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22.2.12

Epifânia acidental


31 anos nesse mundo, aparentemente, ainda não foram suficientes para aprender a driblar alguns caprichos do meu organismo. Não, não me refiro a qualquer tipo de malfuncionamento intestinal, relaxem. Falo da minha espécie pessoal e bastante peculiar de insônia. O carnaval desse ano coincidiu com o fim das minhas férias e também o fim de uma era aqui em casa, já que a partir da quinta-feira os meninos começam a freqüentar a escolinha, e a preparação espiritual e química (e lícita, antes que alguém pergunte) para essa mudança iminente fez com que eu dormisse muito pouco nos últimos 3 dias, coisa de 7 horas ao todo (um sono de 3h e outro de 4) entrecortando outras 65 acordado. Hoje, véspera da quarta-feira de cinzas, a idéia era estar tão moído que adormeceria à meia-noite e ajustaria pois os horários.

Heh. Claro que, a despeito do total comprometimento com o plano, de ter deitado na hora programada, no quarto escuro e silencioso, de ter confirmado a existência do sono (diversas viagens de ônibus ao longo da adolescência e vida adulta me levaram a desenvolver uma forma de perceber se estava ou não a ponto de adormecer, mesmo quando não havia manifestação física – bocejos, olhos pesados - de sono. Basicamente, eu fecho os olhos e conto quantas imagens aleatórias surgem na minha cabeça, e com que freqüência. Quanto mais nítida e menos coerente a minha torrente de pensamentos estiver, mais perto de dormir eu estou. Isso era crucial para decidir a hora de interromper a leitura ou guardar o discman antes de capotar e sem ter que ficar entediado por muito tempo até finalmente embarcar de vez), o planejamento foi um fracasso retumbante. Cheguei a sentir o relaxamento muscular que precede o apagar da consciência, mas, olhai e regozijai-vos, o sono me evadiu completamente de uma hora pra outra (provavelmente com uma gargalhada maligna) e cá estou eu.

Na vã tentativa de implorar pela volta desse sono que me deixa só, liguei a caixinha de som de cabeceira, selecionei alguns discos só de piano, boa parte dos quais são meus chama-sono desde aquela época das viagens de 17h num Itapemirim sacolejante, e fechei os olhos. Resultado? A insônia agora havia virado uma súbita inspiração para escrever. Bom trabalho, cérebro!

E é por isso que estou aqui, com o notebook apoiado na barriga, passando calor, e escrevendo a atualização trienal do blog para falar por parágrafos sem fim sobre... ouvir música num quarto escuro.

Eu sempre tive uma relação especial com as artes, em especial com música. Pode-se argumentar que a música, por suas características, é uma forma de arte que evoca reconhecimento independente da vontade do interlocutor (e acreditem quando digo que há uns bons anos existe um rascunho de texto sobre o assunto circulando pelos meus axônios só esperando uma luz verde neuronal para ser devidamente produzido) , mas não seria correto afirmar que todo mundo tem o mesmo envolvimento com música. A música é a linguagem universal, mas cada um tem seu próprio nível de compreensão de discurso. Da mesma forma que duas pessoas que sabem perfeitamente falar português podem entender ou não entender o mesmo texto, digamos, um livro do Stephen Hawking – duas pessoas que “falam” música (e para tanto basta ter alma) podem extrair da mesma harmonia um intrincado enredo ou apenas algumas sílabas monótonas. Poderia ir bem mais longe nessa linha de argumentação, e pretendo, mas em outro texto. O foco de hoje é outro, e só evoquei essa introdução para explicar que não estou sendo pedante ou redundante ao estabelecer minha relação com a música como algo extra-ordinário.

Como de praxe na minha vida atualmente, resolvi analisar essa reflexão errática que brotou na minha cabeça quando eu deveria estar roncando e lapidá-la em alguma lição que eu possa passar para meus filhos. E sempre que eu me proponho a fazer isso eu acabo embarcando numa das minhas boas (?) e velhas viagens de autoanálise, dignas dos primeiros anos desse blog, só que agora com uma causa nobre e um tanto a mais de objetividade (ou não, vejam quantas linhas já escrevi e ainda nem terminei o abstrato). E a primeira coisa que eu notei é que essa situação, de estar no escuro, ouvindo uma música de olhos fechados, me transporta imediatamente a vários momentos da minha infância e juventude em que eu fazia exatamente isso. Em vários pontos da vida, em várias situações, em vários estados evolutivos, essa atividade esteve presente, e eu nunca tinha pensado sobre isso.

Também fui perceber que todas as memórias dessa situação, TODAS, são boas lembranças. Mesmo quando, na hora, eu estava mal (e não foram poucas as vezes em que eu estava, de fato, péssimo), a lembrança é acolhedora. E outra coisa que me espantou foi constatar que, todas as vezes que eu fiz isso, eu atingia o ápice da minha introspecção. Nas lembranças, sempre estou total e verdadeiramente sozinho. E, francamente, eu nunca fui um grande fã de ficar sozinho. Sempre soube da importância da auto-suficiência, sempre prezei a liberdade acima de qualquer coisa, mas a verdade é que não via nenhum apelo no isolamento ou na solidão. Ou achava que não via. Em retrospecto, alguns dos momentos mais marcantes e mais saudosos da minha criação era momentos de absoluta e voluntária individualidade.

E de repente eu estava tentando entender por que eu tinha tido uma memória ativada pela simples (e, na minha cabeça, corriqueira) atitude de botar uma música para tocar enquanto tentava limpar a mente, e quando exatamente isso passou a ser tão raro na minha vida que a mais recente lembrança trazida de volta por aquela caixinha de som era de muitos anos atrás. E acho que sei a resposta.

