Aos pais de merda
Sempre soube que a paternidade mudava radicalmente a nossa vida, mas confesso que minha rica e intensa experiência tem me moldado para caminhos que eu não esperava. Nunca fui, por exemplo, dado a rótulos como "de merda." Raramente na vida considerei alguém digno de ser ser denegrido a esse ponto, porque sempre fui compelido por uma vocação de alma a analisar todos os pontos de vista de uma questão e entender as causas ao invés de julgar os efeitos. Claro, isso nunca me impediu de aplicar a pecha a alguns desafetos com a intenção específica de desabafar, mas realmente considerar alguém um merda, até hoje tinha sido difícil. Todo tipo de falha de caráter ou de amoralidade que eu presenciei pessoalmente tinha alguma base ou justificativa torta em fraquezas corriqueiras do ser humano. Todo mundo tinha alguma lógica para se considerar protagonista da própria vida e eu em geral entendia e respeitava essas coisas, afinal, cada um sabe a dor e a delícia (ou o inferno) de ser o que é.
Mas agora que sou pai, e avaliando a meu redor a capacidade de outros pais de desestruturar e causar dor a seus filhos - que infelizmente tenho testemunhado bem mais do que eu gostaria - eu sei que não existe justificativa, por mais remota que seja, para massacrar quem você mesmo botou no mundo. Ninguém pede para nascer, mas também ninguém é obrigado a procriar. O prazer envolvido no ato, a vocação genética, nada disso pode ser usado como desculpa no século XXI com inúmeras alternativas acessíveis para foder sem conceber. A partir do momento em que se inflige a vida (por assim dizer) a alguém, essa vida está na sua conta pelo resto dos seus dias. Fazer miserável essa vida que também não lhe pediu para nascer, é ser sim um merda no sentido amplo e profundo do termo. Um merda com pedigree.
A maioria dos pais de merda justificam sua própria incompetência com a incompetência de seus próprios pais, o que é a coisa mais merda a se dizer na vida. Que tipo de escroto repassa uma violência sofrida a um terceiro inocente? Uma variação dessa corja são os filhos de pais de merda que decidem que criarão seus filhos da forma exatamente oposta à que foram criados, uma armadilha muito comum entre os ineptos de bosta que criam pequenos monstrinhos. Dica para quem planeja fazer isso com seus próprios filhos: O oposto de um erro não é necessariamente um acerto. Por "não necessariamente" leia-se "quase nunca."
Outra grande babaquice que pais de merda dizem para justificar o injustificável é jogar a culpa da relação degradante nos filhos, tratá-los como se fossem casos perdidos, decepções, potenciais que fracassaram. Esses putos esquecem que se seus filhos são deficientes em algum aspecto, é basicamente porque eles foram incapazes de formá-los a contento. Muitos idiotas acham que um bebê é uma esponja que eles podem preencher com o que quiserem, um autômato que nascerá compreendendo comandos verbais e que viverá em função dos sonhos e ambições (muitas vezes transferidos das próprias frustrações) dos pais. É impressionante que isso seja surpresa para alguém, mas bebês nascem com personalidade própria. O aprendizado do ser humano acontece em fases bem distintas e apenas a última delas, se tanto, envolve a aceitação de lições verbalizadas. E mesmo essa aceitação é indireta, complexa, sujeita aos caprichos da alma da criança. Pais que falham em reconhecer isso e posteriormente oprimem seus filhos com cobranças, antagonismos e decepção, são duplamente merdas por terceirizar a própria inaptidão. Covardes de merda.
Inclusive, vai aí a dica mais valiosa que eu posso dar para alguém nesse momento da minha vida, algo que realmente ficou muito evidente depois que virei pai. Pessoas que ainda estão naquele estágio de terminar relacionamentos por incompatibilidade, por favor evitem ter filhos. Claro que a paternidade (ou maternidade) pode ter um efeito mágico e causar um amadurecimento instantâneo que a viabilize, mas se isso não acontecer, as chances de você se tornar um pai ou mãe de bosta são grandes. Seus filhos terão um relacionamento com você tão intenso quanto qualquer casamento, possivelmente mais. Eles vão ter horários diferentes dos seus. Vão demandar mais do que oferecem em troca por grande parte da vida. Todos, sem exceção, são egocêntricos (que ao pai de merda parece egoísmo) por algum tempo, todos estão aprendendo a ouvir, falar, ler, contar, tudo ao mesmo tempo e tudo do zero. Todos nascem num ciclo de subsistência básico e só com o tempo vão lapidando a moral e o caráter. Todos vão torrar seu dinheiro, dominar sua casa, contestar suas decisões e, depois de anos dessa relação sugadora e acorrentadora, se a natureza seguir seu curso padrão, eles trocarão seu afeto pelo de outra pessoa, normalmente bem mais jovem.
Então, se você não está preparado para amar dessa forma, se não consegue se imaginar passando anos ao lado de alguém que ultrapassa todos os seus limites e que não abre brechas para repensar relacionamento ou espairar, então evite ter filhos. Mesmo. Eu diria até "não tenha," uma postura radical dessas inviabilizaria a existência de duas das coisas mais preciosas da minha vida, o que significa que algumas pessoas podem fazer um enorme bem apesar de seus pais de merda. Mas não posso endossar de forma alguma o tipo de sofrimento a que o filho de um merda é submetido. Sei que sofrimento é importante e engrandece a alma, mas fontes de sofrimento nesse mundo não faltam, a família não precisa fornecer ESSE aprendizado.
Eu, felizmente, estou pronto. E para quem sabe do que se trata e aceita os termos do contrato, ser pai é a melhor coisa do mundo.
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15.10.10
7.4.10
Carta ao bebê
Filho(a),
Eu sei que você só vai receber essa carta daqui a uns 8 meses, e que só vai ser capaz de lê-la mais uns tantos anos adiante. Mas seu pai tem pressa de te contar sobre todas as coisas que você já está fazendo com ele antes mesmo de sabermos se você é um menino ou uma menina. Desde que nós descobrimos que você estava a caminho, tanta coisa aconteceu que eu mal tive tempo de me concentrar em você, mas a verdade é que eu não aguento mais esperar para te conhecer. E olha que ainda falta uma eternidade!
