Mostrando postagens com marcador nostalgia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nostalgia. Mostrar todas as postagens

22.2.12

Epifânia acidental


31 anos nesse mundo, aparentemente, ainda não foram suficientes para aprender a driblar alguns caprichos do meu organismo. Não, não me refiro a qualquer tipo de malfuncionamento intestinal, relaxem. Falo da minha espécie pessoal e bastante peculiar de insônia. O carnaval desse ano coincidiu com o fim das minhas férias e também o fim de uma era aqui em casa, já que a partir da quinta-feira os meninos começam a freqüentar a escolinha, e a preparação espiritual e química (e lícita, antes que alguém pergunte) para essa mudança iminente fez com que eu dormisse muito pouco nos últimos 3 dias, coisa de 7 horas ao todo (um sono de 3h e outro de 4) entrecortando outras 65 acordado. Hoje, véspera da quarta-feira de cinzas, a idéia era estar tão moído que adormeceria à meia-noite e ajustaria pois os horários.

Heh. Claro que, a despeito do total comprometimento com o plano, de ter deitado na hora programada, no quarto escuro e silencioso, de ter confirmado a existência do sono (diversas viagens de ônibus ao longo da adolescência e vida adulta me levaram a desenvolver uma forma de perceber se estava ou não a ponto de adormecer, mesmo quando não havia manifestação física – bocejos, olhos pesados - de sono. Basicamente, eu fecho os olhos e conto quantas imagens aleatórias surgem na minha cabeça, e com que freqüência. Quanto mais nítida e menos coerente a minha torrente de pensamentos estiver, mais perto de dormir eu estou. Isso era crucial para decidir a hora de interromper a leitura ou guardar o discman antes de capotar e sem ter que ficar entediado por muito tempo até finalmente embarcar de vez), o planejamento foi um fracasso retumbante. Cheguei a sentir o relaxamento muscular que precede o apagar da consciência, mas, olhai e regozijai-vos, o sono me evadiu completamente de uma hora pra outra (provavelmente com uma gargalhada maligna) e cá estou eu.

Na vã tentativa de implorar pela volta desse sono que me deixa só, liguei a caixinha de som de cabeceira, selecionei alguns discos só de piano, boa parte dos quais são meus chama-sono desde aquela época das viagens de 17h num Itapemirim sacolejante, e fechei os olhos. Resultado? A insônia agora havia virado uma súbita inspiração para escrever. Bom trabalho, cérebro!

E é por isso que estou aqui, com o notebook apoiado na barriga, passando calor, e escrevendo a atualização trienal do blog para falar por parágrafos sem fim sobre... ouvir música num quarto escuro.

Eu sempre tive uma relação especial com as artes, em especial com música. Pode-se argumentar que a música, por suas características, é uma forma de arte que evoca reconhecimento independente da vontade do interlocutor (e acreditem quando digo que há uns bons anos existe um rascunho de texto sobre o assunto circulando pelos meus axônios só esperando uma luz verde neuronal para ser devidamente produzido) , mas não seria correto afirmar que todo mundo tem o mesmo envolvimento com música. A música é a linguagem universal, mas cada um tem seu próprio nível de compreensão de discurso. Da mesma forma que duas pessoas que sabem perfeitamente falar português podem entender ou não entender o mesmo texto, digamos, um livro do Stephen Hawking – duas pessoas que “falam” música (e para tanto basta ter alma) podem extrair da mesma harmonia um intrincado enredo ou apenas algumas sílabas monótonas. Poderia ir bem mais longe nessa linha de argumentação, e pretendo, mas em outro texto. O foco de hoje é outro, e só evoquei essa introdução para explicar que não estou sendo pedante ou redundante ao estabelecer minha relação com a música como algo extra-ordinário.

Como de praxe na minha vida atualmente, resolvi analisar essa reflexão errática que brotou na minha cabeça quando eu deveria estar roncando e lapidá-la em alguma lição que eu possa passar para meus filhos. E sempre que eu me proponho a fazer isso eu acabo embarcando numa das minhas boas (?) e velhas viagens de autoanálise, dignas dos primeiros anos desse blog, só que agora com uma causa nobre e um tanto a mais de objetividade (ou não, vejam quantas linhas já escrevi e ainda nem terminei o abstrato). E a primeira coisa que eu notei é que essa situação, de estar no escuro, ouvindo uma música de olhos fechados, me transporta imediatamente a vários momentos da minha infância e juventude em que eu fazia exatamente isso. Em vários pontos da vida, em várias situações, em vários estados evolutivos, essa atividade esteve presente, e eu nunca tinha pensado sobre isso.