Eu fui um adolescente muito tímido, e como é basicamente na adolescência que temos nossa primeira revisão de identidade (que é, para todos os efeitos, a única aos olhos do próprio adolescente), timidez virou uma das minhas características definidoras por muito tempo, o que hoje em dia eu sei que era uma besteira sem tamanho, porque até meus 10, 11 anos eu era um moleque espivetado cheio de amigos e absolutamente amava qualquer tipo de atenção. Pois bem, a adolescência passou, a timidez também “passou” (graças às aulas de teatro, pensava eu) e ficou por isso mesmo, eu era agora um ex-tímido convertido em ser social através de prática e treino. Mas minhas atividades intimistas – passar horas mergulhado em livros, jogando RPGs de videogame com 2 mil horas de enredo, ou no escuro ouvindo Beethoven e John Williams – eram também parte da minha identidade e sempre seriam.

E, no entanto, faz tempo que não consigo parar para ler mais do que 2 páginas de qualquer livro, não jogo RPG e provavelmente nem falo mais sobre há mais de 8 anos e ouvir música pra mim virou atividade exclusiva de deslocamentos de carro, sempre como pano de fundo para o trânsito. O que diabos aconteceu? Porque também não é como se não tivesse NENHUM tempo sobrando na vida pra um pouco de lazer, é só que de alguma forma eu sempre acabo optando por...

Oh-oh.

Acontece que lá por 1996 eu ganhei um computador do meu pai, que na época morava no Maranhão (e eu em Santa Catarina) e com quem eu estava perigosamente perto de perder completamente o contato. A solução que ele encontrou foi financiar em trocentas vezes um par de IBM Aptivas para que nós driblássemos os custos proibitivos de interurbano com a tal da Internet. E, como bônus, eu ainda tinha acesso a uma fonte virtualmente infinita de páginas da World Wide Web (que devia caber inteira no meu atual HD de 1 Terabyte). Era o paraíso de um adolescente introspectivo que adorava ler. Textos, textos everywhere! Como naquela época se navegava com incríveis modems 2.400bps (isso são BITS POR SEGUNDO, crianças. Sua banda larga atualmente, se vc for MUITO mão de vaca, opera no mínimo a 524.288bps e você ainda xinga porque leva 15 minutos pra carregar a home do UOL) que ocupavam a única linha telefônica da casa (a única mesmo, pq ninguém tinha celular) e cobravam 10 cenavos a cada 4 minutos a título de pulso, exceto entre 0h e 6h, entrar na internet durante o dia era fora de questão. E eu não podia ficar acordado depois da meia-noite pra acessar porque estudava de manhã, então eu desenvolvi o hábito de levantar 1h e meia antes do horário de me arrumar pro colégio, às CINCO E MEIA da matina, só para surfar a web. Em 1996, isso provavelmente era justificativa legal válida para minha internação, mas eu não estava nem aí, passava horas no Webcrawler (e, depois, no AltaVista; Google é coisa de piá de prédio criado a leite com pêra) caçando páginas legais para ler. A internet era tão pequena naquela época que o Yahoo! tinha a opção de listar as páginas por assunto. Não é piada.

Enfim, tudo estava se encaminhando perfeitamente, até que eu resolvi me inscrever numa lista de e-mail (isso foi antes de inventarem fóruns em PHP, e provavelmente antes de inventarem o PHP) sobre RPG, que era um grande interesse meu na época, mas que era um hobby pouco difundido e especialmente obscuro numa cidade como Florianópolis. Minha idéia era apenas buscar gente pra trocar figurinhas sobre aquele assunto em específico, mas a lista era bem mais movimentada do que eu esperava, e era muito interativa. E quase todos os assinantes se conheciam pessoalmente e tinham várias histórias para contar, muitas nem relacionadas com RPG. E um dia alguém me avisou que essa galera estava se comunicando em tempo real através do IRC, e eu resolvi ver qual era, e daí foi ladeira abaixo.

Essa época da minha vida foi a que eu considerei, por muito tempo, o desabrochar da minha socialidade. Mas na verdade era só um reencontro com minha natureza social que há anos estava reprimida. Em um ano eu já havia me decidido a sair de Floripa e ir morar no Rio, aonde a maior parte daquela turma vivia, e aonde eu já havia morado há muitos anos, mas que revisitei graças àquela turma e voltei para casa atordoado com o quanto a cidade era sociável, como todo mundo se tratava como se já se conhecesse, como eu havia sido acolhido e bem tratado por gente que acabara de me conhecer, com a quantidade de vida que existia aqui. Em dois anos, já tinha até arrumado a desculpa para vir – estudar música na UFRJ, plano que se adaptou rapidamente para estudar música na Villa-Lobos quando eu falhei espetacularmente na prova de habilidade específica do vestibular. O importante era ficar. No meu primeiro ano morando aqui, eu não parava em casa. Sempre tinha uma reunião, uma festa, um encontro da galera. Passar um fim-de-semana sequer sem sair de casa me dava a sensação de ser enterrado vivo.

Mas ei, eu ainda tinha bastante tempo para dedicar a mim mesmo, aos livros, à música, ao ócio criativo. Morava sozinho e estava realmente curtindo toda aquela coisa de aprender a gerenciar uma casa, uma economia doméstica, etc. Fora que eu estudava piano, então tempo sozinho com uma música nunca me faltava.

Só que nessa época eu também já pagava minha conta telefônica, e também fazia meus horários, e o ritual de toda santa meia-noite me conectar no IRC e ficar jogando conversa fora era sagrado. Fins de semana, que tinham pulso livre, nem se fala. E não tardou a surgirem os provedores de internet discada que não cobravam pulso, e aí, podia muito bem ter jogado fora o aparelho telefônico da minha casa, porque a linha era do computador e de mais ninguém. Quem quisesse falar comigo que me mandasse um e-mail, ou me achasse no IRC, ou no meu ICQ, que vivia bombando, por sinal. Mais ou menos nessa época, ler qualquer coisa em papel começou a ficar relegado a trajetos de ônibus e metrô, mas o resto continuava firme e forte. Eu estudava, lia, ouvia músicas, escrevia, compunha. Foi uma época de ouro pra mim, para ser melhor só se eu tivesse qualquer tipo de sustentabilidade econômica ou responsabilidade com meus estudos, mas isso é detalhe. Estava vivendo o sonho colorido de qualquer artista.

