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25.9.12

The 2nd Law - Review


E eis que, finalmente, o tão aguardado novo álbum do Muse, The 2nd Law, ganhou o mundo. Apesar de ainda não ter sido oficialmente lançado, a banda o disponibilizou para reprodução online em diversos serviços de streaming gratuitos ao redor do mundo. Ele pode ser ouvido em alta qualidade aqui ou aqui. Vão lá, eu espero.

Ok. Então que, depois do texto que eu escrevi aqui outro dia sobre o single Madness, pelo menos alguém deve ter ficado curioso para saber o que eu achei do disco completo. Tá, provavelmente ninguém, mas eu vou escrever assim mesmo, no mínimo pra tentar tirar do meu sistema e conseguir falar de QUALQUER outro assunto nas redes sociais. Vamos lá.

Antes de mais nada, meu texto anterior era cheio de previsões e palpites (i.e. chutes presunçosos), então nada mais natural do que iniciar esse review analisando se minhas previsões estavam certas ou erradas. A resposta é clara como a neve: sim e não.

"Epa, como assim?" pergunta o leitor hipotético, "Ou o álbum seguiu o caminho que você previu, ou não seguiu, certo?" Mais ou menos. Acontece que, contrariando todas as expectativas, The 2nd Law é basicamente um álbum duplo contido num único disco. Até certo ponto, é um tipo de álbum, que confirma brilhantemente minhas expectativas. Aí rola uma parada (mais sobre isso a seguir), e ele vira outro álbum, totalmente diferente, totalmente na contramão do que meu texto dizia. Porque esse é o Muse, vc acha que tá jogando par ou ímpar e eles mandam um número irracional pra te descadeirar de vez.

Comecemos então a análise pela primeira parte de T2L, a parte "hit parade" do disco. As cinco primeiras faixas do álbum: Supremacy, Madness, Panic Station, Prelude e Survival (as duas últimas são na verdade uma música só), são exatamente aquilo tudo que minha análise de Madness esperava que o disco fosse. São músicas comerciais, super produzidas, formatadas direitinho para seus respectivos objetivos: Prelude/Survival para ser a música tema dos jogos olímpicos, Madness para ser o single quebra-gelo, Panic Station para ser o segundo single (já confirmado) e milimetricamente calculada para explodir nas pistas de dança norte-americanas, e Supremacy - e não tem nada de oficial no que eu vou dizer agora além da obviedade blatante da sonoridade da faixa o gato saiu do saco, vide adiante - para ser o tema do próximo filme do 007, Skyfall, que infelizmente acabou ficando com a Adele. Cada uma dessas músicas é o perfeito exemplo de tudo que eu venho falando sobre o Muse desde o meu review de The Resistance, sobre eles terem dominado o processo criativo e agora conseguirem fazer qualquer tipo de música muito bem.

Eu sei que tem muita gente que me viu colocar Supremacy ali no meio das músicas comerciais e já quer minha cabeça. É fato que Supremacy é uma obra prima, uma faixa monstruosa, emocional, explosiva, e a melhor faixa de abertura de CD da história do Muse (não dizendo que ela seja melhor que New Born ou Sunburn, apenas que, como faixa de abertura, é mais apropriada). Não há como negar. Mas também não há como negar que ela foi feita tão sob "encomenda" quanto Survival. Eu não fui nem de longe o único a gritar "eita, James Bond!" quando escutou Supremacy pela primeira vez, e depois de ouvir a versão de estúdio, que tem um acorde em guitarra havaiana no final (que ficou de fora da versão ao vivo), eu tive certeza. O Matt já tinha dito publicamente que queria fazer a música do próximo filme do agente secreto, e agora que a música ficou pública, parece que o próprio Dominic Howard já nem faz questão de esconder as pretensões da faixa. Essa música é claramente o motivo principal do Muse ter escolhido trabalhar com o David Campbell como arranjador do disco novo, e valeu cada centavo com certeza. Além disso, Supremacy traz de volta um elemento fundamental da sonoridade do Muse nos primeiros discos, que eles ainda não tinham utilizado a contento nessa nova era de composições calculadas: a explosão. Unnatural Selection, uma das minhas favoritas do Resistance e a mais pesada do CD, era um desfile de texturas de rock n' roll que o Muse nunca tinha usado antes, uma forma deles dizerem "ei, a gente consegue fazer som porrada de qualquer tipo, escolha o seu," mas justamente por ser uma paleta aberta, eles omitiram as cores "padrão" da banda. Aliás, isso pode ser dito de todo o Resistance e, em boa parte, do BH&R também - a banda estava focada em ampliar seu portifólio musical, o que gerou muita coisa boa e interessante, mas naturalmente distante do que eles já sabiam fazer com maestria. The 2nd Law encerra esse ciclo, e tanto Supremacy quanto a controversa Survival são, em seu cerne, o Muse explosivo "das antigas" coberto de caramelo e confeitos e chantilly e polido e platinado e mais quantos acabamentos se imaginar, texturizados para soar exatamente como o projeto pedia.