Também fui perceber que todas as memórias dessa situação, TODAS, são boas lembranças. Mesmo quando, na hora, eu estava mal (e não foram poucas as vezes em que eu estava, de fato, péssimo), a lembrança é acolhedora. E outra coisa que me espantou foi constatar que, todas as vezes que eu fiz isso, eu atingia o ápice da minha introspecção. Nas lembranças, sempre estou total e verdadeiramente sozinho. E, francamente, eu nunca fui um grande fã de ficar sozinho. Sempre soube da importância da auto-suficiência, sempre prezei a liberdade acima de qualquer coisa, mas a verdade é que não via nenhum apelo no isolamento ou na solidão. Ou achava que não via. Em retrospecto, alguns dos momentos mais marcantes e mais saudosos da minha criação era momentos de absoluta e voluntária individualidade.

E de repente eu estava tentando entender por que eu tinha tido uma memória ativada pela simples (e, na minha cabeça, corriqueira) atitude de botar uma música para tocar enquanto tentava limpar a mente, e quando exatamente isso passou a ser tão raro na minha vida que a mais recente lembrança trazida de volta por aquela caixinha de som era de muitos anos atrás. E acho que sei a resposta.

Eu fui um adolescente muito tímido, e como é basicamente na adolescência que temos nossa primeira revisão de identidade (que é, para todos os efeitos, a única aos olhos do próprio adolescente), timidez virou uma das minhas características definidoras por muito tempo, o que hoje em dia eu sei que era uma besteira sem tamanho, porque até meus 10, 11 anos eu era um moleque espivetado cheio de amigos e absolutamente amava qualquer tipo de atenção. Pois bem, a adolescência passou, a timidez também “passou” (graças às aulas de teatro, pensava eu) e ficou por isso mesmo, eu era agora um ex-tímido convertido em ser social através de prática e treino. Mas minhas atividades intimistas – passar horas mergulhado em livros, jogando RPGs de videogame com 2 mil horas de enredo, ou no escuro ouvindo Beethoven e John Williams – eram também parte da minha identidade e sempre seriam.

E, no entanto, faz tempo que não consigo parar para ler mais do que 2 páginas de qualquer livro, não jogo RPG e provavelmente nem falo mais sobre há mais de 8 anos e ouvir música pra mim virou atividade exclusiva de deslocamentos de carro, sempre como pano de fundo para o trânsito. O que diabos aconteceu? Porque também não é como se não tivesse NENHUM tempo sobrando na vida pra um pouco de lazer, é só que de alguma forma eu sempre acabo optando por...

Oh-oh.

Acontece que lá por 1996 eu ganhei um computador do meu pai, que na época morava no Maranhão (e eu em Santa Catarina) e com quem eu estava perigosamente perto de perder completamente o contato. A solução que ele encontrou foi financiar em trocentas vezes um par de IBM Aptivas para que nós driblássemos os custos proibitivos de interurbano com a tal da Internet. E, como bônus, eu ainda tinha acesso a uma fonte virtualmente infinita de páginas da World Wide Web (que devia caber inteira no meu atual HD de 1 Terabyte). Era o paraíso de um adolescente introspectivo que adorava ler. Textos, textos everywhere! Como naquela época se navegava com incríveis modems 2.400bps (isso são BITS POR SEGUNDO, crianças. Sua banda larga atualmente, se vc for MUITO mão de vaca, opera no mínimo a 524.288bps e você ainda xinga porque leva 15 minutos pra carregar a home do UOL) que ocupavam a única linha telefônica da casa (a única mesmo, pq ninguém tinha celular) e cobravam 10 cenavos a cada 4 minutos a título de pulso, exceto entre 0h e 6h, entrar na internet durante o dia era fora de questão. E eu não podia ficar acordado depois da meia-noite pra acessar porque estudava de manhã, então eu desenvolvi o hábito de levantar 1h e meia antes do horário de me arrumar pro colégio, às CINCO E MEIA da matina, só para surfar a web. Em 1996, isso provavelmente era justificativa legal válida para minha internação, mas eu não estava nem aí, passava horas no Webcrawler (e, depois, no AltaVista; Google é coisa de piá de prédio criado a leite com pêra) caçando páginas legais para ler. A internet era tão pequena naquela época que o Yahoo! tinha a opção de listar as páginas por assunto. Não é piada.