Você veio de surpresa, apressadamente, nem esperou seus pais se organizaram para morar juntos, mas não posso em sã consciência dizer que você não foi um bebê planejado. Já falávamos de você há algum tempo, seu nome sempre figurando dos nossos planos futuros de sermos uma família feliz. E quando eu descobri que você havia furado a fila e resolvido vir até nós antes do tempo, minha vida mudou tão de repente e tão completamente que me fez descobrir todo um novo universo.
Eu sempre soube que queria ter filhos, mas nunca parei para pensar no porquê. Sempre foi algo meio arraigado no meu conceito de família. E de repente, tudo fez sentido. Sabe, seu pai sempre viveu a vida aproveitando cada detalhe dela, sempre olhou para o mundo com olhos inquisitivos e sempre direcionou a própria vida no sentido das descobertas. Sou um pai curioso. Vivi nesses quase 30 anos que separam nossas chegadas ao mundo mais vidas do que muita gente vive em 80. Morei em muitos lugares, tive muitas turmas, muitas casas, muitas aventuras. E dentro da minha cabeça, foram outras tantas, vividas pelos livros, pelos filmes, pelo faz-de-conta. Mais do que uma narrativa linear, para mim a vida é feita de cheiros, cores, sons, sensações. Mecanismos. Pessoas que vêm e vão e as marcas que elas deixam. Só que os anos foram trazendo compromissos e levando liberdades, como é natural da vida adulta. O potencial infinito se torna uma realidade finita, e o tempo para prestar atenção nas cores e para construir mundos no faz-de-conta fica escasso, roubado pelas responsabilidades.
E no momento em que eu descobri que ia ser pai, foi como se, subitamente, eu tivesse a chance de redescobrir o mundo pelos seus olhos, pelo seu sorriso, seu choro, seu abraço. Subitamente as responsabilidades da vida adulta ganharam um propósito simples e que tudo justifica, que é te dar seus 30 anos de sensações, descobertas e aventuras, para que você também curta esse mundo que, apesar dos pesares, pode ser muito divertido. E eu posso dizer que tenho uma certa pena, hoje em dia, de pessoas que têm filhos sem desejar isso. É uma experiência que não deve fazer sentido para quem encara a vida como uma série de dificuldades.
Eu sei que provavelmente vou passar a maior parte do meu tempo me preocupando com sua educação, com sua formação moral e com sua saúde e bem-estar, mas a vontade que eu sinto mesmo lá no fundo é de me tornar criança de novo e crescer junto com você, compartilhando as brincadeiras, as histórias, as aventuras, sendo seu melhor amigo. E claro que eu sei que você crescerá num mundo diferente do meu, numa época diferente, mas eu quero muito que você veja e sinta tudo o que eu vi e senti, mesmo que com detalhes e circunstâncias diferentes. Não vou ser desses pais que ficam insistindo pros filhos brincarem das mesmas coisas que brincavam em sua época, nem vou te levar pros mesmos lugares onde eu cresci (até porque, muitos deles nem existem mais), mas cada vez que você pousar seus olhinhos curiosos sobre algo novo, pode ter certeza que eu vou estar fixado e mergulhado no reflexo das suas íris (que nem sei que cor terão), tentando enxergar o mundo que você enxerga.
Espero que você goste de mim como eu já gosto de você. Que nós nos demos bem, porque um dia teremos que nos separar para que você mesmo(a) siga sua vida adulta como você decidir, e a partir daí nossa relação simbiótica se quebra e só o que resta é a amizade que, espero, nascerá ao longo dos próximos anos. De minha parte, eu já te amo de uma forma louca e diferente de qualquer outro amor que eu já experimentei, porque estou acostumado a conhecer as pessoas de fora para dentro, e você eu vou conhecer de dentro para fora, assistir ao nascimento das suas idiosincrasias, seus traços, manias e - espero que poucas - cicatrizes. Já você, vai me ter como ícone por algum tempo antes de começar a finalmente me conhecer, quando a inevitável adolescência chegar. Espero não te decepcionar muito.
E é isso. Estou ansioso para começarmos, tenho grandes planos para nós, planos que certamente serão refeitos muitas e muitas vezes, mas nunca abandonados, porque ser pai é uma ocupação integral e, agora que eu virei um, não abro mão de ser tão cedo. Na verdade, eu quero é ser logo. Tome seu tempo aí na barriga da mamãe, mas não demore muito, estou contando as horas para o nosso primeiro abraço.
Seu pai.
Rio de Janeiro, 07 de Abril de 2010
Filho(a),
Eu sei que você só vai receber essa carta daqui a uns 8 meses, e que só vai ser capaz de lê-la mais uns tantos anos adiante. Mas seu pai tem pressa de te contar sobre todas as coisas que você já está fazendo com ele antes mesmo de sabermos se você é um menino ou uma menina. Desde que nós descobrimos que você estava a caminho, tanta coisa aconteceu que eu mal tive tempo de me concentrar em você, mas a verdade é que eu não aguento mais esperar para te conhecer. E olha que ainda falta uma eternidade!
Você veio de surpresa, apressadamente, nem esperou seus pais se organizaram para morar juntos, mas não posso em sã consciência dizer que você não foi um bebê planejado. Já falávamos de você há algum tempo, seu nome sempre figurando dos nossos planos futuros de sermos uma família feliz. E quando eu descobri que você havia furado a fila e resolvido vir até nós antes do tempo, minha vida mudou tão de repente e tão completamente que me fez descobrir todo um novo universo.
Eu sempre soube que queria ter filhos, mas nunca parei para pensar no porquê. Sempre foi algo meio arraigado no meu conceito de família. E de repente, tudo fez sentido. Sabe, seu pai sempre viveu a vida aproveitando cada detalhe dela, sempre olhou para o mundo com olhos inquisitivos e sempre direcionou a própria vida no sentido das descobertas. Sou um pai curioso. Vivi nesses quase 30 anos que separam nossas chegadas ao mundo mais vidas do que muita gente vive em 80. Morei em muitos lugares, tive muitas turmas, muitas casas, muitas aventuras. E dentro da minha cabeça, foram outras tantas, vividas pelos livros, pelos filmes, pelo faz-de-conta. Mais do que uma narrativa linear, para mim a vida é feita de cheiros, cores, sons, sensações. Mecanismos. Pessoas que vêm e vão e as marcas que elas deixam. Só que os anos foram trazendo compromissos e levando liberdades, como é natural da vida adulta. O potencial infinito se torna uma realidade finita, e o tempo para prestar atenção nas cores e para construir mundos no faz-de-conta fica escasso, roubado pelas responsabilidades.