Mas aí o calo apertou, a mesada encurtou, a matrícula jubilou e eu tive que me endireitar. O tempo pra mim já não era mais tão ilimitado, mas ainda estava lá, e eu ainda conseguia conciliar isso com a interação diária com vários amigos daqui ou do outro lado do mundo, que sempre estavam ali pra puxar uma conversa. Aí eventualmente vieram as tais das redes sociais, fotolog (heh), Orkut, e de repente eu conhecia um monte de gente (olha, mãe, mais de 100 amigos!) e tinha um monte de assuntos diferentes para debater, convenientemente divididos em comunidades, e sempre tinha gente fazendo chat coletivo no MSN, e às vezes eu conseguia ouvir música enquanto batia papo, e uma ou duas vezes por mês eu lia alguma coisa, mas quase sempre eram textos técnicos porque a faculdade (agora de informática -  não perguntem) tava puxada, e eu quase não conseguia prestar atenção nas poucas aulas que freqüentava, afinal os papos sempre se estendiam até altas horas e quando eu via já estava de manhã.

Hoje eu sou casado, pai de duas crianças lindas e hiperativas, trabalho há 8 anos no mesmo tribunal, pago aluguel e contas todo santo mês, e ainda assim consigo manter um bom nível de atividade em pelo menos 3 redes sociais, mais as outras sei lá quantas que eu uso esporadicamente, to sempre conversando com todo mundo no gtalk, e isso sem nem mencionar o fucking twitter, que eu to o dia inteiro espiando sempre que sobram 10 segundos pra puxar o smartphone do bolso.

Ou seja.

A triste realidade é que a vida social matou meu tempo particular. Sim, quem diria, o moleque sem vida social agora não consegue desgrudar da mesma por 90 minutos pra ouvir um disco do começo ao fim. Eu disse 90 minutos? Se um vídeo do Youtube tem mais de 8 minutos, eu preciso marcar hora na agenda pra assistir. Muito tempo! Pensa no quanto eu terei que rolar da timeline pra me manter interado quando voltar! Alguém pode morrer nesse meio tempo e eu vou perder todas as piadas e hashtags do momento!
A bem da verdade, o pouco de cultura que eu ainda consumo, é aquela que está socialmente em voga. Eu comecei a assistir séries de TV porque muita gente que eu conheço assistia e porque eu ficaria de fora das conversas se perdesse. Filmes, hoje em dia, só achando torrent dos lançamentos que estão sendo comentados (sim, porque ir ao cinema é um hábito morto e enterrado pra quem tem filhos pequenos em casa). Por outro lado, tenho visto muito mais TV, em especial TV aberta, especificamente o que quer que esteja sendo trending topic no twitter naquele exato momento, porque é um olho na TV e outro na grande rodinha de churrasco virtual que é aquele troço. Me desconectar das pessoas para fazer qualquer coisa sozinho é um ato consciente e que requer energia. Se deixar, eu passo a vida toda surfando o zeitgeist e só parando pra escutar o chiado do silêncio em uma mp3 mal editada por puro acidente.

E, que engraçado, esse chiado é que ativou a minha memória auditiva que desencadeou todo esse insight. É o som comum a todos aqueles momentos tão distantes entre si na história, aqueles pequenos segundos após o fim de uma música em que só o barulho da fita não gravada soava nos fones de ouvido. O último segundo antes de adormecer.

Acho que vou ouvir o chiadinho novamente.

15.10.10

Aos pais de merda

Sempre soube que a paternidade mudava radicalmente a nossa vida, mas confesso que minha rica e intensa experiência tem me moldado para caminhos que eu não esperava. Nunca fui, por exemplo, dado a rótulos como "de merda." Raramente na vida considerei alguém digno de ser ser denegrido a esse ponto, porque sempre fui compelido por uma vocação de alma a analisar todos os pontos de vista de uma questão e entender as causas ao invés de julgar os efeitos. Claro, isso nunca me impediu de aplicar a pecha a alguns desafetos com a intenção específica de desabafar, mas realmente considerar alguém um merda, até hoje tinha sido difícil. Todo tipo de falha de caráter ou de amoralidade que eu presenciei pessoalmente tinha alguma base ou justificativa torta em fraquezas corriqueiras do ser humano. Todo mundo tinha alguma lógica para se considerar protagonista da própria vida e eu em geral entendia e respeitava essas coisas, afinal, cada um sabe a dor e a delícia (ou o inferno) de ser o que é.

Mas agora que sou pai, e avaliando a meu redor a capacidade de outros pais de desestruturar e causar dor a seus filhos - que infelizmente tenho testemunhado bem mais do que eu gostaria - eu sei que não existe justificativa, por mais remota que seja, para massacrar quem você mesmo botou no mundo. Ninguém pede para nascer, mas também ninguém é obrigado a procriar. O prazer envolvido no ato, a vocação genética, nada disso pode ser usado como desculpa no século XXI com inúmeras alternativas acessíveis para foder sem conceber. A partir do momento em que se inflige a vida (por assim dizer) a alguém, essa vida está na sua conta pelo resto dos seus dias. Fazer miserável essa vida que também não lhe pediu para nascer, é ser sim um merda no sentido amplo e profundo do termo. Um merda com pedigree.