Enfim, tudo estava se encaminhando perfeitamente, até que eu resolvi me inscrever numa lista de e-mail (isso foi antes de inventarem fóruns em PHP, e provavelmente antes de inventarem o PHP) sobre RPG, que era um grande interesse meu na época, mas que era um hobby pouco difundido e especialmente obscuro numa cidade como Florianópolis. Minha idéia era apenas buscar gente pra trocar figurinhas sobre aquele assunto em específico, mas a lista era bem mais movimentada do que eu esperava, e era muito interativa. E quase todos os assinantes se conheciam pessoalmente e tinham várias histórias para contar, muitas nem relacionadas com RPG. E um dia alguém me avisou que essa galera estava se comunicando em tempo real através do IRC, e eu resolvi ver qual era, e daí foi ladeira abaixo.

Essa época da minha vida foi a que eu considerei, por muito tempo, o desabrochar da minha socialidade. Mas na verdade era só um reencontro com minha natureza social que há anos estava reprimida. Em um ano eu já havia me decidido a sair de Floripa e ir morar no Rio, aonde a maior parte daquela turma vivia, e aonde eu já havia morado há muitos anos, mas que revisitei graças àquela turma e voltei para casa atordoado com o quanto a cidade era sociável, como todo mundo se tratava como se já se conhecesse, como eu havia sido acolhido e bem tratado por gente que acabara de me conhecer, com a quantidade de vida que existia aqui. Em dois anos, já tinha até arrumado a desculpa para vir – estudar música na UFRJ, plano que se adaptou rapidamente para estudar música na Villa-Lobos quando eu falhei espetacularmente na prova de habilidade específica do vestibular. O importante era ficar. No meu primeiro ano morando aqui, eu não parava em casa. Sempre tinha uma reunião, uma festa, um encontro da galera. Passar um fim-de-semana sequer sem sair de casa me dava a sensação de ser enterrado vivo.

Mas ei, eu ainda tinha bastante tempo para dedicar a mim mesmo, aos livros, à música, ao ócio criativo. Morava sozinho e estava realmente curtindo toda aquela coisa de aprender a gerenciar uma casa, uma economia doméstica, etc. Fora que eu estudava piano, então tempo sozinho com uma música nunca me faltava.

Só que nessa época eu também já pagava minha conta telefônica, e também fazia meus horários, e o ritual de toda santa meia-noite me conectar no IRC e ficar jogando conversa fora era sagrado. Fins de semana, que tinham pulso livre, nem se fala. E não tardou a surgirem os provedores de internet discada que não cobravam pulso, e aí, podia muito bem ter jogado fora o aparelho telefônico da minha casa, porque a linha era do computador e de mais ninguém. Quem quisesse falar comigo que me mandasse um e-mail, ou me achasse no IRC, ou no meu ICQ, que vivia bombando, por sinal. Mais ou menos nessa época, ler qualquer coisa em papel começou a ficar relegado a trajetos de ônibus e metrô, mas o resto continuava firme e forte. Eu estudava, lia, ouvia músicas, escrevia, compunha. Foi uma época de ouro pra mim, para ser melhor só se eu tivesse qualquer tipo de sustentabilidade econômica ou responsabilidade com meus estudos, mas isso é detalhe. Estava vivendo o sonho colorido de qualquer artista.

Mas aí o calo apertou, a mesada encurtou, a matrícula jubilou e eu tive que me endireitar. O tempo pra mim já não era mais tão ilimitado, mas ainda estava lá, e eu ainda conseguia conciliar isso com a interação diária com vários amigos daqui ou do outro lado do mundo, que sempre estavam ali pra puxar uma conversa. Aí eventualmente vieram as tais das redes sociais, fotolog (heh), Orkut, e de repente eu conhecia um monte de gente (olha, mãe, mais de 100 amigos!) e tinha um monte de assuntos diferentes para debater, convenientemente divididos em comunidades, e sempre tinha gente fazendo chat coletivo no MSN, e às vezes eu conseguia ouvir música enquanto batia papo, e uma ou duas vezes por mês eu lia alguma coisa, mas quase sempre eram textos técnicos porque a faculdade (agora de informática -  não perguntem) tava puxada, e eu quase não conseguia prestar atenção nas poucas aulas que freqüentava, afinal os papos sempre se estendiam até altas horas e quando eu via já estava de manhã.