E no momento em que eu descobri que ia ser pai, foi como se, subitamente, eu tivesse a chance de redescobrir o mundo pelos seus olhos, pelo seu sorriso, seu choro, seu abraço. Subitamente as responsabilidades da vida adulta ganharam um propósito simples e que tudo justifica, que é te dar seus 30 anos de sensações, descobertas e aventuras, para que você também curta esse mundo que, apesar dos pesares, pode ser muito divertido. E eu posso dizer que tenho uma certa pena, hoje em dia, de pessoas que têm filhos sem desejar isso. É uma experiência que não deve fazer sentido para quem encara a vida como uma série de dificuldades.
Eu sei que provavelmente vou passar a maior parte do meu tempo me preocupando com sua educação, com sua formação moral e com sua saúde e bem-estar, mas a vontade que eu sinto mesmo lá no fundo é de me tornar criança de novo e crescer junto com você, compartilhando as brincadeiras, as histórias, as aventuras, sendo seu melhor amigo. E claro que eu sei que você crescerá num mundo diferente do meu, numa época diferente, mas eu quero muito que você veja e sinta tudo o que eu vi e senti, mesmo que com detalhes e circunstâncias diferentes. Não vou ser desses pais que ficam insistindo pros filhos brincarem das mesmas coisas que brincavam em sua época, nem vou te levar pros mesmos lugares onde eu cresci (até porque, muitos deles nem existem mais), mas cada vez que você pousar seus olhinhos curiosos sobre algo novo, pode ter certeza que eu vou estar fixado e mergulhado no reflexo das suas íris (que nem sei que cor terão), tentando enxergar o mundo que você enxerga.
Espero que você goste de mim como eu já gosto de você. Que nós nos demos bem, porque um dia teremos que nos separar para que você mesmo(a) siga sua vida adulta como você decidir, e a partir daí nossa relação simbiótica se quebra e só o que resta é a amizade que, espero, nascerá ao longo dos próximos anos. De minha parte, eu já te amo de uma forma louca e diferente de qualquer outro amor que eu já experimentei, porque estou acostumado a conhecer as pessoas de fora para dentro, e você eu vou conhecer de dentro para fora, assistir ao nascimento das suas idiosincrasias, seus traços, manias e - espero que poucas - cicatrizes. Já você, vai me ter como ícone por algum tempo antes de começar a finalmente me conhecer, quando a inevitável adolescência chegar. Espero não te decepcionar muito.
E é isso. Estou ansioso para começarmos, tenho grandes planos para nós, planos que certamente serão refeitos muitas e muitas vezes, mas nunca abandonados, porque ser pai é uma ocupação integral e, agora que eu virei um, não abro mão de ser tão cedo. Na verdade, eu quero é ser logo. Tome seu tempo aí na barriga da mamãe, mas não demore muito, estou contando as horas para o nosso primeiro abraço.
Seu pai.
Rio de Janeiro, 07 de Abril de 2010
27.12.08
Enquanto escrevo esse post, estou sentado em uma confortável pedra em formato de sofá, no meio do pasto do sítio dos meus avós, lutando para enxergar algo no monitor apesar do sol ofuscante. Tentei escrevê-lo ontem à noite, mas infelizmente, a despeito dos avanços tecnológicos da última década, sinal de celular (e, consequentemente, internet móvel) aqui só existe do lado de fora da casa, e na curta trégua que a chuva deu ontem, um incidente com uma aranha armadeira que resolveu veriricar de onde vinha tanto brilho e pulou no meu monitor abortaram precocemente meu projeto de blogada. Pelo menos agora está seco e o brilho do monitor, que quase não é suficiente para furar o antireflexo, não vai atrair nenhum aracnídeo peçonhento curioso.
É justo questionar o que de tão importante eu teria para escrever que me fizesse enfrentar a natureza em busca de um resquíscio de modernidade, tão malvisto nestes recantos bucólicos do planeta. O que me motivou foi justamente o lugar. O sítio dos meus avós, Santana do Serrano, carinhosamente conhecido como Bauzinho pela família Savastano. Bauzinho porque ele tem uma vista privilegiada da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí. Meus avós compraram esse lugar quando eu ainda tinha uns 6 anos de idade. Permutaram pela casa aonde meu pai e alguns dos tios nasceram, e aonde nós (eu e minhas irmãs, uma das quais recém-nascida) tínhamos brevemente residido antes de irmos para o Rio em 86. Desde que consigo me lembrar, o Baú tem sido palco das festas mais divertidas da família, e das viagens mais memoráveis. E sempre que eu piso aqui eu me pergunto por que diabos eu tenho vindo cada vez menos para cá.
Por um lado, tem a ver com o inevitável crescimento da família. Sou o neto mais velho e sempre tive uma exclusividade limitada de direitos na casa da minha avó. Também fui o responsável por desbravar vários caminhos não trilhados, o que evidentemente sempre facilitou a vida dos meus primos e irmãos mais novos. É uma troca justa, mais privilégios e mais responsabilidades. Mas hoje em dia quase todos os 24 (com mais um a caminho!) netos de D. Ângela são maiores de idade, vacinados, e com seus róprios planos para feriados prolongados. Por consequência, graças a uma política social velada, o sítio acabou sendo "herdado" pela segunda geração de netos. E o fato de nunca conseguir uma data que já não estivesse ocupada pelos jovens em questão me fez desencanar um pouco de vir para cá ou trazer amigos (até porque, conseguir agendar outra data importante como o Reveillon de 99 só para mim e para amigos meus provavelmente nunca acontecerá)
Mas por outro lado, não consigo deixar de sentir que parte da culpa é minha. Eu nunca encontrei um lugar para o sítio na minha autoproclamada "vida adulta." E aqui no meio do nada, com vento no rosto e ouvindo a algazarra dos pássaros, eu começo a desconfiar que o que eu fiz foi bloquear uma parte de mim que sempre pertenceu a esse lugar. Porque essa é a parte infantil que vê qualquer buraco no mato como um convite à exploração, um portal para uma aventura fantástica; que associa cada barulho a um ser folclórico ou mitológico, um fantasma ou um alienígena furtivo; que deita na grama para olhar as estrelas e sente que a qualquer momento a gravidade pode se inverter e eu posso cair no vazio imenso.