A maioria dos pais de merda justificam sua própria incompetência com a incompetência de seus próprios pais, o que é a coisa mais merda a se dizer na vida. Que tipo de escroto repassa uma violência sofrida a um terceiro inocente? Uma variação dessa corja são os filhos de pais de merda que decidem que criarão seus filhos da forma exatamente oposta à que foram criados, uma armadilha muito comum entre os ineptos de bosta que criam pequenos monstrinhos. Dica para quem planeja fazer isso com seus próprios filhos: O oposto de um erro não é necessariamente um acerto. Por "não necessariamente" leia-se "quase nunca."

Outra grande babaquice que pais de merda dizem para justificar o injustificável é jogar a culpa da relação degradante nos filhos, tratá-los como se fossem casos perdidos, decepções, potenciais que fracassaram. Esses putos esquecem que se seus filhos são deficientes em algum aspecto, é basicamente porque eles foram incapazes de formá-los a contento. Muitos idiotas acham que um bebê é uma esponja que eles podem preencher com o que quiserem, um autômato que nascerá compreendendo comandos verbais e que viverá em função dos sonhos e ambições (muitas vezes transferidos das próprias frustrações) dos pais. É impressionante que isso seja surpresa para alguém, mas bebês nascem com personalidade própria. O aprendizado do ser humano acontece em fases bem distintas e apenas a última delas, se tanto, envolve a aceitação de lições verbalizadas. E mesmo essa aceitação é indireta, complexa, sujeita aos caprichos da alma da criança. Pais que falham em reconhecer isso e posteriormente oprimem seus filhos com cobranças, antagonismos e decepção, são duplamente merdas por terceirizar a própria inaptidão. Covardes de merda.

Inclusive, vai aí a dica mais valiosa que eu posso dar para alguém nesse momento da minha vida, algo que realmente ficou muito evidente depois que virei pai. Pessoas que ainda estão naquele estágio de terminar relacionamentos por incompatibilidade, por favor evitem ter filhos. Claro que a paternidade (ou maternidade) pode ter um efeito mágico e causar um amadurecimento instantâneo que a viabilize, mas se isso não acontecer, as chances de você se tornar um pai ou mãe de bosta são grandes. Seus filhos terão um relacionamento com você tão intenso quanto qualquer casamento, possivelmente mais. Eles vão ter horários diferentes dos seus. Vão demandar mais do que oferecem em troca por grande parte da vida. Todos, sem exceção, são egocêntricos (que ao pai de merda parece egoísmo) por algum tempo, todos estão aprendendo a ouvir, falar, ler, contar, tudo ao mesmo tempo e tudo do zero. Todos nascem num ciclo de subsistência básico e só com o tempo vão lapidando a moral e o caráter. Todos vão torrar seu dinheiro, dominar sua casa, contestar suas decisões e, depois de anos dessa relação sugadora e acorrentadora, se a natureza seguir seu curso padrão, eles trocarão seu afeto pelo de outra pessoa, normalmente bem mais jovem.

Então, se você não está preparado para amar dessa forma, se não consegue se imaginar passando anos ao lado de alguém que ultrapassa todos os seus limites e que não abre brechas para repensar relacionamento ou espairar, então evite ter filhos. Mesmo. Eu diria até "não tenha," uma postura radical dessas inviabilizaria a existência de duas das coisas mais preciosas da minha vida, o que significa que algumas pessoas podem fazer um enorme bem apesar de seus pais de merda. Mas não posso endossar de forma alguma o tipo de sofrimento a que o filho de um merda é submetido. Sei que sofrimento é importante e engrandece a alma, mas fontes de sofrimento nesse mundo não faltam, a família não precisa fornecer ESSE aprendizado.

Eu, felizmente, estou pronto. E para quem sabe do que se trata e aceita os termos do contrato, ser pai é a melhor coisa do mundo.

11.2.10

Pessoa Nefasta

EDIT: O post serviu a seu propósito, agora chega de baixaria. Pra não perder a viagem, uma ótima versão da música do Gilberto Gil que deu nome ao post

10.9.09

Esse é um aviso de curta duração e direcionado a todos os interessados. Se vocês estão aqui lendo isso, sabem quem são.

Sim, eu estou namorando com ela.

Aos que não fazem idéia de quem estou falando e/ou já foram notificados diretamente por mim, seu interesse no post será bastante pequeno, podem ir dormir ou vir me perguntar que porra é essa via MSN.

Aos que realmente a amam e só querem se certificar que eu não vou fazê-la sofrer, sem quererem ficar lendo sobre o assunto por autoflagelo ou coisa que valha: sim, eu a amo. E sim, meu objetivo na vida é fazer essa menina feliz. Obrigado, sincero, por reagirem como homens e não piorarem o lado dela, vcs sabem tanto quanto eu como isso a faz mal, e se tem uma única coisa que nos une, é a certeza de que ela já sofreu demais e não precisa de mais merda nessa vida. Estou fazendo minha parte, e agradeço de coração a vocês por estarem fazendo as suas. Qualquer um que a ama de verdade é meu amigo, independente da reciprocidade.

Aos que ainda estão aqui, por curiosidade mórbida ou por despeito, eu vou dizer isso uma única vez: não usurpei o direito de ninguém. Não furei nenhuma fila, porque não existe fila ou lista de merecimento para relacionamento. Existe amor e vontade de se entregar. Quando a vontade é mútua, como é nosso caso, funciona. Quando não é, não funciona. Assim como ela, eu também saí de um casamento que drenou toda e qualquer vontade de me envolver de novo com alguém. Quando eu a conheci, eu fui esperto o suficiente para notar que tinha muita gente emocionalmente investido nela, e não fiz qualquer esforço pra ser mais um. Por meses, tivemos uma amizade bem sincera e o amor que eu nutria por ela era o mais isento possível de carência ou necessidade de retribuição.