Se ainda tem alguém querendo me degolar por ter dito que Supremacy foi construída ao invés de esculpida (ou, pior, que ela e Survival são músicas gêmeas), talvez seja hora de rever seus conceitos e aceitar que o Muse consegue fazer canções épicas, arrebatadoras e tão monstruosas quanto as clássicas sem precisar vomitar emoções num papel. E funcionam tão bem quanto. Claro, o zigoto que gerou Supremacy é, antes de tudo, um riff que eles usavam durante Citizen Erased nas apresentações ao vivo, então talvez seja uma questão genética, mas eu prefiro acreditar que eles são bons músicos que sabem o que estão fazendo, ao contrário de gente que acha que o Muse só foi bom naquela época.

Sobre Madness, já falei bastante e mantenho minha opinião.

Panic Station, por outro lado, é uma delícia. Nunca houve qualquer dúvida que ela seria o segundo single, é tudo parte do plano. Madness é a amaciada no bife, uma música simples e de fácil digestão feita pra chamar a atenção de quem não estava olhando (e conseguiu), e Panic Station é um  Whooper triplo com bacon extra e queijo e picles e cebola caramelada em forma de música, que é pra viciar o consumidor. Musicalmente, ela não tem nada a ver com nada que o Muse já fez. A base dela é o funk americano (mais uma vez, qual será o mercado que eles estão mirando? mistérios...) mas a mixagem, a produção, são irresistivelmente deliciosos. Quem não dança com Panic Station, bom sujeito não é. Perto dela, as outras faixas dançantes do Muse parecem brincadeira de primário. Se o topo das paradas norte-americanas não vierem dessa vez, olha, é muito estigma e má-vontade, porque PS é muito próximo do single pop perfeito.

E aí vem Survival, que, todos estão carecas de saber, foi o tema das Olimpíadas de Londres. Muita gente, para minha estranheza, despreza Survival. Já a li ser chamada desde "piada" até "corporate bullshit." O mais estranho é que, como já falei, ela e Supremacy são faixas irmãs. Ambas feitas com um propósito, buscando uma sonoridade e um clima específico. Ambas com letras bem vazias (aliás, salvo uma única exceção, as letras de The 2nd Law são todas bem descartáveis). Ambas são corporativistas. Nenhuma das duas é uma piada (a única música de piada do Muse até hoje permanece sendo United States of Eurasia, e foi uma piada que perdeu a graça bem rápido). Se a letra não faz nada pela música além de reforçar o que a melodia deveria te fazer sentir, como aquele nosso amigo lerdo que fica falando em voz alta tudo que está subentendido, é porque um tema olímpico realmente não tem lá grandes motivos pra ter letra. Mas ignorando essa parte, Survival é perfeita para o que se propõe, e é explosiva e emocionante como nada do Muse tinha sido desde Knights of Cydonia. Enfim, eu gosto e ouço sempre.