Tem muitos sonhos inacabados perdidos entre as árvores do quintal e entre as pedras do riozinho. Grandes sagas que eu levava comigo e que continuavam de onde tinham parado sempre que eu botava os pés aqui de novo. Grandes certezas, como a de que eu estava cada vez mais próximo de conseguir levitar ou virar um peixe e respirar embaixo d'água (só precisava ser um pouco mais velho). Grandes amores platônicos da infância e da adolescência que viravam fantasias românticas bestas que sempre - sempre - aconteciam aqui. Nenhum deles teve desfecho, porque ficaram aqui esperando meu retorno, e eu não voltei mais. Até continuei aparecendo, eventualmente, mas sempre como um estranho, como um convidado na minha própria casa.
Não sei por que diabos eu decidi, consciente ou inconscientemente, que não iria mais revisitar meus sonhos. Mas uma coisa é certa. Aquele Rafael pequeno e delirante era muito mais corajoso do que eu. Os espinhos na mão, ralados no joelho, carrapatos na virilha, eram todos parte da diversão. Eram as dificuldades que potencializavam a vitória. Cada vez que eu saía da estrada e inventava uma trilha, eu tinha certeza que ia ficar ardido e incomodado por semanas com as escoriações, mas o impulso era irresistível. Tão diferente do que eu sou hoje!
Para variar, eu não me permiti ficar aqui muito tempo. Mal cheguei e já vou embora. Podia ficar mais, podia voltar para passar o ano novo, mas não ia adiantar muita coisa. Saber da minha dificuldade de conexão com o Baú não ajuda em nada a superá-la, infelizmente. Mas ao menos eu posso tentar levar para casa, no mínimo, esse post. E meditar sobre a lembrança de uma época em que, ao invés de desistir antecipadamente de tudo que requira esforço ou que vá causar dor, eu pulava de cabeça só pela emoção de superar.
É justo questionar o que de tão importante eu teria para escrever que me fizesse enfrentar a natureza em busca de um resquíscio de modernidade, tão malvisto nestes recantos bucólicos do planeta. O que me motivou foi justamente o lugar. O sítio dos meus avós, Santana do Serrano, carinhosamente conhecido como Bauzinho pela família Savastano. Bauzinho porque ele tem uma vista privilegiada da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí. Meus avós compraram esse lugar quando eu ainda tinha uns 6 anos de idade. Permutaram pela casa aonde meu pai e alguns dos tios nasceram, e aonde nós (eu e minhas irmãs, uma das quais recém-nascida) tínhamos brevemente residido antes de irmos para o Rio em 86. Desde que consigo me lembrar, o Baú tem sido palco das festas mais divertidas da família, e das viagens mais memoráveis. E sempre que eu piso aqui eu me pergunto por que diabos eu tenho vindo cada vez menos para cá.
Por um lado, tem a ver com o inevitável crescimento da família. Sou o neto mais velho e sempre tive uma exclusividade limitada de direitos na casa da minha avó. Também fui o responsável por desbravar vários caminhos não trilhados, o que evidentemente sempre facilitou a vida dos meus primos e irmãos mais novos. É uma troca justa, mais privilégios e mais responsabilidades. Mas hoje em dia quase todos os 24 (com mais um a caminho!) netos de D. Ângela são maiores de idade, vacinados, e com seus róprios planos para feriados prolongados. Por consequência, graças a uma política social velada, o sítio acabou sendo "herdado" pela segunda geração de netos. E o fato de nunca conseguir uma data que já não estivesse ocupada pelos jovens em questão me fez desencanar um pouco de vir para cá ou trazer amigos (até porque, conseguir agendar outra data importante como o Reveillon de 99 só para mim e para amigos meus provavelmente nunca acontecerá)
Mas por outro lado, não consigo deixar de sentir que parte da culpa é minha. Eu nunca encontrei um lugar para o sítio na minha autoproclamada "vida adulta." E aqui no meio do nada, com vento no rosto e ouvindo a algazarra dos pássaros, eu começo a desconfiar que o que eu fiz foi bloquear uma parte de mim que sempre pertenceu a esse lugar. Porque essa é a parte infantil que vê qualquer buraco no mato como um convite à exploração, um portal para uma aventura fantástica; que associa cada barulho a um ser folclórico ou mitológico, um fantasma ou um alienígena furtivo; que deita na grama para olhar as estrelas e sente que a qualquer momento a gravidade pode se inverter e eu posso cair no vazio imenso.
Tem muitos sonhos inacabados perdidos entre as árvores do quintal e entre as pedras do riozinho. Grandes sagas que eu levava comigo e que continuavam de onde tinham parado sempre que eu botava os pés aqui de novo. Grandes certezas, como a de que eu estava cada vez mais próximo de conseguir levitar ou virar um peixe e respirar embaixo d'água (só precisava ser um pouco mais velho). Grandes amores platônicos da infância e da adolescência que viravam fantasias românticas bestas que sempre - sempre - aconteciam aqui. Nenhum deles teve desfecho, porque ficaram aqui esperando meu retorno, e eu não voltei mais. Até continuei aparecendo, eventualmente, mas sempre como um estranho, como um convidado na minha própria casa.
Não sei por que diabos eu decidi, consciente ou inconscientemente, que não iria mais revisitar meus sonhos. Mas uma coisa é certa. Aquele Rafael pequeno e delirante era muito mais corajoso do que eu. Os espinhos na mão, ralados no joelho, carrapatos na virilha, eram todos parte da diversão. Eram as dificuldades que potencializavam a vitória. Cada vez que eu saía da estrada e inventava uma trilha, eu tinha certeza que ia ficar ardido e incomodado por semanas com as escoriações, mas o impulso era irresistível. Tão diferente do que eu sou hoje!
Para variar, eu não me permiti ficar aqui muito tempo. Mal cheguei e já vou embora. Podia ficar mais, podia voltar para passar o ano novo, mas não ia adiantar muita coisa. Saber da minha dificuldade de conexão com o Baú não ajuda em nada a superá-la, infelizmente. Mas ao menos eu posso tentar levar para casa, no mínimo, esse post. E meditar sobre a lembrança de uma época em que, ao invés de desistir antecipadamente de tudo que requira esforço ou que vá causar dor, eu pulava de cabeça só pela emoção de superar.