E eis que agora, sem qualquer intenção ou esforço para tal, nos apaixonamos. Eu por ela, ela por mim, ao mesmo tempo. Não existe um porquê. Não existe um segredo. Nem uma técnica ninja nem um feromônio nem qualquer porra do tipo, só aconteceu. E foi difícil pra nós também, porque - alou - nenhum dos dois queria isso. Mas essas coisas quando têm de ser, não respeitam a razão. Não respeitam hierarquia, não respeitam antiguidade, nada. Não respeitam nem as nossas próprias resoluções, que não eram menos verdadeiras porque mudaram. Só mudaram.

As coisas mudam.

Apesar disso, a única certeza que eu tenho nessa vida é a que eu já tinha quando eramos apenas amigos. Que eu quero vê-la feliz. E ela está feliz, comigo, apesar de isso não fazer sentido nem pra mim. Mas está. E no dia que deixar de estar, no dia que eu tiver a MENOR desconfiança que faço mais mal do que bem para ela, vou voltar a ser amigo dela antes do mais psicótico de vocês fazer menção de me olhar feio. Quanto a isso, não se preocupem. Não tenho a menor ilusão de que eu não vá ser filmado e avaliado por centenas de "irmãos mais velhos" que ela ganha a partir de hoje, mas minha autocrítica é muito mais severa do que qualquer crítica vinda de gente que nem me conhece, então caguei.

E por falar em fazer mal, se tem uma coisa que faz MUITO mal a ela, que a deixa se sentindo o pior ser humano da face da terra, que realmente acerta as feridas dela, é ficar choramingando ou cobrando explicações. O que aconteceu não se explica. Não se justifica. Não tem lógica, nem teria se tivesse sido com qualquer outra pessoa além de mim. Não é racional e nem tampouco invalida quem nós dois éramos antes disso. Tentar extrair uma justificativa só vai jogar a auto-estima dela no lixo, e me desculpem, entre ver minha mulher de cabeça erguida e se sentindo bem ou dando ombro pra desabafo de malandro e se sentindo a escória da humanidade, ela claramente prioriza a segunda opção, mas eu priorizo infinitamente mais a primeira. Ombro todo mundo tem. Ela só tem uma, e eu pretendo preservá-la.

E isso é muito mais apologias do que eu devo a qualquer ser humano pelas coisas que eu faço, mas estou sendo cavalheiro. Espero ser retribuído com igual cavalheirismo, não em meu nome, mas em nome de qualquer resquíscio de sentimento verdadeiro que vocês tenham por ela e que não esteja associado a uma ansiedade de ser retribuído.

Sinceramente,

Rafael
Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 2009

16.2.09

Eu só queria dizer que é ok sentir desamparo de vez em quando. Foi assim que você aprendeu a resolver as coisas sozinho, não foi? Encarando os problemas maiores que você porque estava amparado e protegido das consequências de um fracasso, e construindo sua experiência. Natural sentir falta agora que se está encarando desafios maiores e a rede de segurança não dá mais conta de uma queda. Isso é evolução.

Queria dizer que o medo é um dispositivo de segurança e que saber a exata medida entre dar ouvidos a ele e ignorá-lo não é uma ciência simples, ou exata. Ninguém vai te julgar por cometer enganos, exceto as pessoas que julgam por esporte, mas essas são as verdadeiras fracassadas e jamais saberão o que é uma conquista porque se borram de medo de tentar.

E também dizer que não é nenhuma vergonha se sentir solitário numa multidão. A partir de um ponto da vida, cada um escolhe seu caminho e seu ritmo e isso separa, sim, as pessoas. Não é todo mundo que se aprofunda tanto na compreensão da própria alma - menos ainda na dos outros. Isso não faz de ninguém mais ou menos egoísta, mas certamente faz mais ou menos qualificados para fazer companhia ou contribuir edificantemente para seus questionamentos. Milhares de boas intenções podem não gerar uma única ação eficiente, e essa é a vida.

Mas acima de tudo, quero dizer que não é nenhuma fraqueza ou humilhação ter que estar escrevendo isso pra você mesmo. Se é o que você precisa ouvir, e tem que ser na terceira pessoa pra fazer efeito, então estamos apenas sendo pragmáticos. Porque é melhor tomar a iniciativa de resolver do que continuar lamentando as condições externas não-favoráveis, porque só a primeira atitude gera resultados.

E você é um solucionador de problemas. Um dos melhores que eu conheço. Orgulhe-se disso, sempre!

1.12.08

Dezembro não começou muito bem. Primeiro, porque a UERJ inventou de voltar da greve a essa altura do campeonato, pra fazer aquele intensivão de 3 semanas antes do recesso de fim-de-ano, efetivamente matando todos os meus planos de passear com minha prima Marcela, que eu não vejo há 11 anos e que chega do Chile no dia 07 para ficar lá em casa. Pensem numa revolta.

Além disso, como muitos podem ter deduzido pelo silêncio, eu não passei no exame de moto. Metade da responsabilidade é minha, talvez por ter deixado o imenso e inevitável intervalo entre a última aula prática e a prova diminuir minha atenção. Mas a outra metade é culpa da porra da autoescola, que mais uma vez me informou mal e me sacaneou muito, mas muito feio. Isso porque após um mês e meio parado, eu estava contando com a prática do dia que, segundo meu instrutor, aconteceria enquanto os alunos aguardavam a vez de ir para a fila do circuito. É claro que não teve. É claro que podia ter, tinha moto (mais de uma) disponível, tinha capacete, eu tinha a grana pra pagar, mas o instrutor que estava lá (não era o meu, pra piorar) fez um enorme esforço para me forçar a "ajudá-lo a me ajudar." Em nenhum momento ele disse nada nesse sentido, mas ele certamente fez bastante esforço para dificultar as coisas para mim, ao mesmo tempo que me olhava com cara de debochado. Nunca na minha vida tive tanta vontade de socar alguém!