E até esse momento, The 2nd Law está super encaminhado para ser um cartão de visitas da banda, só faltando o telefone de contato e o "fazemos orçamento sem compromisso" impresso na capinha, e está tudo prontinho para que eles desembarquem em Hollywood como a Next Big Thing e tal, e eis que, assim que rolam os surdos do final de Survival, algo acontece e muda tudo.

Soam as batidas do coração de uma criança pelos alto-falantes da sala de ultrassom.

E The 2nd Law vira outro álbum. Um álbum tão cheio de emoções, conflitos, e - ironicamente - um álbum com um conceito muito bem definido. Um álbum que reflete o coração conflituoso do Bellamy como Showbiz e Origin of Symmetry refletiam. Um álbum sobre paternidade, sobre família. Um álbum que pega tudo que eu achei que sabia sobre a banda, amassa e joga no incinerador. Para nossa alegria.

Follow Me, a música que abre esse segundo e não-relacionado disco também entitulado The 2nd Law , é uma música que eu até agora, várias reproduções depois, ainda não consegui ouvir até o final sem ficar com um nó na garganta e os olhos marejados. Talvez porque eu também tenha virado pai nesses últimos 3 anos, também tenha escutado o coração do meu filho pelos alto-falantes e sentido o peso do mundo se retorcer em cima dos meus ombros em uma fração de segundo que muda tudo (e voltamos a essa simetria bizarra que me faz me refletir no Matt desde 2001, sempre em fases de vida parecidas a cada novo disco). Ela começa com o coração do neném, e logo entra a voz do pai. Arrastada. Derrapando. Escolhendo as palavras. E as palavras que ele escolhe são as mais simples e óbvias do mundo. E é o poema de amor mais bonito que ele já escreveu.

A música inteira é como a recuperação de um choque de realidade, da realização repentina que aquele pequeno coração batendo no sistema de áudio vai enfrentar tudo o que o nosso próprio coração já enfrentou, todas as dores, todos os sustos, os apertos, e a necessidade de dizer para aquela criança que nós estamos ali. Não temos a resposta para tudo, mas estamos ali. Na dúvida, nos siga, que a gente dá um jeito. É a síntese absoluta da sensação da paternidade, é um amor todo doido, todo incondicional que nasce na gente depois de macaco velho, de já nos acharmos experts em amor. Follow Me tem a letra mais simples de todo o disco - mais até que de Survival e de Madness - e no entanto é a mais profunda. Porque todas essas coisas são só o que se consegue dizer diante dessa experiência.

Daí em diante, seguem-se três faixas que mostram que Bellamy está APAVORADO diante da perspectiva de ter botado um filho no mundo. Deve ser difícil mesmo pra um teórico de conspirações assumido (o Chris revelou que ele chegou a estocar comida e se preparar para a chegada dos aliens na época em que compôs Resistance, ou seja, ele vai fundo na parada). Esse trecho é o que faz de The 2nd Law uma obra complexa, que acompanha a aceitação do pequeno Bingham pelo pai.

Animals é minha favorita do disco. Tematicamente, ela fala sobre corporações que se comportam como animais, passando por cima de tudo e de todos para enriquecer e se tornar o topo da cadeia alimentar. Aquele velho bla bla bla. Mas musicalmente, ela é um retorno súbito e inesperado ao Muse da era Absolution, despida de toda a superprodução do resto do álbum, apenas os três tocando seus instrumentos de sempre (guitarra+teclado, bateria e baixo), com muito poucos efeitos. É a música mais melancólica que eles se permitiram fazer em anos, e é aquele sinal que eu estava esperando que, por baixo de toda a produção e toda a megalomania, eles continuam tão bons quanto sempre foram. Junto com Supremacy, Animals traz de volta, em circunstâncias bem diferentes, o segundo elemento que andava falatando nos discos atuais do Muse, aquela já discutida alma. E também é um ato de coragem do Bellamy, que já disse semi-brincando que desistiu das letras pessoais e passou a fazer álbuns-conceito porque se sentia muito exposto. O "segundo" T2L é - musicalmente - quase um raio-x na alma do cara. Uma pena que ele continue se escondendo nas letras. Mas é o que eu sempre digo, paternidade amadurece as pessoas, certeza que ainda veremos muita coisa sincera vinda dele.