10.1.06
Eu tenho que dizer, meu pai é o melhor!! \o/
Aliás, pra quem por acaso ainda não soube por vias mais atualizadas de informação sobre minha pessoa, eu vou ser irmão de novo! :D Sim, eu também achei bizarro, ainda não caiu a ficha e acho que só quando os moleques estiverem chutando minha canela é que eu vou me dar conta.
Enquanto isso, se tiver alguém com saudade de ler textos de minha autoria (pretensão), eu criei um novo blog para falar sobre jogos eletrônicos e o mercado nacional. É meio específico, mas ao menos eu espero mantê-lo mais atual do que isso aqui.
Curiosos, favor se dirigirem a http://designerdejogos.blogspot.com/
Wind
Aliás, pra quem por acaso ainda não soube por vias mais atualizadas de informação sobre minha pessoa, eu vou ser irmão de novo! :D Sim, eu também achei bizarro, ainda não caiu a ficha e acho que só quando os moleques estiverem chutando minha canela é que eu vou me dar conta.
Enquanto isso, se tiver alguém com saudade de ler textos de minha autoria (pretensão), eu criei um novo blog para falar sobre jogos eletrônicos e o mercado nacional. É meio específico, mas ao menos eu espero mantê-lo mais atual do que isso aqui.
Curiosos, favor se dirigirem a http://designerdejogos.blogspot.com/
Wind
6.9.05
This used to be my Playground
É isso. O último castelo da minha infância se foi. Até o fim do mês, tudo o que eu vivi naquela imensa casa, tão fora de escala, tão fora do mundo que a cercava, vai estar enterrado, aplainado e tomado por uma escola. Assim, súbito, inesperado, mas não rápido o suficiente que me impeça de sofrer. Aliás, na dose certa para ser horrível.
Desde que eu me conheço por gente - antes disso, até - a casa da minha avó foi uma realidade paralela. Ficava em São José dos Campos, SP, mas nem parecia. Só muitos anos depois eu fui sequer saber como era a cidade do lado de fora dos muros de pedra. Ela era uma cidade contida em si, um mundo à parte. Imensa - a maior casa que já conheci e já visitei, sem sombra de dúvida - de paredes grossas, salas imensas, corredores e escadas mil. Havia lugares naquela casa que eu nem sequer conhecia - ainda há hoje, pelo menos um cômodo, o segundo sótão, em que eu jamais entrei. Lá, a realidade se fundia com meus sonhos de passagens secretas, túneis subterrâneos, tesouros escondidos. Lá, mais de meia centena de crianças cresceram e viveram, correndo desembestadas pelos corredores, descendo a ladeira proibida, pulando na piscina, correndo atrás dos cachorros (e vice-versa), explorando o porão do salão de festas como arqueólogos que descobrem a tumba do pai de Tutancâmon! (e era bem capaz dele estar ali, mesmo).
Lá, as vozes altas e vigorosas da família italianíssima ecoavam e retumbavam pelos cômodos. Cada natal, cada aniversário, cada pequena festa lá era um evento, com tantos parentes reunidos, todos animados, gritando, berrando, tantas crianças pulando e rindo. Passei todas as fases da vida lá. Nunca, nem quando eu morei em Salvador, eu passei mais de um ano sem botar os pés naquela casa. Ela me viu em todas as fases. Sentiu todos os meus humores, presenciou meus choros escondidos, embalou meu sono, riu da minha revolta com os mosquitos que a infestam e que me roubaram várias noites preciosas... me viu passar sonolento por lá por incontáveis domingos à noite, voltando do sítio e a caminho de São Paulo. Me ralou, escoriou, bateu e inchou cada vez que eu, criança sem freio, me arrebentava em seu chão de ardósia ou seus postes. Rachou minha cabeça com uma grade certa vez. Nem por um instante fiquei menos íntimo dela.
Conheço cada cantinho esquecido daquele lugar, e olha que existem muitos! Sei o que tem atrás de cada canteiro, embaixo de cada caixa jogada na Garagem ou no salão... conheci e brinquei com 20 mil cachorros que se revezavam vivendo lá em cada época, convivi com primos que eram quase irmãos, e sempre os reencontrei, mesmo que só de passagem, cada vez que voltei lá. Criei ódio do clima de buxixo, da fofoca velada, das intrigas familiares que eram uma faca no meu coração. Aprendi que os primos que se lascavam de bicicleta ao redor da piscina também cresceram, e eram agora os primos que saíam para sentar no boteco e jogar sinuca. Aprendi a ler - ou pelo menos aperfeiçoei a arte - no meio dos livros mais loucos que eu desenterrava da biblioteca. Criei uns duzentos clubinhos, e cada um deles durava apenas o verão... e cada um deles era sempre o que "ia dar certo".
Todas as brincadeiras de criança que eu conheço na vida, sem exceção, eu aprendi ou desenvolvi lá. A casa foi meu playground. Meu universo controlado. Minha fortaleza, e, em tempos mais recentes, meu canto preferido para me esconder do mundo. Bastava dar uma parada lá, passar uma noite ou quiçá duas, fazendo palavras-cruzadas na sala, ou jogando algum jogo dos meus tios, ou simplesmente dando oi pras pessoas e zanzando pelos ambientes. Sentindo o amor que eu deixei ali pelas paredes, que ainda está ali, e vai continuar ali mesmo quando as paredes caírem e a casa perder seu propósito. Pedaços de mim que eu depositei ali, aos quais eu podia recorrer sempre que me sentia consumido.
As pessoas dizem que eu não sei deixar as coisas irem. E é a mais pura verdade. Eu não sei. Eu escrevo essas palavras de quem sabe que tudo o que passou vai permanecer lá e aqui, dentro de mim, mas eu não consigo me enganar. No fundo, eu não estou preparado, não quero, não consigo. Fico um marmanjo de quase 25 anos com a cara retorcida e secando lágrimas que não param de cair. Eu estou preparado para perder pessoas, mas nunca para perder coisas que deviam ser eternas. Mas nada é eterno. Um dia eu vou aprender. Não é como se restassem muitas outras coisas para perder, de qualquer forma...