Hoje eu sou casado, pai de duas crianças lindas e hiperativas, trabalho há 8 anos no mesmo tribunal, pago aluguel e contas todo santo mês, e ainda assim consigo manter um bom nível de atividade em pelo menos 3 redes sociais, mais as outras sei lá quantas que eu uso esporadicamente, to sempre conversando com todo mundo no gtalk, e isso sem nem mencionar o fucking twitter, que eu to o dia inteiro espiando sempre que sobram 10 segundos pra puxar o smartphone do bolso.

Ou seja.

A triste realidade é que a vida social matou meu tempo particular. Sim, quem diria, o moleque sem vida social agora não consegue desgrudar da mesma por 90 minutos pra ouvir um disco do começo ao fim. Eu disse 90 minutos? Se um vídeo do Youtube tem mais de 8 minutos, eu preciso marcar hora na agenda pra assistir. Muito tempo! Pensa no quanto eu terei que rolar da timeline pra me manter interado quando voltar! Alguém pode morrer nesse meio tempo e eu vou perder todas as piadas e hashtags do momento!
A bem da verdade, o pouco de cultura que eu ainda consumo, é aquela que está socialmente em voga. Eu comecei a assistir séries de TV porque muita gente que eu conheço assistia e porque eu ficaria de fora das conversas se perdesse. Filmes, hoje em dia, só achando torrent dos lançamentos que estão sendo comentados (sim, porque ir ao cinema é um hábito morto e enterrado pra quem tem filhos pequenos em casa). Por outro lado, tenho visto muito mais TV, em especial TV aberta, especificamente o que quer que esteja sendo trending topic no twitter naquele exato momento, porque é um olho na TV e outro na grande rodinha de churrasco virtual que é aquele troço. Me desconectar das pessoas para fazer qualquer coisa sozinho é um ato consciente e que requer energia. Se deixar, eu passo a vida toda surfando o zeitgeist e só parando pra escutar o chiado do silêncio em uma mp3 mal editada por puro acidente.

E, que engraçado, esse chiado é que ativou a minha memória auditiva que desencadeou todo esse insight. É o som comum a todos aqueles momentos tão distantes entre si na história, aqueles pequenos segundos após o fim de uma música em que só o barulho da fita não gravada soava nos fones de ouvido. O último segundo antes de adormecer.

Acho que vou ouvir o chiadinho novamente.

27.12.08

Enquanto escrevo esse post, estou sentado em uma confortável pedra em formato de sofá, no meio do pasto do sítio dos meus avós, lutando para enxergar algo no monitor apesar do sol ofuscante. Tentei escrevê-lo ontem à noite, mas infelizmente, a despeito dos avanços tecnológicos da última década, sinal de celular (e, consequentemente, internet móvel) aqui só existe do lado de fora da casa, e na curta trégua que a chuva deu ontem, um incidente com uma aranha armadeira que resolveu veriricar de onde vinha tanto brilho e pulou no meu monitor abortaram precocemente meu projeto de blogada. Pelo menos agora está seco e o brilho do monitor, que quase não é suficiente para furar o antireflexo, não vai atrair nenhum aracnídeo peçonhento curioso.

É justo questionar o que de tão importante eu teria para escrever que me fizesse enfrentar a natureza em busca de um resquíscio de modernidade, tão malvisto nestes recantos bucólicos do planeta. O que me motivou foi justamente o lugar. O sítio dos meus avós, Santana do Serrano, carinhosamente conhecido como Bauzinho pela família Savastano. Bauzinho porque ele tem uma vista privilegiada da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí. Meus avós compraram esse lugar quando eu ainda tinha uns 6 anos de idade. Permutaram pela casa aonde meu pai e alguns dos tios nasceram, e aonde nós (eu e minhas irmãs, uma das quais recém-nascida) tínhamos brevemente residido antes de irmos para o Rio em 86. Desde que consigo me lembrar, o Baú tem sido palco das festas mais divertidas da família, e das viagens mais memoráveis. E sempre que eu piso aqui eu me pergunto por que diabos eu tenho vindo cada vez menos para cá.

