquer buraco no mato como um convite à exploração, um portal para uma aventura fantástica; que associa cada barulho a um ser folclórico ou mitológico, um fantasma ou um alienígena furtivo; que deita na grama para olhar as estrelas e sente que a qualquer momento a gravidade pode se inverter e eu posso cair no vazio imenso.
Tem muitos sonhos inacabados perdidos entre as árvores do quintal e entre as pedras do riozinho. Grandes sagas que eu levava comigo e que continuavam de onde tinham parado sempre que eu botava os pés aqui de novo. Grandes certezas, como a de que eu estava cada vez mais próximo de conseguir levitar ou virar um peixe e respirar embaixo d'água (só precisava ser um pouco mais velho). Grandes amores platônicos da infância e da adolescência que viravam fantasias românticas bestas que sempre - sempre - aconteciam aqui. Nenhum deles teve desfecho, porque ficaram aqui esperando meu retorno, e eu não voltei mais. Até continuei aparecendo, eventualmente, mas sempre como um estranho, como um convidado na minha própria casa.
Não sei por que diabos eu decidi, consciente ou inconscientemente, que não iria mais revisitar meus sonhos. Mas uma coisa é certa. Aquele Rafael pequeno e delirante era muito mais corajoso do que eu. Os espinhos na mão, ralados no joelho, carrapatos na virilha, eram todos parte da diversão. Eram as dificuldades que potencializavam a vitória. Cada vez que eu saía da estrada e inventava uma trilha, eu tinha certeza que ia ficar ardido e incomodado por semanas com as escoriações, mas o impulso era irresistível. Tão diferente do que eu sou hoje!
Para variar, eu não me permiti ficar aqui muito tempo. Mal cheguei e já vou embora. Podia ficar mais, podia voltar para passar o ano novo, mas não ia adiantar muita coisa. Saber da minha dificuldade de conexão com o Baú não ajuda em nada a superá-la, infelizmente. Mas ao menos eu posso tentar levar para casa, no mínimo, esse post. E meditar sobre a lembrança de uma época em que, ao invés de desistir antecipadamente de tudo que requira esforço ou que vá causar dor, eu pulava de cabeça só pela emoção de superar.
É justo questionar o que de tão importante eu teria para escrever que me fizesse enfrentar a natureza em busca de um resquíscio de modernidade, tão malvisto nestes recantos bucólicos do planeta. O que me motivou foi justamente o lugar. O sítio dos meus avós, Santana do Serrano, carinhosamente conhecido como Bauzinho pela família Savastano. Bauzinho porque ele tem uma vista privilegiada da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí. Meus avós compraram esse lugar quando eu ainda tinha uns 6 anos de idade. Permutaram pela casa aonde meu pai e alguns dos tios nasceram, e aonde nós (eu e minhas irmãs, uma das quais recém-nascida) tínhamos brevemente residido antes de irmos para o Rio em 86. Desde que consigo me lembrar, o Baú tem sido palco das festas mais divertidas da família, e das viagens mais memoráveis. E sempre que eu piso aqui eu me pergunto por que diabos eu tenho vindo cada vez menos para cá.
Por um lado, tem a ver com o inevitável crescimento da família. Sou o neto mais velho e sempre tive uma exclusividade limitada de direitos na casa da minha avó. Também fui o responsável por desbravar vários caminhos não trilhados, o que evidentemente sempre facilitou a vida dos meus primos e irmãos mais novos. É uma troca justa, mais privilégios e mais responsabilidades. Mas hoje em dia quase todos os 24 (com mais um a caminho!) netos de D. Ângela são maiores de idade, vacinados, e com seus róprios planos para feriados prolongados. Por consequência, graças a uma política social velada, o sítio acabou sendo "herdado" pela segunda geração de netos. E o fato de nunca conseguir uma data que já não estivesse ocupada pelos jovens em questão me fez desencanar um pouco de vir para cá ou trazer amigos (até porque, conseguir agendar outra data importante como o Reveillon de 99 só para mim e para amigos meus provavelmente nunca acontecerá)
Mas por outro lado, não consigo deixar de sentir que parte da culpa é minha. Eu nunca encontrei um lugar para o sítio na minha autoproclamada "vida adulta." E aqui no meio do nada, com vento no rosto e ouvindo a algazarra dos pássaros, eu começo a desconfiar que o que eu fiz foi bloquear uma parte de mim que sempre pertenceu a esse lugar. Porque essa é a parte infantil que vê qualquer buraco no mato como um convite à exploração, um portal para uma aventura fantástica; que associa cada barulho a um ser folclórico ou mitológico, um fantasma ou um alienígena furtivo; que deita na grama para olhar as estrelas e sente que a qualquer momento a gravidade pode se inverter e eu posso cair no vazio imenso.