Com a casa da minha avó, se vai uma grande, enorme parte da minha vida. Eu queria dizer que não vou passar lá na frente para não ver no que a casa se transformou, mas meus avós estão se mudando para um prédio a menos de 100m rua abaixo. Eu vou acabar vendo. Eu vou ter que encarar e passar por cima. Mas agora, eu só consigo tentar lembrar de algum recanto da minha infância que não tenha sido levado pelo tempo ou pelo acaso. E a contagem está muito, muito baixa.
Ainda assim, de todas as coisas que eu achei que um dia perderia, aquele castelo era o que eu menos esperava. Enfim. Acho que o jeito é erguer a cabeça e tentar construir, na minha própria família, algo no mínimo tão bonito e tão inesquecível quanto aquela casa. É uma tarefa hercúlea, quase impossível. Mas é para o futuro que eu tenho que olhar agora.
Mais um lar que viverá para sempre, mas só nos meus sonhos...
Desculpem o dramalhão.
Wind
É isso. O último castelo da minha infância se foi. Até o fim do mês, tudo o que eu vivi naquela imensa casa, tão fora de escala, tão fora do mundo que a cercava, vai estar enterrado, aplainado e tomado por uma escola. Assim, súbito, inesperado, mas não rápido o suficiente que me impeça de sofrer. Aliás, na dose certa para ser horrível.
Desde que eu me conheço por gente - antes disso, até - a casa da minha avó foi uma realidade paralela. Ficava em São José dos Campos, SP, mas nem parecia. Só muitos anos depois eu fui sequer saber como era a cidade do lado de fora dos muros de pedra. Ela era uma cidade contida em si, um mundo à parte. Imensa - a maior casa que já conheci e já visitei, sem sombra de dúvida - de paredes grossas, salas imensas, corredores e escadas mil. Havia lugares naquela casa que eu nem sequer conhecia - ainda há hoje, pelo menos um cômodo, o segundo sótão, em que eu jamais entrei. Lá, a realidade se fundia com meus sonhos de passagens secretas, túneis subterrâneos, tesouros escondidos. Lá, mais de meia centena de crianças cresceram e viveram, correndo desembestadas pelos corredores, descendo a ladeira proibida, pulando na piscina, correndo atrás dos cachorros (e vice-versa), explorando o porão do salão de festas como arqueólogos que descobrem a tumba do pai de Tutancâmon! (e era bem capaz dele estar ali, mesmo).
Lá, as vozes altas e vigorosas da família italianíssima ecoavam e retumbavam pelos cômodos. Cada natal, cada aniversário, cada pequena festa lá era um evento, com tantos parentes reunidos, todos animados, gritando, berrando, tantas crianças pulando e rindo. Passei todas as fases da vida lá. Nunca, nem quando eu morei em Salvador, eu passei mais de um ano sem botar os pés naquela casa. Ela me viu em todas as fases. Sentiu todos os meus humores, presenciou meus choros escondidos, embalou meu sono, riu da minha revolta com os mosquitos que a infestam e que me roubaram várias noites preciosas... me viu passar sonolento por lá por incontáveis domingos à noite, voltando do sítio e a caminho de São Paulo. Me ralou, escoriou, bateu e inchou cada vez que eu, criança sem freio, me arrebentava em seu chão de ardósia ou seus postes. Rachou minha cabeça com uma grade certa vez. Nem por um instante fiquei menos íntimo dela.
Conheço cada cantinho esquecido daquele lugar, e olha que existem muitos! Sei o que tem atrás de cada canteiro, embaixo de cada caixa jogada na Garagem ou no salão... conheci e brinquei com 20 mil cachorros que se revezavam vivendo lá em cada época, convivi com primos que eram quase irmãos, e sempre os reencontrei, mesmo que só de passagem, cada vez que voltei lá. Criei ódio do clima de buxixo, da fofoca velada, das intrigas familiares que eram uma faca no meu coração. Aprendi que os primos que se lascavam de bicicleta ao redor da piscina também cresceram, e eram agora os primos que saíam para sentar no boteco e jogar sinuca. Aprendi a ler - ou pelo menos aperfeiçoei a arte - no meio dos livros mais loucos que eu desenterrava da biblioteca. Criei uns duzentos clubinhos, e cada um deles durava apenas o verão... e cada um deles era sempre o que "ia dar certo".
Todas as brincadeiras de criança que eu conheço na vida, sem exceção, eu aprendi ou desenvolvi lá. A casa foi meu playground. Meu universo controlado. Minha fortaleza, e, em tempos mais recentes, meu canto preferido para me esconder do mundo. Bastava dar uma parada lá, passar uma noite ou quiçá duas, fazendo palavras-cruzadas na sala, ou jogando algum jogo dos meus tios, ou simplesmente dando oi pras pessoas e zanzando pelos ambientes. Sentindo o amor que eu deixei ali pelas paredes, que ainda está ali, e vai continuar ali mesmo quando as paredes caírem e a casa perder seu propósito. Pedaços de mim que eu depositei ali, aos quais eu podia recorrer sempre que me sentia consumido.
As pessoas dizem que eu não sei deixar as coisas irem. E é a mais pura verdade. Eu não sei. Eu escrevo essas palavras de quem sabe que tudo o que passou vai permanecer lá e aqui, dentro de mim, mas eu não consigo me enganar. No fundo, eu não estou preparado, não quero, não consigo. Fico um marmanjo de quase 25 anos com a cara retorcida e secando lágrimas que não param de cair. Eu estou preparado para perder pessoas, mas nunca para perder coisas que deviam ser eternas. Mas nada é eterno. Um dia eu vou aprender. Não é como se restassem muitas outras coisas para perder, de qualquer forma...
Com a casa da minha avó, se vai uma grande, enorme parte da minha vida. Eu queria dizer que não vou passar lá na frente para não ver no que a casa se transformou, mas meus avós estão se mudando para um prédio a menos de 100m rua abaixo. Eu vou acabar vendo. Eu vou ter que encarar e passar por cima. Mas agora, eu só consigo tentar lembrar de algum recanto da minha infância que não tenha sido levado pelo tempo ou pelo acaso. E a contagem está muito, muito baixa.