Por um lado, tem a ver com o inevitável crescimento da família. Sou o neto mais velho e sempre tive uma exclusividade limitada de direitos na casa da minha avó. Também fui o responsável por desbravar vários caminhos não trilhados, o que evidentemente sempre facilitou a vida dos meus primos e irmãos mais novos. É uma troca justa, mais privilégios e mais responsabilidades. Mas hoje em dia quase todos os 24 (com mais um a caminho!) netos de D. Ângela são maiores de idade, vacinados, e com seus róprios planos para feriados prolongados. Por consequência, graças a uma política social velada, o sítio acabou sendo "herdado" pela segunda geração de netos. E o fato de nunca conseguir uma data que já não estivesse ocupada pelos jovens em questão me fez desencanar um pouco de vir para cá ou trazer amigos (até porque, conseguir agendar outra data importante como o Reveillon de 99 só para mim e para amigos meus provavelmente nunca acontecerá)

Mas por outro lado, não consigo deixar de sentir que parte da culpa é minha. Eu nunca encontrei um lugar para o sítio na minha autoproclamada "vida adulta." E aqui no meio do nada, com vento no rosto e ouvindo a algazarra dos pássaros, eu começo a desconfiar que o que eu fiz foi bloquear uma parte de mim que sempre pertenceu a esse lugar. Porque essa é a parte infantil que vê qualquer buraco no mato como um convite à exploração, um portal para uma aventura fantástica; que associa cada barulho a um ser folclórico ou mitológico, um fantasma ou um alienígena furtivo; que deita na grama para olhar as estrelas e sente que a qualquer momento a gravidade pode se inverter e eu posso cair no vazio imenso.

Tem muitos sonhos inacabados perdidos entre as árvores do quintal e entre as pedras do riozinho. Grandes sagas que eu levava comigo e que continuavam de onde tinham parado sempre que eu botava os pés aqui de novo. Grandes certezas, como a de que eu estava cada vez mais próximo de conseguir levitar ou virar um peixe e respirar embaixo d'água (só precisava ser um pouco mais velho). Grandes amores platônicos da infância e da adolescência que viravam fantasias românticas bestas que sempre - sempre - aconteciam aqui. Nenhum deles teve desfecho, porque ficaram aqui esperando meu retorno, e eu não voltei mais. Até continuei aparecendo, eventualmente, mas sempre como um estranho, como um convidado na minha própria casa.

Não sei por que diabos eu decidi, consciente ou inconscientemente, que não iria mais revisitar meus sonhos. Mas uma coisa é certa. Aquele Rafael pequeno e delirante era muito mais corajoso do que eu. Os espinhos na mão, ralados no joelho, carrapatos na virilha, eram todos parte da diversão. Eram as dificuldades que potencializavam a vitória. Cada vez que eu saía da estrada e inventava uma trilha, eu tinha certeza que ia ficar ardido e incomodado por semanas com as escoriações, mas o impulso era irresistível. Tão diferente do que eu sou hoje!

Para variar, eu não me permiti ficar aqui muito tempo. Mal cheguei e já vou embora. Podia ficar mais, podia voltar para passar o ano novo, mas não ia adiantar muita coisa. Saber da minha dificuldade de conexão com o Baú não ajuda em nada a superá-la, infelizmente. Mas ao menos eu posso tentar levar para casa, no mínimo, esse post. E meditar sobre a lembrança de uma época em que, ao invés de desistir antecipadamente de tudo que requira esforço ou que vá causar dor, eu pulava de cabeça só pela emoção de superar.

22.8.08

Estou com uma questão mordaz no fundo da cabeça. Ainda está se formando, talvez já até tenha uma resposta que a juventude do raciocínio na mente ainda não tenha tido tempo de descobrir. Mas é algo em que eu tenho pensado com cada vez mais frequência nos últimos dias:

Afinal, paixão é bom ou ruim? Serve pra alguma coisa? Quais os prós, quais os contras, e - especialmente - é mesmo possível viver sem, ou saudável viver com?