Se Animals é a melancolia, Explorers é a aceitação. A dicotomia entre a melodia de canção-de-ninar e a letra que diz que ter nascido foi "um erro aprisionando minha alma" e pedindo que "liberte-me deste mundo" poderia ter deixado a música, que fala sobre a raça humana esgotando os recursos e a beleza naturais do planeta, com um tom sombrio. Mas a sensação que ela passa é justamente a contrária. Quando a letra passa da primeira pessoa do singular para o plural, é como se Bellamy dissesse ao filho "eu entendo, eu também não pedi pra nascer, esse mundo é cheio de merdas, mas nós estamos juntos." e termina com um beijo de boa noite e com uma cumplicidade reconfortante entre pai e filho.

Já em Big Freeze, Matt já parece ansioso pela chegada do neném. A letra pede, genericamente, perdão pelos erros passados, e diz que estamos próximos de um "grande congelamento" mas ainda há chance de consertar as coisas. "Não deixe o sol em seu coração esmaecer," diz a letra. A batida é animada, a harmonia é contagiante, e traz a promessa de redenção e de coisas novas e boas. Exatamente o que um filho traz, um recomeço. Posso estar muito fora de linha aqui, mas nada no mundo vai me convencer que essas quatro músicas - Follow Me, Animals, Explorers e Big Freeze - não são uma pequena jornada pelo coração do Matt desde o momento em que descobriu que seria pai até pegar o filho no colo pela primeira vez. Eu sei que eu mesmo senti todas essas coisas - do medo de não ser um bom pai à emoção de poder criar meus filhos para serem melhores do que eu - e na falta de prova em contrário, é assim que o disco soará para mim eternamente.

Nesse ponto, temos as duas faixas compostas e cantadas pelo Chris, Save Me e Liquid State. As músicas são, primariamente, sobre a recente batalha dele contra o alcoolismo, e como ele quase chegou ao fundo do poço. Mas as músicas não foram escritas para ele, ou para a garrafa. Foram escritas para a família, que ele diz ter sido fundamental no processo de recuperação. E isso fica absolutamente evidente em Save Me, que é uma homenagem e um agradecimento à esposa e aos filhos que tiveram coragem de enfrentar todos os subterfúgios dele e trazê-lo de volta. Liquid State tem um tom mais raivoso, de desgosto com os efeitos da bebida e talvez consigo mesmo, por ter se deixado quase destruir, mas também remete ao socorro que ele precisou para sair do buraco. Duas músicas diferentes mas que se completam, e que contam como um homem foi salvo pelo amor da família. Nada mais natural que elas estivessem no "segundo" álbum.

Sonoramente, é claro que as faixas do Chris são bem diferentes do que se costuma ouvir nas faixas do Muse, mesmo as mais produzidas, mas acho muito exagerado dizer que elas destoam do resto. Panic Station destoa bem mais da curva normal do Muse do que Liquid State. Talvez seja o choque causado pelos vocais do Chris, que são claramente mais graves e arranhados do que a voz soprada e suave do Matt a que estamos acostumados, mas tirando isso, ambas as faixas são musicalmente bem consistentes com a banda na qual o cara toca há quase 20 anos, como não poderia ser diferente.