Resultado: errei um dos cones logo de saída. Um erro inevitável pra quem passou tanto tempo sem treinar (coisa que aliás é efeito direto da sistemática do Detran, que exige as 15 aulas completas para poder marcar a prova, e sempre abre a marcação 45 dias antes dos exames), e que jamais aconteceria se eu tivesse dado uma mísera volta com a moto de treino antes de pegar o circuito oficial. Não comentei antes porque nem sei o que eu faço agora, minha vontade era desistir, mas eu inventei de fazer a inclusão de categoria junto com o vencimento da carteira, então enquanto eu não conseguir passar na porra da prova, nem carteira de motorista tenho mais. E isso me irrita mais ainda por saber que continuarei dependendo dos pela-sacos da autoescola, pelo menos por hora. Juro que quando isso terminar eu taco uma bomba naquela merda.

E eu que achava que corretores de imóveis eram escrotos.


Wind

6.10.08

Uma vez, quando eu tinha coisa de 4 ou 5 anos de idade, meu pai me conta que uma vez cheguei contrariado do colégio e, quando ele me perguntou o que tinha acontecido, eu disse que queria sair da escola porque eu já sabia tudo. Claro que eu só estava tendo dificuldades em aceitar o ritmo mais lento de aprendizado do resto da sala, entendia as coisas logo de primeira e ficava entediado o resto da aula enquanto as professoras repetiam várias vezes a mesma coisa. Mas a minha sensação naquela época era sincera. De que eu já sabia tudo que existia para se saber e podia seguir com minha vida.

O que é o oposto do que eu sinto hoje em dia. Quanto mais o tempo passa, mais as coisas se desenrolam de forma inexplicável para  mim e mais eu percebo que não entendo de nada, nem do que eu tinha certeza entender. Mais e mais eu sinto que nada do que me falam, do que me ensinam, do que me afirmam, nada é correto. Mesmo as coisas que eu aprendo através da experiência, do método científico, se provam incorretas a longo prazo. E nesse ambiente volátil e imprevisível, eu estou sempre tomando na cabeça por fazer planos, projeções, e criar expectativas.

Antigamente, antes da Ritalina, eu era incapaz de responder a qualquer pessoa aonde eu pretendia estar em 5 anos. Ou em 1 ano que fosse. 6 meses! Eu respondia que não sabia nem se estaria vivo na semana seguinte. E era verdade - depois da infância itnerante que eu tive, era uma imensa dificuldade projetar qualquer coisa para o futuro. Tudo sempre mudava completamente em 2 anos no máximo.

Depois que tomei as rédeas da minha vida e depois de um período de adaptação, me certificando que nada mais mudaria drasticamente contra minha vontade, eu comecei a construir um futuro e realmente fazer planos e projeções para os anos vindouros. Me sentia seguro e amparado, e certo de que eu sabia o suficiente do funcionamento das coisas para ousar traçar uma rota e seguí-la até o fim.

E de repente, depois de tanto tempo, uma tempestade maluca vinda do além virou o barco, quase me afogou, e me jogou junto com os destroços para algum lugar desconhecido e de onde eu não sei como sair. A rota que eu seguia foi tão obliterada que eu não sei nem mais pra que lado estou apontando. Eu achei que sabia navegar. Fiz tudo direitinho, segui todas as regras, li todos os sinais. E agora sou só um náufrago esperando resgate, mas sem fazer idéia de pra onde devo ir - ou voltar.

29.9.08

Se existe uma razão para a nossa existência, se não somos apenas uma consequência do acaso, então a verdade é que acabei de decifrar minha vida. Ela é uma piada de mau gosto.

Algo como aquele português que ao ver a casca de banana na calçada à frente dá um suspiro e diz "ai, lá vou eu 'scoregaire na casca de banana outra vez!"

Esse sou eu. Dotado de uma capacidade fenomenal de percepção e incapaz de utilizá-la para evitar que eu passe pelas mesmas merdas de novo e de novo. Sempre me convencendo de que "ah, dessa vez é bobagem da minha cabeça." E nunca é. E eu sempre escorrego na porra da casca de banana e caio de mau jeito e quebro a bacia.

Espero que tenha alguém rindo, pelo menos terá valido a pena.

25.9.08

Eu queria muito saber exatamente quando minha vida deixou de ter capítulos inéditos e passou a ser uma sucessão de reprises ad nauseum, tipo uma sitcom dos anos 80.

Há quanto tempo eu estou revendo o mesmo filme passar, de novo e de novo, mudando apenas - e vagamente - a ordem das cenas?

Acho que nunca em toda a minha vida eu tive uma sensação tão forte de estar vivendo em círculos quanto hoje. Pela segunda vez, uma reestruturação gerencial me foi enfiada goela abaixo por alguém que chegou ontem e já tem uma idéia mirabolante de como fazer as coisas funcionarem melhor aqui no trabalho. Sem fazer o menor esforço para convencer os funcionários, sem agregar nenhum valor - pelo contrário, agora a responsabilidade que seria do chefe de divisão será distribuída pelos subordinados, que agora são autônomos e responsáveis por seus próprios projetos. Isso tudo, claro, mantendo o mesmo cargo e função atuais. E o argumento foi o melhor - "vai engrandecer vocês." Juro que tive que segurar a gargalhada.

E o pior é que o caos que se instaurou com a transição inesperada de estrutura vai fazer muitos projetos atrasarem e/ou falharem, o que significa que a recém-conquistada responsabilidade vai se traduzir em culpabilidade com 100% de certeza. Em suma - é uma cilada, Bino!

Não consigo nem começar a enumerara as razões pelas quais essa mudança foi um erro idiota. Mas não é esse o problema. O problema é que isso tudo já aconteceu, em 2006! E naquela vez não foi feita por um comissionado qualquer, foi feita pela FGV e a um custo bem alto. E foi uma merda!