Eu sei que a idade arrefece as paixões, e obviamente isso me incomodava quando eu era adolescente. Sonhava em ser um cara que jamais perderia a capacidade de se apaixonar, de se dedicar de corpo e alma a um ideal, de me jogar na frente de um trem por uma pessoa. Mas ultimamente ando de mal com a paixão. E acho que não é passageiro. Cheguei em um ponto da vida em que eu sei exatamente o que quero para mim, sei do que eu gosto e do que eu preciso, e sei de onde tirar cada uma dessas coisas. E, muito para minha surpresa, a paixão não se encaixa em lugar algum desse cenário!

É inegável - estar apaixonado é maravilhoso. É uma das coisas mais intensas que pode acontecer a um ser humano, e qualquer pessoa que passa pela vida incólume à paixão não pode dizer que realmente viveu. Mas será que é mesmo necessário viver apaixonado? E por que tanta gente pensa que sim?

Seria, talvez, porque a paixão arrebata, aflora os sentidos, e provoca sensações fabulosas de prazer e felicidade plenos? Bom, eu conheço algumas outras coisas que se encaixariam nessa descrição, e a maioria delas é ilegal! De fato, esse tipo de torpor, de experiência sensorial, quando provocado por alguma outra substância ou estímulo, normalmente é tido como produto de alta periculosidade, causador de dependência, que prejudica a lucidez e a longo prazo se torna uma válvula artificial de escape que pode destruir psicologicamente o usuário. Por que então a versão natural e não-assistida do exato mesmo estado de espírito é considerada uma coisa linda, tema de cartões fofuxos de dia dos namorados e de manifestos políticos inflamados?

Além disso, a paixão, assim como a adrenalina, tem efeitos aditivos sobre o organismo. O apaixonado concentra-se melhor, resiste melhor às intempéries, ultrapassa todos os seus limites. Quem há de negar que os atletas apaixonados por suas camisas são melhores do que os que fazem por dinheiro? (As seleções masculina e feminina de futebol estão aí para provar meu ponto). Deveriam eles ser pegos no doping? E quanto às consequências desastrosas que a inevitável perda de efeito da paixão podem trazer ao rendimento pessoal de um apaixonado?

Todo mundo conhece ao menos menos um junkie de paixão; aquela pessoa que está sempre se apaixonando por alguma coisa nova - ou alguém novo - e jogando sua própria vida pro alto numa sequência sem fim de inconsequências anunciadas. Aquela pessoa que parece sempre tão radiante e poderosa, mas que muda da água para o vinho quando perde sua paixão, como um drogado que cai na real e precisa desesperadamente de outra dose. Essas pessoas, os apaixonados crônicos, são realmente felizes? Ou são o tipo de gente cujo espírito estacionou na evolução e que, no fim das contas, desperdiçam a vida em busca do imediato sem jamais construir nada eterno?

Paixão é uma palavra muito mal-utilizada, também. Costumo ouvir coisas como "Fulano e Beltrana são apaixonados há 30 anos." São mesmo? Apaixonados?? Do tipo que acorda, olha pra cara do outro e sente o coração palpitar e o chão fugir aos pés? Que vai trabalhar e passa o dia inteiro olhando pro infinito sonhando com o parceiro que verá em poucas horas? Que a cada contato de pele explode em um beijo sôfrego e apaixonado que culmina em orgasmos estremecedores?

Acho que não. Acho que o fato de Fulano e Beltrana andarem de mãos dadas todo dia, trocarem olhares enamorados cotidianamente, ainda gostarem do abraço e do beijo um do outro mesmo tantos anos depois, isso tudo tem a ver com o amor, não a paixão. Amar pela vida inteira, isso sim é possível, plausível, e construtivo. Mas não é paixão. Ainda bem!

Sei que muita gente acha que ainda não teve sua dose de paixão na vida. E como poderiam, sendo a paixão uma coisa tão viciante? Mas eu, por outro lado, começo a achar que tive. E que estou muito feliz por não me apaixonar mais pelas coisas, significa que evoluí. Que consigo quantificar (e qualificar) minha dedicação às coisas, que consigo ter controle sobre meu organismo, que consigo avaliar as coisas com lucidez mesmo em se tratando de assuntos apaixonantes. Consigo até, livre da dependência que a paixão causa, amar mais próximo do ideal - sem associar amor a dever, a poder, ou a necessidade.