Arrematando o álbum, temos duas faixas instrumentais, Unsustainable e Isolated System, que, a exemplo da sinfonia Exogenesis, também são uma única obra, homônima do álbum, dividida em duas partes. Consolidando minha teoria dos dois álbuns, cada uma delas serve como um resumo, por assim dizer, das duas partes de The 2nd Law. Unsustainable tem uma grandiosidade calculada, orquestrada, intercalada com trechos eletrônicos inspirados pelo dubstep e com uma narração que alerta para a impossibilidade do modelo econômico atual se sustentar usando a segunda lei da termodinâmica (entropia) como argumento. Unsustainable é uma música com uma missão, e independente do quão bem ela a cumpra, ela reflete a alma da primeira parte do disco, um disco com uma missão - colocar o Muse entre os grandes nomes do rock mundial, vender bilhões, virar o novo U2 (aliás, não por acaso, quase todas as faixas de ambas as partes de T2L soam muito como o U2, um reflexo da enorme influência que a banda sofreu dos irlandeses durante o ano que passaram juntos em turnê).

Já Isolated System é uma viagem progressiva maravilhosa que se baseia em um riff de piano e uma batida ritmada eletrônica, aonde instrumentos e samples vocais chegam e saem, numa montanha russa emocional que é basicamente o tema da segunda parte de T2L. A mesma aula de física de Unsustainable agora ecoa vagamente ao redor da batida, como se nada mais tivesse tanta importância, nada fosse tão urgente. Vozes de coral, cordas, samples, todos eles passam pela espinha dorsal da música, às vezes, próximos, às vezes longe, mas nunca por muito tempo. Até que, ao final da música, a batida eletrônica lentamente vai se transformando novamente no que ela sempre foi: a mesma batida do coração do pequeno Bingham Bellamy, que lá na metade do disco sequestrou a concentração do pai no meio de seu discurso de vamos-salvar-o-planeta e o jogou nessa realidade maluca que é a paternidade e a formação de uma família. No final das contas, entendemos que Isolated System é, basicamente, a representação de como o bebê, de dentro do sistema isolado do útero materno, percebe seu pai.

O mais curioso é que ambas as partes de The 2nd Law, mesmo consideradas independentemente, soam melhores do que The Resistance. Sem desmerecer o álbum de 2009, a banda evoluiu quase que em todos os aspectos de lá pra cá. As músicas de trabalho do Second Law são melhores que as músicas de trabalho do Resistance. As músicas de coração, por mais que eu goste da faixa-título do anterior, também são melhores. E T2L é pessoal num nível que nem o Resistance, nem o Black Holes & Revelations se permitiram ser, o que faz maravilhas pela profundidade artística da obra.

Espero que daqui pra frente, o Muse deixe pelo menos um pedacinho de seus futuros álbuns reservados para faixas sem tanta maquiagem, nem que seja pra gente renovar o respeito pelos arranha-céus musicais que eles se especializaram em erguer do zero.

25.8.12

O novo single do Muse (e o que ele significa para a banda)


Quem me conhece sabe que o Muse é minha banda favorita desde meados de 2002. Por muito tempo fui dono da comunidade Muse Brasil no Orkut, segui a banda nos 3 primeiros shows que eles fizeram no Brasil, em 2008, e escrevi um longo texto no forum do MuseBrasil.com sobre eles na época do último álbum, The Resistance, onde falava basicamente sobre a trajetória da banda até então e sobre a minha relação com a música deles. Resumindo, Muse é um dos poucos assuntos sobre o qual eu me permito ainda escrever posts inúteis como esse aqui promete ser. Sigam por sua conta e risco =P

Pois bem. Em algumas semanas, o Muse lançará seu sexto álbum de estúdio, The 2nd Law, e nos últimos 2 meses a ansiedade veio crescendo em progressão geométrica, inclusive com a revelação gradual de três das 13 faixas do novo disco. No entanto, não escapou a ninguém o fato de que cada uma das 3 faixas já reveladas são bem diferentes das outras, e a mais recente - Madness, o primeiro single - gerou uma repercussão entre os fãs como eu não via desde que Supermassive Black Hole apareceu e fez alguns xiitas cortarem os pulsos (ok, talvez nem tanto, mas o dono da maior comunidade de Orkut da banda na época deletou a mesma num surto de raiva e muitos outros na MB abandonaram revoltados, só pra citar alguns chiliques). Aquela velha história de "OMG Muse acabou" e "Muse se vendeu" e etc. Dessa vez, curiosamente, eu não acredito que estejam de todo erradas. Mas acho que a surpresa é desmedida. Explico:

Madness não é a primeira balada soft do Muse, nem de longe. Nem tampouco a primeira faixa carregada na produção eletrônica - fora a guitarra durante o solo e a bateria, não há um único instrumento na faixa que não esteja pós-processado à exaustão - tendo sido precedida por Map of the Problematique e Undisclosed Desires, além da própria SMBH que só é rock ao vivo, em estúdio é um dance track. A diferença é que Madness foi escolhida como o single do novo álbum, e tem sido universalmente elogiada como a melhor música deles até hoje, inclusive pelo próprio Matt, para horror e confusão dos fãs, que se perguntam o que será que está acontecendo.

Bem, eu tenho algumas teorias (ou esse post não existiria).

Primeiro, devemos lembrar que Supermassive também foi o primeiro single de Black Holes & Revelations. Quem é fã de longa data lembra bem dessa época e do motivo dessa decisão. O Muse já tinha 3 álbuns de estúdio e mais dois DVDs ao vivo, enchia arenas na Europa, e quando entraram no estúdio vinham do maior show de suas vidas, Glastonbury 2004, um show que até hoje eles descrevem como um marco na trajetória da banda, o show em que eles perceberam que sua música podia mover as massas e alçá-los ao patamar de um U2. Só tinha um pequeno problema.

Eles não conseguiam igualar esse sucesso nos EUA por mais que tentassem.

Nessa época começou uma certa obssessão musical do Muse pelo mercado fonográfico norte-americano. O topo das paradas estadunidenses viraram, pra exemplificar de forma clara, a Libertadores corinthiana da banda. Eles tentaram de tudo, formataram sua sonoridade pra se encaixar no gosto ianque, priorizaram os singles "acessíveis" (o segundo single do disco, Starlight, é uma música dessas feitas pro público bater palminhas no show e pras patricinhas desmioladas gritarem "AI MINHA MÚSICAAAAAA" e cantarem junto a única que conhecem) e inclusive fizeram algo que eles mesmo admitem que foi como vender a alma para o demônio - viraram a banda de destaque na trilha sonora de Crepúsculo. E mesmo negociando as próprias pregas morais desse jeito, o Muse continuou sendo uma banda de nicho nos EUA (e, pra piorar, o lance com Twilight os estigmatizou de tal forma que foi um tiro no pé, tanto que se recusaram a continuar a farsa e abandonaram a trilha dos próximos filmes).

Então por que será que eles insistem e colocam Madness como abre-alas do novo álbum? Bem, ao que tudo indica, porque quem persiste eventualmente vence.

Nos dias que se seguiram ao lançamento de Madness, a positividade recebida pelos próprios figurões da indústria é um alento para o (ex-)power trio. Se as opiniões inflamadas de Chris Martin, do Coldplay - a maior autoridade em soft-rock-mela-cueca-que-vende-discos-a-rodo em atividade -, que chamou Madness de "a melhor música do Muse até a data," ou de quem quer que estivesse usando o twitter oficial do Keane quando postou que Madness "recuperou sua fé na música britânica," entre outros, servir de parâmetro, eu diria que o Muse também vai ganhar sua Libertadores em 2012 (ê, aninho...). A transformação daquela banda introspectiva que transformava angústia em linhas melódicas simultaneamente complexas e cruas em um sucessor do U2 como reis do rock-coxinha de lotar arenas está completa.