Ainda assim, de todas as coisas que eu achei que um dia perderia, aquele castelo era o que eu menos esperava. Enfim. Acho que o jeito é erguer a cabeça e tentar construir, na minha própria família, algo no mínimo tão bonito e tão inesquecível quanto aquela casa. É uma tarefa hercúlea, quase impossível. Mas é para o futuro que eu tenho que olhar agora.
Mais um lar que viverá para sempre, mas só nos meus sonhos...
Desculpem o dramalhão.
Wind
21.1.04
Muitas coisas a postar, acumuladas do fim-de-semana. Como diria Jack o Estripador...
* * *
Esse fim-de-semana foi especial. Há muito tempo que eu estava precisando dele. Passei na casa da minha avó paterna, em São José dos Campos, SP, o lugar onde o tempo parou. Notem que é diferente de "o lugar que parou no tempo". As coisas lá não se estagnaram. Apenas... sei lá, acho que estão estabelecidas há tanto tempo que não há mudanças grandes e significativas - apenas a evolução natural dos fatos. As pessoas crescem, passam a ter novos interesses, novas aspirações, mas o clima é sempre o mesmo da minha mais longínqua infância. E eu sempre lamentei a perda de todos os meus santuários infantis. Bem, a casa da minha avó é o último deles (há também o sítio em S. Bento do Sapucaí, mas esse foi adquirido pela família quando eu já tinha uns 6, 7 anos de idade, é relativamente mais recente), e eu estou feliz que a despeito de tanta especulação e tantas tentativas de vender ou alugar a casa, ela continua lá, e continua sendo do jeitinho que eu lembro.
Contribuindo muito para essa sensação está o fato de que esse domingo, conseguimos um feito raro e histórico: reunir todos os 21 netos dos meus avós na casa ao mesmo tempo. Ao longo dos últimos anos conseguimos várias vezes reunir "quase" todos, as mais notáveis ocasiões tendo sido o aniversário de 14 anos da minha irmã Isa, em que apenas uma dos 21 estava ausente, e as Bôdas de Ouro dos meus avós em 2002, que até anteontem eu achava que tinha tido presença de todos, mas descobri que dois estavam de férias em outro estado. Mas domingo não. Domingo estávamos todos lá. E é claro que a família italianona corujassa não perdeu a chance de registrar o acontecimento em 2583 fotos de diversas máquinas :) Foi um dia muito agradável, estar lá naquela casa, ver futebol na TV (incrível como TODO domingo que eu passo lá desde 1999 acaba tendo uma partida de futebol na TV que todo mundo se reúne pra assistir. Das coisas mais divertidas que há), improvisar um parabéns para mim mesmo, e ainda ter tempo de fazer coisas novas - como sair com grande parte dos primos para beber, jogar sinuca, correr de Kart e improvisar festa no meio da rua com o som do carro.
Dá uma sensação boa, de que por mais que seja numerosa, a família inteira é muito unida. São todos grandes amigos, e que sempre saberão se divertir juntos, seja correndo pela casa durante alguma brincadeira, quando crianças, seja jogando conversa fora e dançando só porque dá vontade, durante a juventude. Tenho certeza que quando formos todos senhores de respeito e com famílias próprias, arranjaremos alguma outra maneira muito divertida de passar o tempo juntos :)
* * *
Mas como minha vida se resume a uma palavra - surreal - pra variar, aconteceu uma doideira na viagem de volta Segunda. O ônibus viria direto, parando no meio do caminho na Dutra só para apanhar um passageiro. Chegando na parada, o ônibus encosta, uma menina que esperava com malas se despede do namorado, sobe, conversa com o motorista, e desce. Aparentemente o ônibus dela era o de 7:10, não o de 7:00. Não havendo outra pessoa na plataforma para pegar o ônibus, o motorista assume que o passageiro se atrasou e decide seguir viagem sem ele. Quando de repente, uma freada e um barulho.
Acontece que a mulher que iria pegar o ônibus estava realmente atrasada, e o marido dela, que a trazia de carro para a parada do ônibus, ao entrar no posto viu o ônibus indo embora, e não teve dúvidas: tentou pará-lo ENFIANDO O PRÓPRIO CARRO NA FRENTE DO ÔNIBUS. Conclusão: uma batida, o carro do cidadão destruído (e por questão de centímetros não acerta a mulher dele, que estava sentada no banco do passageiro. Imagina!), e a viagem interrompida por mais de 2 horas e meia para esperar um outro ônibus que nos levasse o resto do percurso... e o pior é que o pobre do motorista, que não teve culpa NENHUMA, estava extremamente preocupado porque, segundo ele, a companhia é muito rígida e ele estava arriscado a ser demitido por causa da babaquice alheia. Juro que não sei como o povo do ônibus não encheu o maluco de porrada quando tivemos todos que descer e trocar de carro...
E por conta disso ainda cheguei atrasado no trabalho. Só comigo mesmo...
* * *
E pra terminar, duas boas notícias. Uma é que me inscrevi de novo na Villa-Lobos! Dessa vez, pretendo fazer o curso de Arranjos Musicais. Acho que tem mais a ver comigo do que um curso de Piano em si. Ainda tenho que passar pelo teste aprovatório em Fevereiro, mas eu já passei uma vez, estou confiante que posso passar uma segunda :) E vai ser muito bom estar estudando música outra vez...
E a outra é que meus esforços arqueológicos urbanos deram resultado! COMPREI O LP DO ESPECIAL DA GLOBO QUE MAIS MARCOU MINHA INFÂNCIA, "A ERA DE HALLEY"! Estava procurando há tempos, e desde semana passada tinha achado um sebo de discos que o dono me garantiu que tinha uma cópia, mas estava perdida dentro da loja. Sexta-feira me ligaram pra dizer que haviam achado, e fui lá na segunda buscar. Está PERFEITO! :) Nem um arranhãozinho. Da loja, fui direto para um lugar que transforma vinil em CD e deixei o disco. Fica pronto amanhã. E o melhor de tudo é que o custo total dessa brincadeira ficou até abaixo do preço de um CD novo atualmente. 10 reais pelo disco, mais 15 pela conversão (que inclui tratamento digital do som, uma capinha com as imagens da capa do LP e tudo). Grande presente de aniversário pra mim mesmo :)
* * *
Aliás, falando em aniversário, aguardem em breve aqui comunicado oficial com a minha listinha de presentes 2004 e também marcando um lugar pra comemorar. Espero que vá mais gente que ano passado (eu convidei pra lá de 30, foram... duas).