Claro que a paixão é uma raposa velha e ainda vai me dar muitos sustos na vida (quando tiver meu primeiro filho pretendo reler esse texto e balançar minha cabeça lentamente), mas quando ela passar - e passará - eu estarei sempre satisfeito pela experiência e grato pela oportunidade. E só.

Moral da história: apaixone-se com moderação. :)

22.1.04

AAAAAAA QUE FODA!!

Estou ouvindo meu lindo LP-transformado-em-CD "A Era dos Halley"... E trocadilhos à parte, parece que fui atingido por um cometa de nostalgia :PP Estou com 4 anos de idade outra vez... gah!!

A qualidade da conversão ficou muito boa! A partir de agora vou começar a garimpar LPs pelo centro do Rio e converter em CD lá! O cara é muito bom, não só passou tudo pra digital com um tratamento impecável do som, como ainda escaneou a capa pra fazer uma capinha bonitinha, ainda retocou no Photoshop pra tirar o preço e um selo de "cópia invendável" que tinha... enfim, trabalho de apaixonado mesmo :) Como eu não sei o endereço lá, só sei chegar, quem tiver interessado em converter os LPs antigos em CD é só falar comigo que eu levo lá, 15 reais pela conversão. E vale cada centavo!!

Agora, de volta ao meu delírio lúdico...




Wind

14.1.04

Engraçado. Hoje eu estava relendo os arquivos desse blog. Uma coisa que eu já tinha feito em Outubro de 2002, e tinha sido extremamente terapêutico. E eu fiz de novo hoje (ok, ok, não desde o começo, eu peguei daonde eu parei da última vez - ou seja, Outubro de 2002).

Algumas coisas merecem menção. Uma delas é: como esse blog mudou! E o mais legal, as mudanças refletiram muito as mudanças na minha vida. 10/02 foi bem o mês em que eu comecei a questionar minha vida, o que me levou ao psiquiatra, o que me levou à descoberta da TDAH e à Rita, o que me trouxe aonde hoje eu estou. Bem empregado, bem casado, cheio de planos para o futuro. Futuro que eu era incapaz até de acreditar que existia antes. Que eu era incapaz de ver. Hoje, eu tenho um futuro e ele é lindo! E o mais engraçado é que, uma vez mais, meus posts se provaram um tanto proféticos, como essa passagem aqui:

"Eu sinceramente espero que o psiquiatra descubra que tudo isso não passa de uma doença perfeitamente curável com um mísero remédio e me dê um comprimido pra trazer de volta a normalidade cotidiana. Eu não aguento mais esse buraco onde eu caí certa vez e até hoje não atingi o fundo..."

Isso foi escrito quase exatamente 1 ano atrás, dia 24 de Janeiro de 2003. E acabou que foi basicamente isso que aconteceu. Mas obviamente não da maneira imediata e simples que eu imaginava. E eu até fico feliz que não foi, eu aprecio muito todas as falhas e todas as quedas que precederam minha vitória, porque sem elas, teria sido fácil demais para eu dar valor.

E isso não foi a única pérola Nostradâmica que eu achei nos arquivos, tem muita coisa adivinhada ali, inclusive a minha menina, mas pra quê estragar a diversão de vocês citando? :) Vão lá catar, ora essa...

Enfim. Numa análise final, eu comecei 2003 dizendo "esse vai ser O ano!", e foi. Então, acho que essa é a oportunidade para dizer: 2004 vai fazer 2003 parecer um prólogo!! :)


Um brinde às ascenções pós-queda. Especialmente os de quem caiu MUITO na vida ;)))




Wind

P.S.: Aos que sempre reclamaram dos meus posts sobre 24 Horas porque não tinham conseguido assistir à série, ELA ESTÁ PASSANDO NA GLOBO!! Todo dia, depois do Jornal da Globo. Sim, o horário é ESCROTO, mas enfim, o que se podia esperar dessa emissora similarmente escrota? O importante é: hoje foi o segundo capítulo, então podem tranquilamente começar a assistir amanhã que vocês não vão ter perdido nada importante da história (ao menos, nada que o Jack Bauer não resuma na abertura de todos os episódios).
Sério, assistam. É a melhor série de todos os tempos. Creiam!!