Agora, isso é novidade? Não, né? Black Holes & Revelations saiu em 2006. Isso foi 6 anos atrás. 6 anos e 2 álbuns inteiros, mais um b-side e 3 faixas novas agora. Tempo suficiente pra qualquer pessoa de bom senso notar que o Muse não é mais a banda do Origin of Symmetry e do Absolution. Se chocar com o rumo que The 2nd Law está tomando é mergulhar de cabeça no maior poço de amnésia seletiva do mundo. Nada do que eu disse acima é novidade pra qualquer pessoa que tenha lido uma única entrevista deles nesse período. O Muse pós-Glastonbury sempre almejou ser uma banda acessível e universal. Eles pararam de se refletir nas músicas e começaram a, conscientemente, passar mensagens. A mudança nas letras entre as duas fases da banda é a maior prova disso. Até o Absolution, eram fios-de-consciência truncados, obscuros, e muitas vezes resultado de viagens de cogumelo (que a banda usava pesadamente quando compôs o Origin). Dali pra frente, quando o Bellamy começou a decidir previamente sobre o que gostaria de falar, acompanhar a evolução das letras do Muse passou a ser como acompanhar a evolução do seu filho nas aulas de redação. A gente fica orgulhoso com o progresso, mas não vamos nos enganar e dizer que são poesias =P

Musicalmente, também, já passou da hora dos fãs pararem de esperar um álbum no estilo do que foram os 3 primeiros. Essa época acabou. Aquelas músicas que pareciam tão guturais e que ao mesmo tempo traziam riffs tão desproporcionalmente rebuscados? Não vendem. Me lembro até hoje de ouvir Sunburn pela primeira vez e pensar "caralho, esse moleque toca piano a sério" ou ouvir Plug In Baby e pensar "faz tempo que não ouço uma música contemporânea com um riff de guitarra tão empolgante e que não descamba pra punheta técnica estilo Yngwie Malmsteen ou John Petrucci," ou mesmo da primeira vez que os vi tocando ao vivo e pensei "CARALHO peraí ele toca piano e guitarra assim NO PALCO? Não foram 23 takes de estúdio??" e é uma época que eu me lembro com muito carinho, mas não tenho esperança nenhuma de ver a banda tocando nada desse naipe outra vez. Faz tempo. Hoje em dia o Muse destilou esse som e o engarrafou pra usar como apenas um dos vários ingredientes de suas músicas. E muito se engana quem diz que Muse agora soa genérico - qualquer pessoa que detesta a banda te dirá de cara que a música deles é sempre reconhecível, sempre "a mesma coisa." A textura musical que eles criaram ainda está lá, só que agora ela é dosada, calculada, formulaica. Nunca sobrando. Nunca tão espremida dentro do tempo de execução que parece que vai vazar, explodir, nos engolir (New Born e Stockholm Syndrome, estou olhando para vocês).

Isso faz com que o Muse atual seja ruim? Não. Pelo contrário. As 3 músicas que já conhecemos do 2nd Law provam que Bellamy, Howard e Wolstenholme se tornaram um canivete suíço musical, capazes ao mesmo tempo de escrever um tema olímpico, uma balada que transcende gêneros, e uma peça que mistura a orquestração dos clássicos com a textura do eletrônico de vanguarda. Três músicas que podiam ter sido escritas por três bandas diferentes, e que ao mesmo tempo gritam "Muse" por todos os poros. Matthew Bellamy continua sendo o cara que botou um um estudo de virtuose pianística no meio de um rock cheio de distorções e gritos e com uma letra emotiva, chamou de Sunburn e explodiu meu cérebro, mas agora quando ele escreve riffs rodopiantes, ele transforma em peças orquestrais inteiras; quando ele sente necessidade de falar da vida amorosa, ele escreve, lê, lê outra vez, calcula a métrica, escreve uma melodia exclusiva praquele sentimento, e lança uma balada perfeita. Quando ele quer socar o estômago do ouvinte com um vagalhão sonoro, ele mistura a progressão harmônica de Take a Bow ao piano estacado de USoE e bota um coral no meio da história. Tudo calculado. E continua excelente. Bem, exceto talvez nas letras, mas nosso garoto tá melhorando, vai! =P