Não aguento mais esse lugar, não aguento mais essa mentalidade idiota do funcionalismo público de que toda troca de quadro hierárquico tem necessariamente que trazer uma troca de organização e de políticas que visam "moralizar" ou "agilizar" o tribunal. Essa merda nunca vai ser ágil nem rápida, e não é por falta de vontade, mas por excesso. Porque todo mundo se acha o único gerente inteligente do judiciário federal e resolve rearrumar a casa inteira quando assume. E assim eu vou, de dois em dois anos, começando tudo de novo do zero.

Mas não consigo sair daqui. É um pesadelo logístico. Sempre depende de alguma coisa - minha graduação, a quitação das dívidas, etc. - e essas coisas sempre parecem cada vez mais distantes. Mesmo a despeito da minha consciência de que eu não podia me amarrar muito a esse lugar, que trabalhar aqui era um quebra-galho temporário, estou sempre cada vez mais atrelado a esse emprego e, principalmente, ao dinheiro que ele me dá.

Eu olho para trás e penso como eu fui burro de não sair em 2005, quando as dificuldades que eu teria que enfrentar ainda seriam totalmente administráveis. Antes de investir tanto em um projeto de vida a dois que, pra piorar, acabou não vingando. Aceitei ficar aqui para poder realizar sonhos, mas eu caí da cama e quando dei por mim, estava com a cara no chão e com os pés acorrentados a esse transatlântico furado.

Acho que está na hora de cogitar mudanças mais radicais de vida. Bem mais radicais.



Wind

15.9.08

E lá vamos nós de novo. Peço desculpas aos eventuais leitores, como sempre, por mais um desabafo blogado. Mas a verdade é que desabafos fazem parte desse blog, basta olhar o histórico para ter uma idéia. Aliás, por mais que eu tente sempre dar um rumo mais coeso para esse treco, a verdade é que ele reflete a minha própria pluralidade. E isso é bom, porque mais de uma vez eu já recorri ao histórico de posts para reavaliar sob outra ótica os momentos que eu já vivi - impressos não apenas nos posts enormes e filosóficos, mas também nas entrelinhas dos posts corriqueiros. O blog é meu espelho, e como qualquer espelho, nunca reflete o que queremos ser, só o que somos.

E o que eu sou - já fui, estou tornando a ser - é uma pessoa ancorada a uma rocha pesada e que atravanca meu progresso. Desde as recentes reviravoltas da minha vida - que certamente não são novidade para ninguém - estou me sentindo novamente como naquela longínqua época pré-Ritalina. E o pior é que agora não tem comprimido que resolva miraculosamente. Essa rocha, só o tempo vai erodir.

Por um lado, não me deixo prejudicar tanto por ela, porque tenho longa experiência em arrastar pesos pela vida afora. Mas por outro lado, tudo o que eu conquistei desde que iniciei meu tratamento está por um fio. Novamente sou incapaz de manter o foco, de prolongar esforços, de acompanhar raciocínios... só que agora tenho compromissos com a concentração que precisam ser honrados. Sou o único responsável por várias frentes de trabalho no tribunal, estou entrando no último ano da faculdade, e um deslize agora pode botar muita coisa a perder.

Também tenho plena consciência de que o peso foi colocado por mim, e só pode ser retirado por mim. Mas entre conhecer a solução e alcançá-la sempre existe uma barreira invisível, porém poderosa. Porque quanto mais ancorado eu me sinto, menos vontade eu tenho de reagir. Pode parecer idiota, mas é um efeito comum no meu dia. Sua manifestação mais clássica é também a mais irônica: a despeito de todas as histórias sobre dependência química causada pela Ritalina, confesso que só tomo o remédio diariamente por pura disciplina. Porque assim que o efeito passa (e passa de 4 em 4 horas, então eu tenho que tomar outra) o que acontece é que eu me convenço que não preciso de outra. E quanto mais enevoada fica a cabeça, quanto mais me esvai a capacidade de prestar atenção, mais difícil pra mim é o simples ato de pegar outro comprimido e tomar. Existem alternativas, comprimidos que têm dissolução lenta que se estende por 12 horas, e evitam esses vales ao longo do dia. Por que eu não tomo? Acho caro. Não consigo priorizar, sempre tem algum gasto (ou economia) mais importante.

Minha maior dificuldade atualmente é escapar das armadilhas do instinto, que insiste em me levar a situações viciosas. É difícil, por exemplo, me forçar a sair e ver pessoas no fim-de-semana, quando o instinto me diz que eu quero mesmo é ficar sozinho. E aí, quanto mais tempo sozinho eu passo, mais deprimido eu fico e, por consequência, mais avesso à idéia de sair ou de falar com alguém. E por mais que eu evite essa situação 90% das vezes, os outros 10% são suficientes para acabar comigo.

É foda, saber exatamente o quadro clínico e o tratamento para o que se está sentindo, mas ser incapaz de aplicar. Isso sem falar nas tentativas fracassadas de resolução. Porque eu ainda tenho um certo nível de ingerência sobre a situação toda, mesmo que se resuma a escolher entre duas dores qual eu prefiro sentir. Havia escolhido uma, que se mostrou insuportável, e corri para a outra na esperança de ter algum alívio momentâneo na troca. Mas não faz diferença. Seja qual for a natureza e o ponto de efeito, a dor suga as mesmas energias. Trocar, digamos, uma dor de cabeça muito forte por um braço quebrado, apesar de parecer inteligente na hora, no fim das contas não tem qualquer outro efeito além de machucar você em dois lugares ao invés de um só.

E assim eu vou seguindo. Tentando não parar para não assentar a pedra e ter que vencer o coeficiente de atrito outra vez quando precisar continuar. Mas não consigo fingir que a dor não existe, nem dispensar menos atenção a ela. E não consigo estar 100% enquanto não cortar as amarras. Acho que nem 50% eu consigo atualmente. Só espero que tenham paciência comigo. Juro que estou me esforçando!


Wind

8.9.08

Tem dias que nem toda a convicção do mundo consegue evitar que a gente caia no buraco e se estrepe lindamente. Hoje, a chuva, o sono, a agressividade gratuita alheia e a solidão se somaram pra me vencer.