14.12.03

Caraca!!! No meio da mega-faxina que eu tô fazendo, resolvi abrir pela primeira vez em pelo menos 7 anos (foi aberta algumas vezes desde então, mas só pra tacar coisa dentro, nunca pra tirar, e a última foi há pelo 5 anos atrás) a minha lata de tranqueiras. É uma lata que eu tenho desde que fiz 10 anos de idade, dessas que serve de banquinho também. E nos últimos anos, é só o que ela tem sido. Banquinho. (mais especificamente, suporte do meu ventilador). E eu tinha até esquecido que tinha coisa dentro dela. Hoje resolvi fazer uma escavação arqueológica, e juro que a partir de hoje ela será chamada a Lata de Pandora. Aqui vai uma pequena lista com apenas alguns exemplos comentados do que saiu dali de dentro!


* Um minigame Tec Toy quebrado
* Comprovante de envio de sedex das camisas dos Onff Hunters pra Adriana Almeida (1998)
* Lista dos meus tempos na pista de Kart Indoor que eu fui com meu pai no meu aniversário de 15 anos
* Um filme de 36 poses não revelado (medo!)
* Cartão do Hotel Parque Água Branca (quem foi no EIRPG de 2000 lembra. E teme)
* "Autorização de Viagem para Criança ou Adolescente", da minha ida ao Chile em janeiro de 98
* Passagens de ida e volta BH-Itajubá, para o infame Encontro Nacional de RPG, promovido pelo Akira e sua "ordem dos dragões". Só fui eu, Presunto e Longshot. E o Marcelo Del Debbilóide, que ficou dando em cima da minha irmã de 14 anos. Tsc
* meu comprovante de entrada do EIRPG de 98. Aquele fiasco no Galpão Fábrica.
* Convite pro aniversário de 15 anos da minha irmã!
* Uma caixinha de Tic-Tac laranja com os dizeres "Agora no Brasil" no rótulo!! MEDO!!!
* Ordem de serviço do conserto do meu Playstation que tinha sido ligado em 220v. Eu nem lembrava disso. Acho que foi tão traumático que apaguei da memória...
* Uma poesia (minha) de 1900 e guaraná de rolha
* uma agenda que meu primo Jonathan fez pra anotar todos os truques e macetes de videogame que a gente descobria, ordenado alfabeticamente. Muuuuuuito velha.
* um mapa pra... minha casa?!?! (em Floripa)
* Minha passagem de ônibus Florianópolis-Santiago do Chile.
* Uma carteira veeeelha pra caramba, de 1990, que eu guardei só porque tinha colado dentro um adesivo de uma mulher de biquini toda arreganhada que quando vc passava fogo perto, o biquini sumia
* "cheque-locação" da minha locadora de videogame em SP, em 1991, quando eles instituiram um talão pré-pago de vales-locação que precisava vir assinado pelo pai pra liberar a locação. Neura pouca é bobagem
* minha agenda do colégio na sexta série
* Uma caixa de bombinhas de riscar. Cheia!!!
* Meu caderninho do Jurassic Park com telefones de quase toda a galera de Brasília em 98, junto com relatos da viagem :D
* Metade de um Comandos em Ação (o único que eu tive a vida toda)
* Um saquinho de bolinhas de gude novinhas!!!!
* Uma bic! Deve ser a primeira ocasião na história da humanidade que alguém ACHA uma bic!!! (está com a carga cheia, no entanto. Não deve ter cumprido a missão ainda)
* O aerofolio de um automodelo de formula 1 que eu ganhei quando fiz 14 anos
* Minhas figurinhas repetidas do álbum dos X-Men!!!
* um mini-folder com pinturas da via sacra que eu ganhei numa gincana no retiro espiritual do colégio Pio XII, na sétima série. Eu guardei porque achava as pinturas bonitas.
* Transfix PLOC!!! Do Casseta & Planeta!!!!!
* Uma arminha de espoleta. Funcionando!
* E a pior de todas - MEUS DENTES DE LEITE!!!!!!!! -_-""""""



Acho que vou deixá-la fechada por mais 7 anos e ver o que acontece.... MEDO!!



Wind