Mas também não dá pra dizer que o Muse é o mesmo de quando eu ouvi pela primeira vez. Eu passei dias ouvindo Survival e a própria Madness no repeat quando foram lançadas, da mesma forma que ouvi Muscle Museum por duas SEMANAS a fio naquele distante 2002, e tem sido assim com todos os singles de todos os álbuns deles, basicamente. A característica "chiclete" é perene. Mas as músicas do Showbiz, do OoS e do Absolution eram tão cheias de nuances que mesmo agora, anos depois, eu ainda escuto coisas novas nelas. Tenho certeza que isso não acontecerá com Madness, assim como já não aconteceu com Undisclosed Desires que, após o fim do período de repeat intenso, virou uma faixa que eu já nem presto atenção direito quando ouço. Não porque ela seja ruim, mas porque essas faixas pop se esgotam rápido (e é pra ser assim, afinal o pop vive de rotatividade). E se tem uma coisa que me deixa triste quando penso no Muse de ontem e de hoje é lembrar de um cartaz na platéia do show do Le Zenith, imortalizado no primeiro DVD deles, Hullabaloo, que dizia "Thanks for bringing back the soul to rock n' roll." Esse cartaz, que tanto me representou, está obsoleto. A alma que o Muse trouxe de volta já não está mais lá. Foi engarrafada e posta a serviço da vontade. E teria que ser, por questões de sobrevivência. Não acredito que a banda tivesse durado muito mais se eles não tivessem saído da adolescência musical e começado a tratar a música como seu ganha-pão. Nada de inglório nisso, e, verdade seja dita, temos 3 discos e um cacetão de B-Sides daquela época pra onde corrermos quando quisermos aqueles arrepios. Mas música desse tipo, agora, só quando surgir o próximo Muse.

Talvez, eventualmente, a banda resolva fazer como o Radiohead que depois de muita estrada resolveu abrir um parêntese e escrever o OK Computer 2 (a que chamou de Hail To The Thief), fez sucesso, e seguiu de onde tinha parado. Talvez no aniversário de 15 anos do Absolution (já que o de 10 tá muito perto) eles façam um Absolution 2. Mas não esperem o raio caindo no mesmo lugar pela segunda vez. Se esse disco acontecer, será obra de uma autoreferência (ou auto-paródia) consciente, e o som pós-processado pode se disfarçar de seminal (ou talvez eles façam como o Foo Fighters que gravou um disco "de garagem" e teve um estrondoso sucesso com ele, ganhando Grammys de baldada) mas será ainda resultado de uma reunião pra decidir e compôr as músicas que eles querem, não vai ter nenhum poema saindo de fundo de gaveta, nenhum jam session de ensaio se tornando riff e brotando em música. Claro que esses momentos provavelmente ainda existem, mas eles virarão uma ou duas músicas, não mais uma filosofia como já foram.

Mas enfim, é cedo demais pra falar, o disco ainda não saiu, sabemos que ele tem coisas novas (duas faixas inclusive escritas e cantadas pelo baixista Chris Wolstenholme num momento bem intenso da vida dele, a luta contra o alcoolismo, que todos nós esperamos que soem como o Muse de antigamente, as chances são boas) e ainda tem 10 faixas pipocando por aí que podem desdizer tudo que eu escrevi aqui em cima. Ou podem confirmar. Não estou apostando grana em nenhuma das opções, mas estou, sim, bem otimista com a possibilidade de pelo menos alguma delas se tornar uma das minhas favoritas de todos os tempos, como a faixa-título de Resistance se tornou mesmo 3 anos depois de lançado o último álbum. Estou fazendo figa! Hope that means something =P

19.6.08

bury it
I won't let you bury it
I won't let you smother it
I won't let you murder it

our time is running out
our time is running out
you can't push it underground
you can't stop it screaming out
How did it come to this?
ooooohh

http://www.vivorio.com.br/shows_detalhe.asp?ID=77

11.1.04

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH PUTA QUE O PARIUÔÔÔÔÔ!!!!!

A WARNER MUSIC LANÇOU O ABSOLUTION NO BRASIL!!! MORRI MUITO!!!!!!

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