Tem muitos sonhos inacabados perdidos entre as árvores do quintal e entre as pedras do riozinho. Grandes sagas que eu levava comigo e que continuavam de onde tinham parado sempre que eu botava os pés aqui de novo. Grandes certezas, como a de que eu estava cada vez mais próximo de conseguir levitar ou virar um peixe e respirar embaixo d'água (só precisava ser um pouco mais velho). Grandes amores platônicos da infância e da adolescência que viravam fantasias românticas bestas que sempre - sempre - aconteciam aqui. Nenhum deles teve desfecho, porque ficaram aqui esperando meu retorno, e eu não voltei mais. Até continuei aparecendo, eventualmente, mas sempre como um estranho, como um convidado na minha própria casa.
Não sei por que diabos eu decidi, consciente ou inconscientemente, que não iria mais revisitar meus sonhos. Mas uma coisa é certa. Aquele Rafael pequeno e delirante era muito mais corajoso do que eu. Os espinhos na mão, ralados no joelho, carrapatos na virilha, eram todos parte da diversão. Eram as dificuldades que potencializavam a vitória. Cada vez que eu saía da estrada e inventava uma trilha, eu tinha certeza que ia ficar ardido e incomodado por semanas com as escoriações, mas o impulso era irresistível. Tão diferente do que eu sou hoje!
Para variar, eu não me permiti ficar aqui muito tempo. Mal cheguei e já vou embora. Podia ficar mais, podia voltar para passar o ano novo, mas não ia adiantar muita coisa. Saber da minha dificuldade de conexão com o Baú não ajuda em nada a superá-la, infelizmente. Mas ao menos eu posso tentar levar para casa, no mínimo, esse post. E meditar sobre a lembrança de uma época em que, ao invés de desistir antecipadamente de tudo que requira esforço ou que vá causar dor, eu pulava de cabeça só pela emoção de superar.
21.10.08
Mudar não é fácil. Não é a simples e imediata consequência da vontade. Mudar é um rito de passagem, como o nascimento ou a morte. Acontece de uma vez, mas é cercado de consequências e ecos que se propagam por algum tempo.
Mudar também é uma sensação esquisita. Especialmente quando significa abrir mão de coisas que sempre foram tão importantes, fazer concessões e abandonar metas impossíveis em favor das viáveis. Hoje me tornei viável, e isso é muito reconfortante, apesar de me sentir um pouco estranho. Preciso entender que não "amoleci," nem perdi nada de ultra valioso. Que certas posições radicais ou dão resultado cedo, ou nunca mais. E que se eu não alcancei alguns objetivos na vida ainda, é melhor desistir de tentar, sob pena de perder muito mais tempo caçando moinhos de vento.
É ruim também ter que escolher o que levar e o que deixar para trás, mas como não posso levar tudo, tenho que ao menos conseguir levar algo, ou vou ficar para sempre amarrado aos meus destroços, muito grandes para carregar comigo, e muito importantes para serem abandonados. Hoje foi um dia de escolhas, dessas que ninguém deveria ter que fazer. Mas eu fiz. E estou tentando muito me sentir feliz pelo que mantive, e não arrasado pelo que perdi.
Wind
Mudar também é uma sensação esquisita. Especialmente quando significa abrir mão de coisas que sempre foram tão importantes, fazer concessões e abandonar metas impossíveis em favor das viáveis. Hoje me tornei viável, e isso é muito reconfortante, apesar de me sentir um pouco estranho. Preciso entender que não "amoleci," nem perdi nada de ultra valioso. Que certas posições radicais ou dão resultado cedo, ou nunca mais. E que se eu não alcancei alguns objetivos na vida ainda, é melhor desistir de tentar, sob pena de perder muito mais tempo caçando moinhos de vento.
É ruim também ter que escolher o que levar e o que deixar para trás, mas como não posso levar tudo, tenho que ao menos conseguir levar algo, ou vou ficar para sempre amarrado aos meus destroços, muito grandes para carregar comigo, e muito importantes para serem abandonados. Hoje foi um dia de escolhas, dessas que ninguém deveria ter que fazer. Mas eu fiz. E estou tentando muito me sentir feliz pelo que mantive, e não arrasado pelo que perdi.
Wind
Assinar:
Postagens (Atom)