Afe! Escrevi pra cacete :) Mas fazia tempo, então dêem um desconto :P
Wind
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Esse fim-de-semana foi especial. Há muito tempo que eu estava precisando dele. Passei na casa da minha avó paterna, em São José dos Campos, SP, o lugar onde o tempo parou. Notem que é diferente de "o lugar que parou no tempo". As coisas lá não se estagnaram. Apenas... sei lá, acho que estão estabelecidas há tanto tempo que não há mudanças grandes e significativas - apenas a evolução natural dos fatos. As pessoas crescem, passam a ter novos interesses, novas aspirações, mas o clima é sempre o mesmo da minha mais longínqua infância. E eu sempre lamentei a perda de todos os meus santuários infantis. Bem, a casa da minha avó é o último deles (há também o sítio em S. Bento do Sapucaí, mas esse foi adquirido pela família quando eu já tinha uns 6, 7 anos de idade, é relativamente mais recente), e eu estou feliz que a despeito de tanta especulação e tantas tentativas de vender ou alugar a casa, ela continua lá, e continua sendo do jeitinho que eu lembro.
Contribuindo muito para essa sensação está o fato de que esse domingo, conseguimos um feito raro e histórico: reunir todos os 21 netos dos meus avós na casa ao mesmo tempo. Ao longo dos últimos anos conseguimos várias vezes reunir "quase" todos, as mais notáveis ocasiões tendo sido o aniversário de 14 anos da minha irmã Isa, em que apenas uma dos 21 estava ausente, e as Bôdas de Ouro dos meus avós em 2002, que até anteontem eu achava que tinha tido presença de todos, mas descobri que dois estavam de férias em outro estado. Mas domingo não. Domingo estávamos todos lá. E é claro que a família italianona corujassa não perdeu a chance de registrar o acontecimento em 2583 fotos de diversas máquinas :) Foi um dia muito agradável, estar lá naquela casa, ver futebol na TV (incrível como TODO domingo que eu passo lá desde 1999 acaba tendo uma partida de futebol na TV que todo mundo se reúne pra assistir. Das coisas mais divertidas que há), improvisar um parabéns para mim mesmo, e ainda ter tempo de fazer coisas novas - como sair com grande parte dos primos para beber, jogar sinuca, correr de Kart e improvisar festa no meio da rua com o som do carro.
Dá uma sensação boa, de que por mais que seja numerosa, a família inteira é muito unida. São todos grandes amigos, e que sempre saberão se divertir juntos, seja correndo pela casa durante alguma brincadeira, quando crianças, seja jogando conversa fora e dançando só porque dá vontade, durante a juventude. Tenho certeza que quando formos todos senhores de respeito e com famílias próprias, arranjaremos alguma outra maneira muito divertida de passar o tempo juntos :)
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Mas como minha vida se resume a uma palavra - surreal - pra variar, aconteceu uma doideira na viagem de volta Segunda. O ônibus viria direto, parando no meio do caminho na Dutra só para apanhar um passageiro. Chegando na parada, o ônibus encosta, uma menina que esperava com malas se despede do namorado, sobe, conversa com o motorista, e desce. Aparentemente o ônibus dela era o de 7:10, não o de 7:00. Não havendo outra pessoa na plataforma para pegar o ônibus, o motorista assume que o passageiro se atrasou e decide seguir viagem sem ele. Quando de repente, uma freada e um barulho.
Acontece que a mulher que iria pegar o ônibus estava realmente atrasada, e o marido dela, que a trazia de carro para a parada do ônibus, ao entrar no posto viu o ônibus indo embora, e não teve dúvidas: tentou pará-lo ENFIANDO O PRÓPRIO CARRO NA FRENTE DO ÔNIBUS. Conclusão: uma batida, o carro do cidadão destruído (e por questão de centímetros não acerta a mulher dele, que estava sentada no banco do passageiro. Imagina!), e a viagem interrompida por mais de 2 horas e meia para esperar um outro ônibus que nos levasse o resto do percurso... e o pior é que o pobre do motorista, que não teve culpa NENHUMA, estava extremamente preocupado porque, segundo ele, a companhia é muito rígida e ele estava arriscado a ser demitido por causa da babaquice alheia. Juro que não sei como o povo do ônibus não encheu o maluco de porrada quando tivemos todos que descer e trocar de carro...
E por conta disso ainda cheguei atrasado no trabalho. Só comigo mesmo...
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E pra terminar, duas boas notícias. Uma é que me inscrevi de novo na Villa-Lobos! Dessa vez, pretendo fazer o curso de Arranjos Musicais. Acho que tem mais a ver comigo do que um curso de Piano em si. Ainda tenho que passar pelo teste aprovatório em Fevereiro, mas eu já passei uma vez, estou confiante que posso passar uma segunda :) E vai ser muito bom estar estudando música outra vez...
E a outra é que meus esforços arqueológicos urbanos deram resultado! COMPREI O LP DO ESPECIAL DA GLOBO QUE MAIS MARCOU MINHA INFÂNCIA, "A ERA DE HALLEY"! Estava procurando há tempos, e desde semana passada tinha achado um sebo de discos que o dono me garantiu que tinha uma cópia, mas estava perdida dentro da loja. Sexta-feira me ligaram pra dizer que haviam achado, e fui lá na segunda buscar. Está PERFEITO! :) Nem um arranhãozinho. Da loja, fui direto para um lugar que transforma vinil em CD e deixei o disco. Fica pronto amanhã. E o melhor de tudo é que o custo total dessa brincadeira ficou até abaixo do preço de um CD novo atualmente. 10 reais pelo disco, mais 15 pela conversão (que inclui tratamento digital do som, uma capinha com as imagens da capa do LP e tudo). Grande presente de aniversário pra mim mesmo :)
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Aliás, falando em aniversário, aguardem em breve aqui comunicado oficial com a minha listinha de presentes 2004 e também marcando um lugar pra comemorar. Espero que vá mais gente que ano passado (eu convidei pra lá de 30, foram... duas).
Afe! Escrevi pra cacete :) Mas fazia tempo, então dêem um desconto :P
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