9.7.08

Pouca gente imagina, mas por baixo de todas as camadas de civilidade, moral, educação e sofisticação da minha alma, tem um pequeno santuário dedicado a todas aquelas coisas guturais e inerentes da natureza animal do ser humano. Uma espécie de área reservada para esses sentimentos todos se projetarem e fazerem o que quiserem, criando as mais elaboradas situações hipotéticas aonde não há limites ou consequências.

Vocês não fazem idéia do tipo de merda doente que está rolando lá nesse momento!

14.6.08

Como é frustrante o fato de não termos ingerência sobre o livro de nossas vidas. O mínimo que eu esperava era ser o autor da minha própria história, mas quis o destino que uma mão fantasmagórica do além surgisse e escrevesse um capítulo horroroso e violento à minha revelia. Eu não quero esse capítulo! Ele não combina com o roteiro, avacalha com o desenvolvimento dos personagens, pulveriza a continuidade! Como eu faço pra apagar essa merda de trecho agora que escreveram ele por mim?!

Inferno de universo que não tem backspace.

28.1.05

É... aniversário...

Esse aniversário não tá sendo nem de longe o aniversário que meu ano de 2004 merecia. Mas quer saber? Dane-se, eu tenho minha Jobinha do meu lado agora, estou muito feliz, tranquilo, não preciso de mais nada.

Na verdade, talvez de uma massagem nas costas. Mas isso eu consigo fácil, então realmente não me falta nada.


E ai do primeiro engraçadalho que fizer piadinha com minha idade!!!


Wind

5.5.04

PÔÔÔRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!

Caralho, que MERDA!! Paguei 30 e tantos pela inscrição no vestibular da UERJ e PERDI O PRAZO DE ENVIO DO CARTÃO!!!! E tudpo porque eu ando TÃO ocupado que comprei a parada e nem tive tempo de ler... mas tava crente que tinha PELO MENOS uma semana de intervalo entre o fim da data pra comprar e pra enviar...

Tudo bem que tem outra chance no fim de julho, mas o que me dá mais ÓDIO é que eu gastei a MERDA da taxa pra nada!!!

PUTAQUEPARIUBUCETA!!!!

ódio, ódio, ódio....



Wind, estressado

12.11.03

Saí de casa cedo hoje, pensando em coisas do trabalho, pensando na minha namorada, enfim. Era um dia normal. Até eu passar pela banca de jornais e dar uma olhada nas manchetes de hoje. E estava lá estampado em quase todas as primeiras páginas, o absurdo daquele caso dos namorados assassinados em SP. Pior do que isso, na capa do maldito Extra, havia uma sinopse contando em detalhes sórdidos que eu não repetirei aqui, o processo de tortura que a pobre menina de 16 anos sofreu durante 2 dias antes de ser morta a facadas. Sem exagero, me deu um enjôo, uma vontade de vomitar, fiquei desnorteado a ponto de ter que perambular pela rua durante mais de 40 minutos antes de conseguir tomar o rumo do trabalho outra vez. Gostaria de dizer que a culpa é do sensacionalismo barato de certos jornalecos, mas o sensacionalismo é só uma consequência tanto da sede mórbida dos leitores por sangue, quanto das barbaridades que são cometidas. E o pior, o pior de tudo, é que a coisa que cometeu essa brutalidade é um menor. 16 anos. Que disse que matou porque quis, e vai ficar por isso mesmo, no máximo pega uma FEBEM da vida e escapa na primeira rebelião do semestre.

Eu queria muito, mas muito mesmo, que os jornalistas escrotos que sempre conseguem tirar fotos invasivas de 'celebridades', conseguissem ao menos uma vez fazer algo correto e estampassem uma foto desse infeliz no jornal. Queria ver a cara dele. Só pra me dar o prazer de imaginar vinte mil maneiras possíveis de acabar com a raça desse escroque, essa bosta abortada que pensa que é gente. Não que eu seja a favor da pena de morte, pelo contrário, a morte é uma pena muito duvidosa. Vai saber se realmente existe alguma justiça além dela. Não, morte é um alívio que esse bastardo não teria. Se eu ponho minhas mãos nele, ele estaria implorando pra morrer. Ele estaria morto muito antes de parar de respirar. Um monstro desses, deve-se matar a alma, que é pra não dar nenhuma chance de reencarnar ou de evoluir pra outro plano.

É bem diferente ser um criminoso frio e calculista, sem respeito pela vida, de ser uma abominação como é esse moleque. Tortura e abuso sexual não são crimes de quem não respeita a vida. São crimes de quem respeita e compreende TANTO, que sabe exatamente como destruí-la da maneira mais dolorosa possível. Mas mesmo os torturadores da Ditadura Militar, em sua grande maioria, foram ensinados a torturar. Esse merda não. Ele tem 16 anos, ele fez porque quis. Tem muita gente que não acredita no Mal. Eu só acho que o Mal é um conceito excessivamente utilizado, facilmente banalizado. Mas ele existe. E é inconfundível quando se manifesta.

Eu tenho um problema sério, eu não consigo me desligar das coisas que leio ou que vejo, eu vivencio todas as situações vividas por qualquer pessoa ao meu redor, involuntariamente. Enquanto isso é bom do ponto de vista humanitário, é uma merda quando a gente absorve o sofrimento dos outros. Por outro lado, isso faria de mim um ótimo torturador. Basta apenas eu realmente querer destruir uma pessoa, basta que eu realmente, realmente odeie. Felizmente, estar me botando na pele dos outros o tempo todo faz com que eu seja muito compreensivo com tudo, então é praticamente impossível merecer meu ódio.

Mas esse infeliz desse moleque merece. E não tem nada que me impeça de causar muita, MUITA dor a ele, se ele esbarrar comigo.




Wind